Monday, January 11, 2010

Rosas


Magritte - Rosa
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jardim de rosas falsas
em valsa
céu azul Magritte

(pano de fundo
para esta dor
azeviche)


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O SAL DAS ROSAS
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Leito de um rio de sal.
Cresce em mim
o desnecessário.
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Apodreço em rosas.
Rio sem foz.
Lua duplo espelho
no coração das águas.

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Lembranças,
esperanças
naufragam abraçadas
no involuntário rio
onde acordo.
(O sal das rosas / Lumme Editor - 2007)
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DELANTE DE LA VENTANA, EL ROSEDAL

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Testamento enterrado

a la sombra del rosedal:
Le dejo mi guitarra

al vendedor de la panadería.

La hierba bendita

a la vieja del balcón.

La caldera

que silba Villa Lobos

al Fray Gustavo

que cose almas

los miércoles por la mañana.

El libro de poesía

de Augusto dos Anjos,

al cobrador del Expreso 022.

Firmado:
La niña de los ojos tristes.

Chico Buarque me llamaba de Carolina,

Pero era sólo un disfraz.

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Soy yo la niña

que vio el tiempo pasar en la ventana,

sin ver.

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DIANTE DA JANELA, O ROSEIRAL

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Testamento enterrado

à sombra do roseiral:
Deixo meu violão

para a balconista da padaria.

A erva benta

para a velha do sobrado.

A chaleira

que chia Villa-Lobos

para Frei Gustavo,

que costura almas

nas manhãs de quarta.

O livro de poesia

de Augusto dos Anjos,

para o cobrador do expresso 022.

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Assinado:
A menina dos olhos tristes.

Chico me chamava de Carolina,

mas era só um disfarce.

Sou eu a menina

que viu o tempo passar na janela,

sem ver.

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- O sal das rosas (Lumme editor/2007)



AS ROSAS MORTAS A ME CONTEMPLAR

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Quando eu era menina
tinha medo da cortina
que lembrava
o quintal do mal.
Era adornada de pecado
rosas em gritos menstruais
sangrando folhas descomunais.
Durante o dia eram bizarras.
Na noite me assombravam
formando rostos
na contra luz da lua azougue.
Eu farfalhava no colchão
cerrava os olhos
encolhia-me em posição fetal.
Nunca disse à minha mãe
(que trocaria a cortina – para minha paz)
Nasci de frente para os fantasmas.
Contemplo.
Não expulso.
Não acendo a lâmpada.
Enfrento.
No quarto escuro
(agora da alma)
os mil rostos
de rosas mortas
a me contemplar.
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A última chuva - (ME - 2007)

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LENDO CLARICE LISPECTOR


Mulheres
Sofrem meio às rosas
Espinhos escondidos
Em seus cabelos.
Seios nus
Beijados pelo amado.
Lençóis ao vento.
Vela de um barco
Onde o timão balança
Entre a neve
E a primavera.
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Todos sofrem:
A gota prata
Do orvalho na rosa
É lágrima fêmea
Que brilha
Enquanto sofre.

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(O sal das rosas - Lumme Editor -2007)

...

Ela:

...

Sépala, pétala, espinho.

Na vulgar manhã de Verão –

Brilho de orvalho – uma abelha ou duas –

Brisa saltando nas árvores –

- E sou uma rosa!

EMILY DICKINSON