.
.
DESDÊMONA
.
Olhou-me como nuvem
a sugar os vapores da minha alma.
Por que ele é meu deus
guardei-o em um lago
onde Iago jamais chegará.
***
. . . .MAÕS DE ABRIR NUVENS
Ter mãos de abrir nuvens
Romper o velcro de baunilha
E espiar
Dentro a catedral
Dos sonhos
Um rito de encanto
Crianças e lagos
E mapas emaranhados
A Sexta Avenida
Deságua no Eufrates
E as barcas cruzam
De Bagdad ao Mojave
As mãos se enlaçam
Negras brancas
Amarelas azuis.
Ter mãos de abrir nuvens
Descobrir a alma de neve
E perfume
Que se fazem
Pássaros
Camelos
Bailarinas.
Quem possui mãos de abrir nuvens?
Quem rega pedras
E pesca pássaros
Em tempestades
E ancora no alto
Da montanha mais alta
Suas caravelas.
Quiçá Penélope,
Sem manto, grilhões e espera.
A abrir nuvens
Além da torre de concreto
Em pleno azul
Entre a brancura espumada.
Mãos de mulher livre
A abrir o velcro
Da humanidade encantada.
.
.
PULMÃO DE DEUS
.
Sussurro suave ao redor
nuvem de seda embalando astros
Aqui, onde respira a vida
perfume de malva
silêncio de córrego entre pedras
Ar lúcido de luz.
.
.
LEQUE DE NUVENS PARA O DEUS DAS ONDAS
.
O leque de nuvens se reflete na areia de mármore.
Alento de tarde pagã.
Distante, a carranca do deus das ondas escureceu o mar.
O coqueiro se eriça.
Cais sobre mim feito neve nos Alpes.
E a tarde abraça o nosso abraço.
(Pulmão de Deus e Leque de Nuvens para o Deus das Ondas - poesias do livro - O sal das rosas - Lumme/2007)
...
CLOUD COLD
...
Minhas nuvens acima, abaixo as nuvens de Sylvia Plath:
.
As nuvens passam e se dispersam.
São aquelas as faces do amor, aquelas pálidas irremediáveis?
Para isso é que meu coração se turba?
.Sylvia Plath (fragmento da poesia - Árvore - trad. Vinícius Dantas)
. . .