Tuesday, February 15, 2011

Haicai e seus afluentes - Edu Hoffmann

(Recebi este e-mail do Edu Hoffman. Os meus haicais que estão neste texto são fragmentos de poesias do livro Noir. O Edu raptou alguns versos e transformou em haicais)



Haicai e seus afluentes




Haicai é um poema de origem japonesa, que chegou ao Brasil no início do século 20 e hoje conta com muitos praticantes e estudiosos brasileiros. No Japão, e na maioria dos países do mundo, é conhecido como haiku.
Segundo Harold G .Henderson, em Haiku in English, o haikai clássico japonês obedece a quarto regras:
- Consiste em 17 sílabas japonesas, divididas em três versos de 5, 7 e 5 sílabas.
- Contém alguma referência à natureza (diferente da natureza humana).
- Refere-se a um evento particular (ou seja, não é uma generalização).
- Apresenta tal evento como “ocorrendo agora”, e não no passado.
O grande mestre desta arte é Matsuo bashô (1644-1694). Ex-samurai, monge praticante do Zen e estudioso das escritas clássicas chinesas e japonesas, dedicou sua vida ao seu aperfeiçoamento espiritual e à escrita. Observações da natureza, impessoalidade, rapidez, síntese e transcendência deram um toque zen a esta forma de poesia..
No Brasil foram feitas algumas traduções de Bashô; no entanto, como o idioma japonês é feito de ideograma, a tradução literal torna-se impossível. Mas a beleza permanece:


“Velha lagoa
o sapo salta
o som da água”

*


“Primavera não nos deixe
pássaros choram lágrimas
no olho do peixe”
(Tradução de Paulo Leminski – Ed.Brasiliense - Matsuo Bashô – A Lágrima do Peixe – 1983 – Coleção Encantos Radicais )


“A nuvem atenua
o cansaço das pessoas
olharem a lua”

*


“Em cima da neve
o corvo esta manhã
pousou bem de leve”

(Tradução de Millôr Fernandes – Ed.L&PM Pocket – Kai-Kais – 1997)


Quando o haicai começou a ser feito no Brasil, ele tropicalizou-se. A primeira mudança visível foi a rima, não praticada originalmente. Isso já deu um jeitinho mais brasileiro ao poema. E também deixou de existir a necessidade do haikai tratar de observações da natureza e da impessoalidade.



O cartunista Solda cometeu esse haicai que considero genial:



Faltou assunto
fiquei a sós
com o defunto


Millôr Fernandes saiu com esse:


O que me adiantaria
comer Maria
se ninguém saberia ?



No meu livro “Bambus”, bashô o santo em mim:



Blues morcego blues
diabo botando letra
na melodia de Deus

O Baianárabe Waly Salomão criou:


saudade
é uma palavra
o sol da idade
e o sal das lágrimas


Gostei tanto da brincadeira de rebuscar os haicais, que tive a curiosidade de verificar o que tenho em casa de livros de poetas “haikaistas” brasileiros. Verifiquei que, ao tropicalizarmos o zen, brotaram uns haikais bastardinhos bem zenvergonhas, porém deliciosos! Dos livros que tenho, peguei dois poemas de cada. Mergulhe !


Ricardo Silvestrin:


Oswald
pôs o pau
Brasil pra fora


*

Porta de escola
eu sentado
dentro de mim



Jaques Brand


Muro caiado
Ah meu amor de olvido!
Muro caído
Ah meu amor de enfado!


*
um tigre
dois cisnes
três signos




Edu Hoffmann



memória rã
meu micro
sóft!
na lagoa


*

poeta nua
no moon
da lua



Alice Ruiz



o ai
quando o filho
  c
      a
          i


*


que viagem
ficar aqui
parada


Paulo Leminski



isso aqui
acaso
é lugar
para jogar sombras?


*


coração
pra cima
escrito em baixo
frágil!



Mario Flecha



pela manhã
o quarto desarrumado
ainda o sonho das filhas


*


inverno

naquela manhã
eu e vovô
enterramos meu cachorro



João Ângelo Salvadori



tudo parece pouco
mal o dia amanhece
quero outro


*


olhos cheios de mar
me estico na cama
e fico boiando





Mário Prata


a lua no cio
os elefantes caminham
na beira do rio

*


lençol vermelho
lua branca
no travesseiro



Helena Kolody


persigo um pássaro
e alcanço apenas no muro
a sombra de um vôo


*

de grinalda branca
toda vestida de luar
a pereira sonha


Solda


Bashô, Busson e Issa
o resto
é pra encher lingüiça


*


Bashô, meu pai
conceda-me
apenas um haikai



Thadeu Wojciechowski

pra pai
até que levo jeito
pra mãe
não tive peito


*


a canção que soa
tem o coração do vento
que me sopra à toa




Sérgio Rubens Sosséla


uma andorinha
s o l
faz verão !


*


a esperança
de você viver comigo
dourou um dia inteiro



Jack Kerouac
eu, meu fumo
minhas pernas dobradas
pra lá de Buda


*


tem nada lá
só porquê
eu não quero


Valnei Andrade


o sol na rua se movimenta
o menino sentado olha
o velho em câmera lenta

*


traço de nanquim
bashô pinta só
plantas no xaxim



João Ângelo Salvadori


rigor do ofício
tudo que não seja haicai
é um desperdício


*

lua errada
revirei toda a noite
e nada



mais alguns avulsos:



Paulo Franchetti


ao virar a esquina
saindo detrás do prédio
a lua cheia



Yosa Buson



frescor
a voz do sino
quando deixa o sino !





Teruko Oda


noite de verão
na janela envidraçada
cabe a lua cheia



Paulo Leminski


tarde de vento
até as árvores
querem vir para dentro



Thadeu Wojciechowski



conversa de passarinho
por ninharia me sinto
um estranho no ninho



Issa Kobayashi


caracol,
docemente, docemente
escala o Fuji



Yosa Buson


halo de lua:
não é o aroma da ameixeira florida
nascendo no céu ?


Solda


primavera
ainda esta semana
cometo um ikebana


Edu Hoffmann


vem de longe
d i v a g a r
se vai ao monge



Bárbara Lia



No galho alto
Pássaro bicou a paina
Repercutiu neve


*


Não dá para respirar
Lambendo meu coração
O ar agora arranha




Lisa Carducci (Québec)


durante teu sono
brinco com as nuvens
e nem percebes




André Duhaine (Québec)


nos vidros
marcas de dedos e narizes
observam a chuva



Jeanne Emrich


seu jardim
meu jardim
a cerca no meio





Edu Hoffmann, natural de Jacarezinho-PR. Poeta e jornalista,  em Curitiba desde 1974. Autor dos livros Trens, Rasantes, Sete Quedas da Paixão e Bambus.