Monday, August 22, 2011

Glauber Rocha um poema anárquico

(Glauber Rocha - Vitória da Conquista, 14 de março de 1939Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1981)


anda muito pobre o meu País, anda muito pequeno este lugar, anda tísico e cego o meu País, anda rastejando este lugar... os deuses morreram todos e não sobra um único sopro de beleza e nenhum grito de Liberdade.
não tem coragem o meu país, não tem horizonte, não tem som e nenhum grito que acorde as crianças e embale os meninos...
não tem poesia o meu País, não tem projetos, não tem eco de trombeta, aposentaram o apocalipse, não tem mais Glauber o meu País; ou tem alguns loucos soterrados pelo tempo asséptico do bom mocismo enojante, não tem vísceras o meu País, não goza mais este País, não fica nu, não ultrapassa a linha que vai fazer soar a engenhoca presa nos calcanhares, somos um batalhão de presos domiciliares, embebidos de mensagens protocolares de mil amigos e a solidão rindo sarcástica no sofá da sala...
não tem espaço para os loucos este meu País, é um País de doutores, de engomados o meu País, a Arte virou um cenário de entrega do Oscar, tanta gente concorrendo e uma platéia burocrática aplaude este cenário de cinema americano, esta caminhada desolada rumo ao Shouth  American way of life. É um País arena este País, de disputas de egos acima da ARTE, um País de réplicas e tréplicas...
O celeiro do mundo que vai seguir sem agarrar o cordão umbilical que é a corda que atracou a caravela de Cabral e sacudir as marés e dizer a que veio, prefere a placidez covarde este meu País,  quem sabe a bovinização eterna.
Você morreu e deu espaço para o início das outras mortes, toda a poesia, toda a utopia, toda a Liberdade, toda a delícia de extravasar a humanidade até a terra entrar em transe, e o silêncio foi sacudindo tudo e foi selando todas as bocas. E o sangue vivo de um País inteiro secou quando secou em seu corpo.
Viva Glauber e os loucos atirados vivos às catacumbas, os loucos livres que não podem erguer os braços e gritar como gritavas toda a sua Liberdade e o Encanto de SER QUEM ERA.

Bárbara Lia em reverência ao grande poeta anárquico...