Monday, September 03, 2012

O ritmo da prosa



Saudades da mulher ávida que se sentava nas platéias e bebia com ansiedade cada palavra dos seus autores mais amados. Lembro de ouvir Ana Miranda dizer que ficou nove anos pesquisando, sem sair com amigos, sem vida social, debruçada em documentos e encerrada em Bibliotecas na pesquisa que propiciou aquela obra maravilhosa - Boca do Inferno. Eu estava encantada com o livro, com a autora que estava em minha cidade. Recordo estes dias como o bálsamo primeiro, o sopro, a poesia. Eu buscava os ícones para me espelhar em seus caminhos. O mundo virtual onde todos caimos torna quase uma lenda esta mulher (Ana) em um lugar, desconectada do mundo, cobrindo a mesa e a cama com toda a papelada que vai engendrar uma história magnífica. Insisto. Por pura teimosia de virginiana e guerreira - Insisto. Por isto, eu calo meu blog, não estou presente em tanto alarde que permeia as redes, fico aqui nesta trincheira do ontem, cultivando um enredo, pois eu ainda sou a menina de doze anos a voar nos verões de ouro no balanço rústico da casa feliz, compondo aquela certeza de que um dia seria escritora. Sinto saudades de ouvir algo que espelhe a vida de um escritor tal qual eu presumia. As manhãs caladas, o batuque das letras, o mundo descortinando o novo. O ritmo da prosa é este. Por estar neste ritmo eu não estou postando aqui. Neste ano a poesia brilhou aqui e ali - Os sonetos dialogando com Fernando Pessoa nas páginas do Rascunho. A publicação de A flor dentro da árvore. O Prêmio Cataratas que me levou ao evento em Foz do Iguaçu no mês de Maio. O convite de Celina Portocarrero que me levou ao Rio para festejar a Antologia - Amar, Verbo Atemporal. Penso em voltar ao verso como quem volta ao amante mais desejado. Por enquanto é a prosa, o ritmo lento, a pesquisa, o apego ao silêncio. Lá fora a vida literária é puro alarde. Muitos acreditam que é preciso ser visto para ser lembrado. Eu penso que só uma obra de valor pode fazer qualquer autor ser lembrado em qualquer tempo. Se a Literatura deixar de ser o que até aqui tem sido, prefiro me isolar para sempre. Quem não é visto não é lembrado para mim tem cheiro de pop pobre e equivale a dizer que tudo vale a qualquer custo. Que graça tem isto? Que graça tem se a magia maior é o momento da criação? E só ele importa e sem ele nada há. Mergulho nele e faço deste momento a minha Festa.