Wednesday, February 27, 2013

verão inacabado

                                                                                      Claudia Cardinale e Jacques Perrin



Verão poético inacabado. Até o final do verão pretendia dia a dia mostrar a minha biblioteca poética. A infinidade de livros de poesia com dedicatória, poetas do Brasil e do exterior.   Agora, minha impressora entrou em crise existencial. Não quer reconhecer o cabo USB, alguma coisa que meu filho explica diante da minha pequena irritação ao perceber que não posso escanear nada. Imprimir nada. Por ora, preciso suspender as postagens do verão poético. Esperar voltar ao normal tudo por aqui. Respira fundo. Respira fundo.
Fica este verão inacabado, com poucos livros e as duas postagens de canções do sobrinho Lincoln, conto erótico do amigo Back. Verão poético em sete tempos. 
Verão é quase ficção em Curitiba. Sempre chuva, temperatura amena. O verão a gente inventa dentro de um livro, na memória, na saudade das horas de verão da alma. Dentro o outono bate à porta dos meus anos, eu digo - Espera. Descartei aquela menina romântica dos anos setenta, aquela esposa amorável dos anos oitenta. Estive a pensar nos homens da minha vida como fósforos e pirilampos... Muitos fósforos. Paixão é coisa que se equipara a acender um fósforo, a chama queima rapidamente e quase sempre nos queimamos. Não queimar essencialmente no encontro de amantes, mas, queimar algo que separa, rompe, afasta. Quando penso em amantes que se transformaram em amigos que eu perdi eu fico com aquela sensação de derrota. Depois, vem a certeza de que os encontros são como caxumba, sarampo. Doença inevitável que gruda e não somos imunes. Não há vacina para o encanto, o desejo. Talvez eu tenha o - dedo podre - sempre meu olhar de fogo para pessoas com as quais eu nunca deveria me envolver. Forçando um pouco a memória dos meus amantes nestes vinte anos que é o tempo de ruptura do meu casamento, eu os vejo sempre em duas categorias: Os homens que chamaram minha atenção e acabaram se envolvendo comigo, eles queimaram como fósforos entre meus dedos. Luz artificial que roubei, noites de amor com desejos partilhados e o encanto em uma única via - a minha via - quiçá. Os homens que me olharam primeiro, jogaram suas redes para envolver-me, puxar para si com ardor, estes são pirilampos. Ainda brilham em algum instante quando a memória evoca aquela cena, outra cena, um outro momento. E, estes são ternos, cálidos, amigos ainda. Os "fósforos" primaram pelo ego, falas toscas que guardo. Aquilo de se acharem acima e melhores e os caras e etc. etc. O ego, pois devo dizer que neste milênio só partilhei meu coração corpo desejo com estes seres estranhos e complicados chamados - poetas. Isto está muito confessional, se eu quisesse criar polêmica escreveria um livro, narraria a odisseia destes encontros. Eu os recordo como um lugar de fuga que traz completude aos meus dias de loba solitária, mas calo. Calarei. Jamais dedicarei - outra vez - um livro, ainda que seja ao magnífico. Aquele que agora eu encontrei uma palavra para definir - Ulay. Este papo todo que emerge meio ao meu cotidiano mais voltado para minha casa, filhos, neto, livros por concluir, livros para publicar, chuva intermitente de verão curitibano, mundo caótico com UTIS predatórias e falta de senso em todo canto e jornalistas que me dão asco, meio literário empobrecido em todos os sentidos, falta de humanidade... Meio aos meus oitocentos diálogos interiores que é a rotina minha, eu vi um vídeo. Um vídeo que encontrei no Facebook. E senti saudades daquela menina romântica que acreditava neste pequeno grão graal que é ter alguém no mundo que faz estrelas brotarem em sua íris... É preciso falar sobre esta história, da forma como ela surgiu e quando vi o vídeo eu pensei em como existe para cada mulher do mundo este homem-Ulay, alguém que o passar do tempo não destrói, capaz de acender luz nos olhos, trazer memórias indescritíveis. Para viver um grande amor não é a paixão apenas, não é a maior boa vontade, sacrifícios em nome de nada ou coisa alguma. Para um grande amor é preciso que duas pessoas de grandeza interior se choquem. Grandeza interior. Nenhuma outra grandeza. Isto serve para a personagem Macabéia com sua - hora de estrela - e serve para Marina Abramovic. Isto para assinalar que creio piamente que o amor visita primordialmente o simples e por ser amor visita também alturas. Então, eu tive certeza dos poucos pirilampos com os quais choquei pela vida. Sim, um pirilampo-mor, meu Ulay. A certeza de que é preciso mais que humanidade para viver um grande amor, é preciso o toque divino que eleva. E nem importa se você conviveu cinco anos (como Ulay e Marina) cinco dias ou cinco horas, cinco minutos. Dez minutos... Remember? A vida, a vida, a vida...


“Nos anos 70, Marina Abramovic viveu intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando performances. Quando sentiram que a relação já não valia, decidiram percorrer a Grande Muralha da China, dar um último grande abraço e nunca mais se ver. 23 anos depois o MoMa de NY dedicou retrospectiva a sua obra. Nela Marina compartilhava 1 minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem ela saber, e foi assim.” Maeve Jinkings