Sunday, February 24, 2013

Verão poético (e erótico) nº 7



Sylvio Back - arquivo pessoal



Ada, assim 




Revejo-a. Cinquenta anos depois. É muito tempo, hein? Ou não? Para um morto é pouco, você diria! O rosto chapado, encarquilhado. Como o meu. As coxas ainda soberbas (dá pra ver pelo volume do andar). Iguais às minhas, obra e graça da musculação para macróbios. Revejo-a, assim, sem mais nem menos. Esquecida, esquecida estava para sempre. Agora, intacta, incólume, impávida, como é que pode? É isso que se chama física quântica? 



Numa rua qualquer, num dia, idem, numa tarde única. Aquela chuvinha fina de Curitiba. Faltam nanossegundos para eu reconhecê-la. Ela não se demora nada. Cabelos desarrumados, é o vento sul. Alisei os meus, mais branquelos do que os dela. Devem ser pintados, invejei. O que importa, afinal? Num primeiro ímpeto, os corpos simularam se grudar ali mesmo. Feito ímã, um tanto gasto, pois não. Mas, antes que algum calor transite entre nós, só leve enrubescimento: pisca-pisca de alerta. Aliás, mútuo, coadjuvado por uma fisgadinha, alhures. Nem tão alhures, confesso, infelizmente, impossível nomeá-la nesse átimo. Ao nos tocarmos, bingo! A vertigem vira tremor. Ou será temor? É aí que Ada faz-se a deliciosa Ada do baile de Carnaval de 1958. 



Aqueles peitões antológicos! Esquecer? Impossível, se eles mantêm-se incólumes! Toda vez em que nos encontrávamos, dito e feito, Ada tinha orgasminhos em série. Como se fosse dar um troço nela. A orelha ficava magenta, os lábios, flamantes, olhos de lobisomem. Ada se imolava, era um fogaréu de Eros. Coisa rápida, imperceptível a quem passasse ao largo. Eu, sim, testemunhava fingindo que não. Sabia e mui caridoso ficava enxugando umas lagriminhas alegrinhas rolando pelas bochechinhas. Nem preciso dizer que agora o incêndio se reprisa com a mesma intensidade. Tesão não tem idade nem cabimento. O tranco, porém, é maior. 



Como é que pode? Como é que pode, santo Deus? Será que Ada conseguira recapturar, nesse exato fortuito, todos os gozos que juntos tivemos? Memória afetiva, como é o nome disso mesmo? Ou será que é pura imaginação, como alguém que jamais se olha no espelho, nem pra fazer a barba nem pra se pentear? Existe essa pessoa? Ada, ao menos, continua o orgasmo tal qual. Tremelica e, curiosamente, não fica mais tão vermelha. Ao contrário, parece que rebobina gozos estrangeiros, de outrem, de outrens, esse neologismo me ocorre diante da volúpia dela. O que não se faz e pensa tomado de volúpia, hein? Ada era a própria. Mais: a luxúria nua e crua, vestida dos pés à cabeça. Subitamente, o agarra-agarra vira atentado ao pudor. No meio da calçada, gente se entreolhando, carros diminuem a marcha, bisbilhotice geral. Que velhuscos sem noção do ridículo! Um pião carnal a toda. Ela enfia as coxas nunca assaz tão soberbas entre as minhas pernas. Não deu outra. E, com todo respeito, ejaculei como nunca dantes (Eros não perdoa, dispara!). De onde é que saiu tanto esperma, oh Jísus Craist? Pensei cá comigo, sem disfarçar um sutil toque de vingança. 

Mesmo com o coração e a alma ululando, tive como pensar. Aleluia! Foram precisos gloriosos 50 anos para que eu recebesse o troco, literalmente, em espécie, latejante e umectante. Aquele menininho de antanho que fazia Ada gozar, agora era um velhinho encharcado de Ada.



Sylvio Back

Cineasta, Poeta e Escritor, autor de 38 filmes e 21 livros (roteiros, poesia e ensaios). 
Prepara o lançamento nacional do documentário - O Universo Graciliano.

* conto publicado no Diário Catarinense.  Sylvio Back autorizou a publicação no - Chapar as Borboletas. Aos leitores deste blog, um conto do meu amigo que é também, a meu ver, o melhor amigo de Eros. Pacto sigiloso com o deus erótico, a cantar em prosa e verso este tipo belo de amor: o amor carnal (desejo).