Thursday, April 04, 2013

18 h no bar "O Torto" depois do Apocalipse - Bárbara Lia


     Rebecc@ M@rvil




Gilda estava em suas mãos, ele sabia. Sabia quando uma mulher daria a ele toda a sua vida, suas roupas, seu corpo, sua coragem, seu endereço. Pax vivia assim, desde que deixara Dallas e a primeira viúva rica com quem viveu dos dezoito aos vinte e poucos anos. Cansou da pele estranha da sua querida Molly, de suas tortas de framboesa, de seus dentes de ouro entremeando um hálito que ele odiava. No entanto, ela havia herdado poços de petróleo, herdara as joias e as relíquias. Herdara tanto dinheiro que nem sabia como o gastaria. Os amigos acenavam com mil deduções sobre o moço bonito que ela adotou e levou para sua vida. Sussurravam teorias temendo pela sua vida. No entanto, Molly tinha a velha essência dos minerais, como se seu pai a tivesse retirado das entranhas da terra junto com todo o seu ouro negro. Molly era intocável. Ela sabia. Algumas pessoas são intocadas. E Molly amava esta palavra – Intocada. Já beirava os sessenta, nunca tivera filhos. De bom grado deixaria sua herança para Pax. Ele, no entanto, não queria viver décadas ao lado dela e sabia que ela era uma daquelas pessoas centenárias, que a vida não verga. Sabia que teria que viver por muitos anos ainda com seu corpo de menino atrelado ao corpo de Molly. O corpo que já começava a emanar aquele odor da velhice, seu sexo ressecado e sem a quentura úmida da primeira vez em que se aventurou em seus lençóis de seda. Em uma manhã jogou suas roupas em uma mochila, apanhou todas as joias do criado mudo de sua amante e saiu pela porta da frente do velho casarão, sem olhar para trás. Dizem que, ainda hoje, em algum lugar do Texas, uma velhinha coloca na janela da cozinha uma torta suculenta de framboesa. Espera pela volta dele para o café da tarde, espera pela quentura dele entre as suas velhas carnes.  (Bárbara Lia)


- Fragmento do meu romance inédito: 18 h no bar "O Torto" depois do Apocalipse