Tuesday, April 02, 2013

Réquiem para Martha

                           Martha Gellhorn (1908 - 1998)



Martha Gellhorn visitou-me nesta madrugada. Com sua voz firme a apontar verdades em uma história de amor enlaçada com a História do Século XX. Martha Gellhorn - Correspondente de Guerra, Livre e Bela. O filme Hemingway and Gellhorn é fiel na tradução da alma e da têmpera desta americana. Ela amou Hemingway, mas nunca abdicou da sua carreira de jornalista e escritora por ele. Por ser a única mulher a deixá-lo, li em algum lugar que ele a odiava. O filme não transpareceu isto. No filme ela é a narradora. Em uma entrevista ela fala de sua vida e carreira, uma Nicole Kidman maquiada, de olhar cansado, diferente das cenas onde ela conhece Hemingway (Clive Owen) e vive com ele um tórrido romance. Na sua luta contra o Fascismo ela se coloca no front. Depois disto, acompanha as guerras e se transforma em uma das maiores (quiçá) maior correspondente de guerra. Martha escreve bem, foca seu olhar no humano. Quer falar da guerra - as questões políticas - mas, as pessoas e suas dores sobressaem diante dela. As crianças mortas, ou as crianças que choram ao lado dos cadáveres das mães a sacodem, tal e qual, ou mais talvez, que a sua paixão por Hemingway. As mentes inquietas e criadoras trazem em si um potencial erótico infinito. Quando duas mentes destas se atraem e seus corpos correspondem, acontecem os grandes encontros de amor passional da História do Mundo. A inquietude de Martha e sua coragem foi o que de mais bonito me foi revelado neste filme. Hemingway dedicou a ela - Por quem os sinos dobram. No filme a figura de John dos Passos, interpretado por um ator que eu admiro muito, David Strathairn. Rodrigo Santoro em um papel que cai feito luva, de um revolucionário espanhol... Poéticas cenas mostram o fotógrafo húngaro - Robert Capa  - e as imagens dele congeladas na tela. 
Amo o sopro de renovação que chega com estas figuras essenciais. Martha nunca se colocou como apenas uma nota de roda-pé na biografia de Ernest Hemingway. E ela realmente estava à altura dele em sua jornada solitária pelo século, registrando as guerras e nunca abrindo mão de sua liberdade interior. Por cinco anos eles conseguiram algo quase improvável para estas pessoas solares: Viver a paixão em plenitude. Ernest fala sobre isto com Mary, a pessoa com quem ele viveu seus últimos anos de vida - Ela (Mary) era o tipo de mulher que cuida de um homem. Estas - geralmente - encontram maridos. As que não querem cuidar e nem serem cuidadas, vivem como Martha - esporádicas paixões, solidão assumida e a certeza de que construir com suas mãos um caminho - no caso dela, glorioso - vale todo o vazio do leito, da mesa, da sala. E para compensar, Deus sempre coloca um vulcão na vida destas mulheres. Estes que perpetuam - não pelo tempo de vivência - mas, pela força da experiência, do amor sem limites, da entrega extrema e do enriquecimento mútuo, que vale a pena, sempre vale a pena.