Saturday, February 06, 2016

algumas poesias na mídia impressa




Algo a respirar nas casas naufragadas



Amar...
É respirar em casas naufragadas
É virar, subitamente, raro anfíbio
É ser peixe estrela do mar arraia
É uma canção de afundar navios

É romance brutal de Almodóvar
Filmado em cenário de T. Mallick
É ser uma libélula acima do lodo
Âmbar antigo cravado nos ossos

E o amor é este visitante indócil
A revirar alma, móveis interiores
Corte rascante que – ao cicatrizar –
Deixa eternos traços de Pollock

Alegoria cicatrizada, pura loucura
A loucura, a loucura, a loucura...
Que persigo como um cão ferido
E já sei a curvatura do calcanhar

O amor é todo não/dor que atiras
Lava meu rosto em lágrimas de cal
Grão de angústia, ária de flechas
É sermos um único ser, qual o mito

Atados pela cervical – eu quero ir
E tu queres ir e, atados, eu não te
Levo comigo e tu me paralisas –
Há que vir um deus antigo, saído

De – O Banquete – de Platão
Cortar o que ata minha coluna
– que me sustenta ferreamente –
À coluna tua a desorientar passos

Depois de livres, continuar atados
Não mais de costas um ao outro
E ao amor... Mas, frente a frente,
Boca a boca, luz a luz, a caminhar

Entre destroços de um navio soul
Ouvindo canções em ritmo lerdo
Corpos colados em ritmo violento
Para recuperar o tempo, enganar

O tempo, apagar o tempo, amar
Enquanto é tempo, amar enquanto

Há tempo

Bárbara Lia

poema que integrou a matéria - 7 poetas paranaenses - de Marleth Silva - G Ideias - edição impressa - dezembro 2014

ilustração de Rafa Camargo para um dos 3 sonetos publicados no Jornal Rascunho - da série diálogos com Fernando Pessoa:

O ano da morte de Ricardo Reis


Não cante o desprezo dos deuses, Ricardo
Não colha as flores mortas ao lado do Tejo
Os fardos humanos são apenas isto – Fardos
E os beijos sensuais são apenas isto – Beijos

Sou toda verão na alcova, acesa,  à tua espera
Estonteante mulher que levas a ver as flores
Enquanto os pássaros trinam alto – Neera!
Nada nos falta, mas, em ti brotam mil dores

Quando a morte te buscar, aquela que conheces
Voltarei aos prados colhendo as flores vivas
Tocarei a pele do planeta murmurando preces

Banquetearei na relva, as flores como convivas
Dói, Ricardo, saber que todos os campos serão meus
Ainda orvalhados de lágrimas dos belos olhos teus

Bárbara Lia



Revista Coyote n°10 


Ramagem arranha janela.
Sonho:Aeroporto fantasma.
Espíritos de náufragos do Titanic.
Ku Klux Klan ateando fogo ao enforcado.

Seqüência horripilante:

A mulher sem olhos na cama,
entre lençóis úmidos de chuva.

Acordo com o bem-te-vi
na manhã de sol
na mesma paisagem.


BÁRBARA LIA



ontem choveu no fututo - número nada

Revista Etcetera - Travessa dos Editores