Sunday, April 03, 2016

Noir






           Enamorar-se é criar uma religião cujo Deus é falível?

                                                 
Jorge Luis Borges

            



Creio no teu sorriso envolto no espírito do tabaco.
Creio no teu silêncio, que só se quebra para pronunciar meu nome.
Creio em teus versos lavados em minúcias e sustos.
Creio na paz que se instaura em quem senta ao teu lado.
Creio na morte da pequenez que teus passos aniquilam.
Creio na morte, la petite-mort que viverei em teus braços.

Bárbara Lia (Noir - 2006)




Texto Criativo sobre "NOIR", da poeta e historiadora Barbara Lia

por Luis Serguilha
A Sonoridade dos tigres das metáforas mobilizam as homenagens solares e a Barbara encaminha as linfas dos elementos energéticos até à desvairada obscuridade das criptas. As palavras como cordas expansíveis desencarceram os pássaros loucos da sua interioridade. NOIR símbolo da febre submarina e dos silêncios das escamas incandescentes que flutuam sobre as abóbadas da angústia e do medo. NOIR PALAVRA INESGOTÁVEL tentando completar a Barbara em sucessivos renascimentos. O lugar inaugural da catarse canta a solidão da rebeldia e transpõe a diminuição dos abismos como a verdadeira arte da mudança. Barbara restaura os magnetismos das palavras para iluminar a decisão primordial do desejo, libertando o silêncio e a vida absoluta porque quer a manifestação sensual na incorruptibilidade do ser.
Barbara diz ´´que é a palavra´´, ou o vivo movimento das origens das suas impulsões plenas de mistérios e de metamorfoses poéticas, revelando regeneradoramente o jogo erótico onde os astros soltam as línguas infindáveis. Os vestuários das inflexões atravessam os instantes do cromatismo das feridas, este circulo de crisálidas alucinantes que BARBARA encandeia com a violência dos seus ecos, com o naufrágio da claridade dos ritmos, com o sal-húmus das gargantas dos cenários.
As imagens ampliadas dos corpos fluem através das mandíbulas líquidas que proliferam sobre os acordes inatacáveis deste livro, porque a Barbara modela-se a si própria entre as unânimes correspondências: aqui a reciprocidade das vibrações forma os cavalos dos limites onde as loucas marchas despertam os halos do pulsar erótico.
A performance da palavra explora o bálsamo perfeito e descodifica a arqueologia dos sentidos. Barbara explora a jubilação da folhagem humana, desenha a efervescência da comunicação para consumar o ciclone paradisíaco ou a loucura da graça do absurdo .
O balanço afrodisíaco e vegetal sopra sobre os espelhos enunciadores da andadura dos signos onde a gigantesca luz do amor é sempre trágica e incompreendida.
O olhar de NOIR abre o ancoradouro solar e tropeça nas árvores cósmicas como um corpo secreto a alimentar as coordenadas criadoras doutro corpo, porque quer abraçar livremente o mundo.
A musicalidade ramifica a navegação da génese das palavras e eleva a Barbara a uma paisagem de fantasia. O sofrimento humano interroga as fugas inextinguíveis como uma constelação de aprendizagens sobre obstáculos permanentes.
NOIR procura profundamente a respiração visual do desejo, relembrando Ramos Rosa "que não pode adiar o amor para outro século ainda que o grito sufoque a garganta".

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Luís Serguilha, poeta português, nasceu em Vila Nova de Famalicão, em 1966. Publicou, entre outros livros de poesia, O périplo do cachoO outroEmbarcaçõesO externo tatuado da visãoLorosa’e boca de sândalo e A Singradura do capinador