Friday, July 27, 2018

Querida Hilda #3





Querida Hilda,


Se você fosse mais secreta eu a veria na penumbra de um jardim onde choveu o dia todo e durante a noite o lusco-fusco de um poste antigo iluminaria teu vulto, você seria magra, elegante, quieta, parada diante de uma árvore de flores azuladas. O perfume de um jardim lavado de céu é alguma coisa que torna nossa aura leve, que ajuda a fazer o sangue acalmar nas veias. Se você fosse secreta, se eu não soubesse tua vida inteira, amores, amigos, pensamentos, sua mania de ficar perscrutando o etéreo para encontrar Kafka . Se você fosse – a secreta – eu poderia confundir-te com esta outra Hilda, esta que ninguém sabe... Aliás, esta sobre a qual sabem menos ainda. Lembro que em um ambiente universitário, no tempo de um trabalho temporário, eu ficava chocada ao perceber que você não existe para tanta gente. Eu vivia a perguntar: já leu Hilda Hilst? Ninguém sabia da tua poesia. E penso na outra Hilda, que até hoje não sabem, ou sabem menos ainda.
Hilda Machado, corte de força na carne da alma. Uma poesia rascante que traz atado um bafo de seda, uma delicadeza de dama que chega e sai calada, como uma deusa do cinema... Quem sabe foi assim, o tempo que ela passou por aqui, elegância sempre.
Muito lindo ouvir os poemas dela na Flip, na voz de Ricardo Domeneck.
Desculpe Luiz Gama, mas aqui é o lugar das meninas do mundo, então vou falar de Hilda, vou voltar a falar das Hildas. Eu fiz um poema para elas, eu as olho como quem deseja se aproximar destes vultos femininos, mentes brilhantes, ironia perfumada. Muito lindo lembrar, muito lindo tentar não esquecer e enaltecer poetas menos aclamadas, mais notadamente Hilda Machado.
Feliz com elas, por elas, pela poesia, pela noite, pelo jardim florido, pelas vozes capturadas no éter, pelas vozes que calam, pelas vozes caladas que alcançam corações de quando em quando, como estrelas cadentes acendendo almas e olhares.
Viver é precioso.



¨***
                             Miscasting


“So you think salvation lies in pretending?”
Paul Bowles


estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino

há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri

mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída

agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias

vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil

seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa

os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga

Hilda Machado

***

                                                        agora finalmente estou renunciando ao pacto
                                                        rasgo o contrato
                                                        devolvo a fita
                                                        Hilda Machado

                                                                          É crua a vida. Alça de tripa e metal.
                                                                          Nela despenco: pedra mórula ferida. 
                                                                          Hilda Hilst



Se eu me chamasse Hilda seria poeta irônica
Evocaria antigos deuses - júbilo amorável
Desfaria contratos usando a Poesia e diria
Nuvem de organdi – metáfora acariciante
Se eu fosse Hilda deixaria a casa nas manhãs
Adentraria a floresta das palavras
Voltaria com o almoço, o jantar e a sobremesa
Viveria do verbo, devoraria nas noites:
Megatério & Ilharga
Trufas & Mimesis
Floema & Mórula
Minha alma jamais teria fome
Escreveria como quem habita outro mundo
O mundo das rainhas com senso de humor
Viveria tal qual agora - sem amor -
Mas, com um vendaval de mistérios
Costurados na saia de poeta
Não sou Hilda Machado ou Hilst
Sou bárbara poeta que teima
Em cantar o feminino com cuidado
Para que todos entendam da palavra – Mulher –
O significado

Bárbara Lia


Flip 2018
Depois da mesa 7
10h00 | mesa 7
poeta na torre de capim


Lígia Ferreira

Ricardo Domeneck


Hilda Machado