Saturday, July 28, 2018

Querida Hilda #4






Querida Hilda,

Escrever é captar a essência do mundo. Sempre fiquei parada diante dos teus poemas como quem encontrou o bordado mais perfeito do sentir profundo. Aquilo que a gente tenta extrair de dentro do dentro e que para isto se desdobra, sangra, se contorce. Observando as mulheres escritoras que falam naquele pequeno palco, suas palavras de feras, suas palavras sublimes, suas palavras de pacificação, de guerreira que sabe que é preciso lutar, não lutar como se fosse um pequeno desejo de vencer e se sentir maior, mas pelo desejo de pacificar. Pacificar um mundo estremecido, sem farol, sem Amor. Imaginei o teu espectro silencioso na última fileira de um lugar a se sentir representada, com uma alegria póstuma, com uma lágrima de pequena revolta. Assim vivem os poetas no mundo.  A sensibilidade de Gabriela Greeb, aquelas falas sobre as sincronias, sim, nós poetas vivemos nesta aura totalmente cooptada pelas estrelas, lá onde engendram caminhos, e somos íntimos das sincronias. Para Gabriela era como se fosse um mundo paralelo, para ela era o espanto de perceber signos em cada passo da filmagem de um documentário.
Amei a fala da Maria Tereza Horta sobre o mundo dominado por homens e como este mundo chegou onde está. Quem sabe se eles começassem a dividir a tarefa de – governar o mundo – e tornar este mundo como deve ser, as duas essências humanas a decidir caminhos, quem sabe...
A beleza iluminada de Igiaba Scego, seu mundo repartido, sua identidade bipartida. Italiana com ascendência Somali. Como estes escritores oriundos do continente africano vivem esta dualidade, estas contradições. A ternura dela com nosso País, nossa música. Uma pequena mulher infinita.
Não consegui ver todos as mesas, mas estão ali palavras guardadas que eu precisava ouvir neste momento da vida - sincronias?
A beleza sonora de Jocy Oliveira. Uma obra que precisa ser alardeada. O mundo fica sonoro, colorido, pleno de pequenos flashbacks aquilo que você esqueceu, aquilo que a Flip vem soprar: a Arte é o teu oxigênio, não morra diante do infinito que te rodeia.

A sensibilidade de Joselia Aguiar inaugura um tempo onde um debate no evento ajuda a elevar nosso espírito e ajuda a tocar mil lugares e pessoas e ajuda a descobrir que a Poesia ainda vive, sobrevive, pulsa em veias incendiadas e todo o cansaço de um tempo que nos vence debanda, a luz da Arte vai tomando conta e fica um desejo de que a gente volte a ser quem constrói palavras com cuidado, como você, Hilda, as muitas maneiras de  ser quem protesta neste mundo  De muitas formas, no silêncio de um lugar, com as palavras, apenas com as palavras, esta potência inexata que precisamos  moldar, alquimia corajosa, dizer da Vida, dizer desta única aventura que nos é dada. 



Igiaba Scego:


Maria Tereza Horta