Saturday, April 04, 2009

.
.
.

jardim de rosas falsas
em valsa
céu azul Magritte

(pano de fundo
para esta dor
azeviche)


Bárbara Lia

.

Magritte

Friday, April 03, 2009

estante #14




O céu de Lisboa

(Lisbon Story, Win Wenders, Ger/Por. 1994).



É sobre sons - e sobre o silêncio. Nova, sincera e bonita declaração de Wenders ao cinema e à cidade pela qual se enamorou. Ao contar a estória de um técnico (Rudigler Volgler) que caminha por Lisboa gravando material para um documentário, ele registrou o imaginário, a nostalgia, o fado mítico que permeia o inconsciente da capital. Acrescentando a isso elementos de suas próprias obsessões - passado, fuga, busca, o retorno, a poesia do silêncio - fez um filme triste, saudoso. É como um nostálgico, ou criança, veria Lisboa (e o cinema) Fundindo Fernando Pessoa com Buster Keaton em The Cameraman, jogou-os dentro de uma LIsboa ingênua, perdida no tempo, de delicadas imagens e pequenos sons. Com vários poemas de Pessoa lidos em inglês e alemão e o diretor português Manoel de Oliveira dando um texto. Um sósia do próprio Pessoa é visto de relance, no fim, na sequência que homenageia Keaton, quanto todos quase são atropelados não por um trem, mas por um elétrico. Madredeus criou a trilha. A solista Teresa Salgueiro - sempre de passagem, bela e triste como uma canção de Amália Rodrigues - aparece em alguns diálogos; está arrasadoramente melancólica (há séculos de solidão e misterioso silêncio em seu rosto quando ela explica a alguém que está indo viajar de novo). Liza Rinzler fotografou, Peter Przygodda e Anne Schnee montaram. Produzido por Wener e Paulo Branco, pela Road Movies.
p. 376
Descríticas
- 316 filmes -
Almir Feijó
Criar Edições
2ª edição (revisada) 2004

- Guardo com carinho este presente do Almir Feijó - Sua crítica sincera,corrosiva e inteligente de 316 filmes. Uma obra de Arte.

Wednesday, April 01, 2009

Izabel Liviski - texto sobre Solidão Calcinada

- Fragmentos de um texto acadêmico escrito por Izabel Liviski para:

Estudos Avançados - II - História (Gêneros da escrita: literatura, história e a teoria feminista sobre a escrita de mulheres) Ministrado pela Profa. Dra. Ana Paula Vosne Martins. Depto de Pós em História - UFPR
.
I. Introdução: Introduzindo a autora

Este trabalho se propõe a fazer uma análise da obra literária da escritora paranaense Bárbara Lia – mais especificamente sobre o romance “Solidão Calcinada”, de 2007 - tomando como base os subsídios teóricos contidos na bibliografia estudada ao longo do curso Escrita de Mulheres, bem como as discussões travadas durante as aulas, que nos guiaram pelo universo de escritoras que foram do século XVI - precursoras como Tullia d’Aragona (1508-1556) - ao início do século XX, com a inovadora Virginia Woolf (1882-1941).
(...)

O objetivo principal é o de conhecer e destacar uma escritora ainda não consagrada pelos cânones literários, que continua ainda nos termos como colocou Elaine Showalter, em “território selvagem”. Ou seja, pretendo valorizar “a prata da casa”, mesmo que com isso, tenha pela frente um trabalho mais árido, porque praticamente inédito. Pretendo como pressupostos, localizar o lugar de onde a escritora fala, seu contexto histórico, assim como identificar as implicações de gênero em sua escrita, de forma mais ampla dentro da perspectiva feminista, que é a de “dar voz e tornar visíveis as mulheres na História”.
(...)

Uma pergunta surge, nesse momento do trabalho: existe uma subjetividade feminina? há uma maneira peculiar de sentir e de se expressar, própria da mulher? A essa questão, que não é possível responder, ao menos no âmbito deste trabalho, mas minimamente se fazer uma reflexão, deve-se tomar um primeiro cuidado para não partir de um pensamento determinista, já que o gênero é fundante na nossa maneira de pensar, e o mesmo deve ser tratado enquanto categoria de pensamento e vivência social. Para não se cair na armadilha de considerar a sensibilidade feminina como produto de uma essência, originária de uma idéia de naturalidade, fundada no fator biológico. Vários autores já tentaram desconstruir os fundamentos da biologia, da natureza como algo imutável, a idéia de que a biologia é que dá o destino à humanidade, considerando que a biologia também é histórica, é uma forma de construção do conhecimento. Em uma primeira visão de gênero e sexo, a cultura se constitui a partir da natureza, é o substrato do que a cultura vai significar. O pensamento oposto é a de que o gênero é que cria o sexo, e não vice-versa, já que o gênero é uma criação cultural e histórica.
.
Toril Moi em seu livro O que é uma mulher ? aponta para o conceito de corpo vivido, substituindo o de gênero, que para ela não é mais útil para se teorizar subjetividade e identidade. Para ela, gênero foi um conceito apropriado em certa etapa histórica do projeto feminista, quando o desafio era se contrapor à convicção de que “biologia é destino”. Porém na atual etapa teórica, Moi propõe a troca de gênero por corpo vivido, um conceito oriundo da fenomenologia existencial e que é, segundo ela, mais rico e mais flexível para teorizar a experiência socialmente constituída de mulheres e homens do que os conceitos de sexo ou gênero. Seria uma forma de teorizar a subjetividade sexual sem cair no reducionismo biológico nem no essencialismo de gênero. (apud Young, 2003)

“O corpo vivido é uma idéia unificada de um corpo físico agindo e experienciando em um contexto sócio-cultural especifico; é um corpo-em-situação. Para a teria existencialista, situação denota a produção de facticidade e liberdade. As pessoas sempre enfrentam os fatos materiais que ocorrem em seu corpo e suas relações em um dado meio. Todas as relações materiais concretas da existência corporal de uma pessoa e de seu meio físico e social constituem sua facticidade. No entanto a pessoa é uma atora/ator; ela tem uma liberdade ontológica para construir-se em relação a essa facticidade. Portanto, afirmar que o corpo é uma situação, é reconhecer que o significado do corpo de uma mulher está preso à forma como ela usa sua liberdade.” (Young, 2003;pg.5)

Trata-se então de pensar as mulheres não como uma categoria à parte, como uma massa de oprimidos, mas como atores sociais que historicamente tiveram o uso e o acesso da palavra de modo diferenciado, porque em última instância, “gênero nada mais é do que atuação social.”
Como a trama do romance analisado é toda calcada em memórias, ou em diários escritos, recorri ao belo trabalho de Raquel Thomaz de Andrade (2007) como recurso explicativo para esse gênero de escrita, mesmo fazendo parte de uma ficção. Ela esclarece que a tradição memorialística brasileira se fortalece apenas no século XX, coincidente com o nascimento do chamado “Novo diário do século XX”, descendente direto do “livro do eu”. Esse termo foi usado pela escritora americana Tristine Rainer para definir as práticas diarísticas de escritoras como Virgina Woolf (1882-1941), Anäis Nin (1903-1977) e Sylvia Plath (1932-1963).

II. Sobre o romance propriamente dito (ou escrito)

Comecemos com a própria autora falando sobre o seu trabalho: questionada sobre a criação do romance, o que teria sido a inspiração para o tema central da narrativa, ela diz:
“...Quando comecei a escrever senti naturalidade e até uma necessidade de voltar ao tema – o golpe militar de 1.964 - Eu sentia necessidade de me penitenciar por, mesmo sendo criança, fazer um juízo errado daqueles rebeldes. Por isto a necessidade de focar os "terroristas" daquele tempo e mostrar que eram humanos, rebeldes com desejos justos em um país sufocado, na época em que os direitos foram anulados. Quando eu era criança as emissoras de rádio traduziam o pensamento do governo ditatorial e meu pai era ferrenho defensor dos militares. Este grande conflito que foi parte da minha vida – acreditar que aqueles rebeldes que queriam um país longe das amarras ditatoriais eram terroristas – este livro é uma espécie de redenção tardia.”
(...)

Andrade (2007) nos leva à interessante percepção de que a escrita feminina no passado está muito associada à produção de diários íntimos para o registro de suas memórias, devido ao fato da mulher ser historicamente ligada à esfera privada e por poucas vezes ter tido direito a uma voz pública, o que na prática significava um “silenciamento”, um processo de obstaculização das mulheres à palavra falada ou escrita. O confinamento feminino está diretamente ligado portanto, com a escrita intima. Suas auto-representações estão descritos nesse gênero de escrita, secreto por definição, que funcionava como um refúgio do eu, escondido em uma gaveta ou armário, e no caso do romance em questão, em um recôndito baú.
Em um trecho do diário de sua bisavó Pietra datado de 1910, então com dezessete anos ela havia escrito:

“Circunlóquio do espanto, suspiros, leques aflitos, diademas arfantes em seios suspirantes. A beleza da voz dele – Boa noite! Entra na cena que meu pai narra. A voz dele, arquitectura sonora da beleza.
Recolho-me ao quarto e procuro, entre os pontos do bordado e as notas áridas do vizinho Cássius, uma explicação para este solar crepitar da alma” (pág.63)

A bisavó é descrita como a mítica Pietra, a ancestral mais ilustre, filha de desembargador, e a figura mais falada de toda a família. Era “aquela que sorria em um porta-retratos de louça branca enfeitado com borboletas lilases”.(pág.56). Pietra casou-se com um homem que havia perdido a mulher, que se suicidara no mar. Ele era bem mais velho, e devido à falência econômica acabou se consumindo na bebida, morrendo tísico e desgostoso. Pietra ficou viúva aos trinta anos com a filha Esperança para criar, e nunca mais encontrou outro amor. A idéia de que seu marido tinha voltado para os braços da ex-mulher na eternidade a fazia ferver de ciúme, e isso “transformou dia a dia; não apenas seu nome, mas também seu rosto, em pura pedra”. (pág.72)
(...)
Refletindo sobre suas ancestrais, ela se sentia como a herdeira de historias de amor que terminaram em tragédia, participante de uma ciranda de mulheres com nomes que selavam seus destinos.
“Por isto Bárbara pensava que algo de desencanto brotara em alguma manhã no centro do universo. Não mais havia amores de morte e renúncia e de entrega tão lírica, como os de Pietra, Esperança e Serena. Talvez amar Gabriel desde menina não lhe dera esta chance de ter um tresloucado amor. Mas, no intimo, ela sabia que a desesperança era também a mãe de um novo tempo.” (pág.72)
Nos diários de sua mãe Serena, Bárbara vai encontrar os relatos de sua vivência entre 1968 e 1970, ano de sua morte. Serena era uma mulher típica de sua época: vestia-se como hippie, tinha intensa vida social e cultural, e participava dos movimentos políticos no período em que o Brasil vivia sob ferrenha ditadura militar. Bárbara a representa como um Quixote moderno, não uma Dulcinéia. Ela era o presságio daquilo que as mulheres se tornariam: as lutadoras do terceiro milênio, ela inaugurava um novo estilo assim como Cervantes havia feito no romance. Compara sua beleza não a uma Vênus de Milo e sim a uma Diana, caçadora e audaz.
Um poema escrito por Serena em seu diário, contextualiza a época em que viveu:
(...)
“Além eram sonhos desenhados.
Saltando das paginas de enciclopédias, almanaques.
Eram mundos narrados.
Sons que emanavam da caixa envernizada.
Rádio. Era do rádio.
Era encantada.
Primeira sinfonia de amor.
Primeira vez que ouvi “A Banda”
Primeiro gol.
A voz sonora do repórter Esso.
A introdução dolorida
Da voz do Brasil – O guarani.
Amava o retumbar das noites enfurecidas.
Tempestades tropicais.”
(pág.45)
(...)


Andrade (2007) descreve o boom dos escritos memorialísticos nas décadas de 1970 e 1980, como um reflexo das lutas feministas, das mudanças sociais, no crescimento da classe média, e na chamada revolução sexual, repercutindo o interesse pelas vidas das mulheres nos estudos das ciências humanas em relação à questão de gênero. Aponta como uma das razões, a elevação da intimidade como parte do político, o caráter hedonista da sociedade da época, que buscava mergulhar em si para conhecer as próprias subjetividades. Era também uma oportunidade para as mulheres se despirem ao olhar público sem constrangimento.
(...)

III. À guisa de Conclusão

A escrita de mulheres tem sido alvo de análises sob diversas perspectivas e olhares, praticamente sem algum consenso. É corrente, porém, que poetas mulheres trazem o corpo para a produção da escrita, em que traduzem seus sentimentos em metáforas corporais, que sua estrutura narrativa é diferenciada e que a experiência do corpo dá outra dimensão de ser no mundo, principalmente em função da maternidade.
Encontramos no texto de Nye (1988) referindo-se à autora Cixous que a saída para esses impasses teóricos, não estaria em artifícios do teatro, nem em brinquedo com categorias, mas em uma espécie diferente de experiência: do corpo e de outros corpos. Ela diz que a descoberta do feminino é uma descoberta do corpo feminino, e uma descoberta das relações do corpo com outros corpos: “deve-se escrever o corpo” recomendava Cixous, repetindo a advertência de Rosseau por uma linguagem sensual. Em O riso da Medusa ela diz:

Ao escrever o seu corpo, a mulher voltará ao corpo que lhe foi mais que confiscado, que foi convertido no misterioso estrangeiro em exibição – a figura atuante ou morta, que tão frequentemente vem a ser o detestável companheiro, a causa e motivo das inibições. (Apud Nye, pg.233)

Assim, a escrita intima privada foi um dos primeiros espaços onde a mulher também se pôde mostrar, inscrevendo o corpo, os desejos e as paixões – embora nem sempre tenham feito uso dos relatos íntimos para tais usos. Ainda assim, foi através da escrita que a mulher teve a oportunidade de se impor pela primeira vez. Com o poder da palavra, ela pode reconstruir sua própria imagem, antes tão ambígua, difusa em lendas e mitos das sociedades patriarcais milenares, e posteriormente, até em supostas “verdades” científicas. A escrita abriu possibilidades para que mulheres mostrassem uma imagem complexa, multifacetada, mas já não maniqueistamente ambígua como historicamente foi representada. (Andrade, 2007; pg.97). Hoje, ao contrário, os weblogs se constituem em um espaço ou suporte de escrita pessoal destinado a uma grande audiência, mas essa já é uma outra (longa) questão que não abordaremos nesse pequeno trabalho.
Voltando ao romance analisado e sua autora: questionada sobre o grau de envolvimento de sua vida pessoal com sua escrita, com a criação de seus personagens, Bárbara Lia responde:
“Sei agora que já escrevi alguns romances que dentro de cada um deles vai estar um momento verdadeiro de algum amor que vivenciei. Como um registro de uma passagem minha, uma participação especial, assim como Hitchcock fazia em seus filmes aparecendo em alguma cena. (...)
Não creio em psicografia, mas, existe um mistério na criação que torna difícil falar claramente sobre o surgimento de um personagem. Não é algo mental e nem matemático, nem burocrático. Acredito no Espírito da Arte. Este que se impõem e se abre para quem está disposto a ceder seu próprio espírito à fecundação. Por isto não posso descrever de forma objetiva e materializada como surgem os enredos e seus protagonistas. É uma fagulha, uma cena, uma frase, um momento. A partir dele e do fio puxado surge um enredo, pessoas, situações, que o autor constrói. Sigo validando o mistério da criação. (...)
Tenho certeza que emprestei minha vivência ao livro e explorei a solidão. A ciranda de mulheres solitárias da família Piccoli e Pablo Arrabal em sua solidão optada”.
Para concluir, emprestamos a frase que Virginia Woolf disse em/para Orlando, e que parece se aplicar também à nossa autora: “Pois, segundo parece – seu caso prova isso -, escrevemos não com os dedos, mas com a pessoa inteira. O nervo que controla a pena enrola-se em cada fibra do nosso ser, amarra o coração e trespassa o fígado.” (pág.176)
.
IV. Referências Bibliográficas

Hollanda, Heloisa Buarque (coord.)- “Tendências e Impasses- O feminismo como crítica da cultura”.

Woolf, Virginia- “Orlando”, São Paulo, 1984

Lia, Bárbara- “Solidão Calcinada”, Curitiba , 2007.

Andrade, Raquel Thomaz- “Percursos de memórias femininas: uma análise da escrita íntima de mulheres no papel e no digital” - Fortaleza, 2007.

Young, Íris Marion- “Corpo Vivido vs. Gênero: Reflexões sobre Estrutura Social e Subjetividade”, 2003.

Cruz, Marcio Davie Claudino- “Duas Tendências da Novíssima Poesia Curitibana no Alvorecer do Século XXI”- Curitiba, 2008.

Nye, Andrea – “Teoria Feminista e as Filosofias do Homem”, Rio de Janeiro, 1988.
.
Izabel Liviski é fotógrafa, mestre em Sociologia pela UFPR, seu e-mail: liviski@yahoo.com.br

...

Tuesday, March 31, 2009

Monday, March 30, 2009

uma imagem para Lia #8

Cuba - foto Izabel Liviski



.

à porta dos amantes

.

Só sei plantar palavras...

Andei esquecida das flores
e ontem procurei-as pela paisagem
Vi a flor de São João - que saudade!

Tão simples, no alambrado.
As flores da minha rua
que eu nem percebia

- amarelas violáceas rubras -

Talvez as flores te evoquem
o jarro à porta dos amantes insaciáveis
o sol a iluminar o amor e o jarro.

Bárbara Lia

Friday, March 27, 2009

céu

heaven paraíso céu ceia às cinco da manhã com o amor balé de beija-flores o parto da poesia o azul da filha comissária a companhia do filho adormecido em manhãs onde escrevo e me enlevo olhando este insuportável brilho de céu - céu sempre - uma voz o silêncio o céu é silêncio e caminhar pela estridente Kennedy dá vontade de comprar uma redoma e encontrar o vácuo hálito das manhãs primevas e a única certeza de céu é a ausência da estridência os desacatos os novatos sem nexo as abelhas cancerosas que roem as pétalas e não sabem extrair o néctar da rosa depois gritam aos quatro ventos que a rosa é venenosa e a rosa se cala as rosas não falam cartola e o silêncio mais antigo é o que persigo com a poesia como escudo prefiro meu canto mudo que aquele canto que espanta as açucenas as manhãs marinhas e de tudo o que vivi posso contar dez dias no céu e eu sei a cor o perfume e a cena o céu existe e vale a pena - Céu - a peça que vou ver hoje nesta overdose que é o Festival de Curitiba. para saber mais sobre a peça:
http://www.festivaldecuritiba.com.br/servlet/DetalhesEventoController?state=1&codEvento=1079

Thursday, March 26, 2009

estante #13

"Horizons Partiels" - Adriano Parise Editore - 1996 - JULIEN BLAINE

Esta poesia visual está no livro Horizons Partiels que Julien Blaine enviou-me logo após o Congresso Brasileiro de Poesia em 1997.

Julien Blaine, nascido em 1942 em Rognac, é um Poeta francês, um dos criadores do Poesia Ação (Cá entre nós, performance poética) um gentleman que sempre me convidou para as exposições do Ventabren Art Contemporaine - Je vous salue, Julien!

Tuesday, March 24, 2009

vitrine #5


andrew sage




Delírios em Amsterdã (fragmento)

Como um Van Gogh roto meu girassol-coração segue a luz de minha amada Serena. Como os marinheiros seguindo bússolas e estrelas. Van Gogh deixa ruivo o céu de Amsterdã e me sequestra para campos de trigo onde corvos tangem meu coração com o adeus da amada e a tétrica certeza da solidão calcinada.
Fujo dela nas noites lavadas de névoa envolvido na fumaça do cigarro, me sentindo exatamente aquilo que sou: o poeta solitário. Atirado no mundo, degredado da terra Brasil. Sepultando sonhos, esquecendo a aurora da minha vida, a minha amada querida, o mar azul do meu Rio de Janeiro. As nossas almas incendiadas da primavera vermelha que me atirou aqui - Amsterdã.
Longe do som do violão, da maresia, dos braços abertos de um Cristo triste abençoando uma cidade que me alucina de saudade.
Van Gogh não mora mais aqui. Tomei o seu lugar. Pinto estrelas de um céu que ninguém conhece: Só Van Gogh e eu.


Solidão Calcinada - (romance) p. 95
- Governo do Paraná - Secretaria de Estado da Cultura - 2.008

vitrine #4



M. Simandle





BÁRBARA

.
Cristal de fogo este sol de abril.
Felicidade ardida em oposição
à esta mágoa fendida.
Cerro negras cortinas,
na penumbra rasgo fotos
do passado.
Em rotação errada
nas paredes da memória
a mesma antiga declaração
dos homens sem imaginação...


"Bárbara, Bárbara.
Nunca é tarde
Nunca é demais”


Há que alguém me amar
sem desafinar letra e canção?
Como um barco sobre o Tejo,
como rosas se abrindo no chão.
Asas de colibri,
fogos de São João.

Uma canção que não seja tarde,
nem demais.
Que seja abril
nada mais.

A última chuva (ME ed. alternativas - 2007)
Bárbara Lia

vitrine #3


eduardo de lima



O sal das rosas


Leito de um rio de sal
Cresce em mim
o desnecessário

Apodreço em rosas
Rio sem foz
Lua duplo espelho
no coração das águas

Lembranças
esperanças
naufragam abraçadas
no involuntário rio
onde acordo
O sal das rosas
- Lumme editor - 2.007
Bárbara Lia

vitrine #2


joão barcelos
.



BARCO DE LIA NO RIO DE CORA


No escuro escrevo como quem

adora
teu olhar que o passado inteiro
descora.

Zero duplicado em infinito
ancora
- istmo - o oceano dos medos
deflora,
rasga em amor, imprime a tatuagem
canora.
Seres do Olimpo a ressuscitar
Pandora.
Amor - linha e linho - como Gil e
Flora.
Teu, meu corpo banhado em tesão na
aurora.
Teus, meus versos banhados no rio de
Cora.
Noir ed. do autor - 2.006

Bárbara Lia

vitrine #1

Monet



Gaivotas pousam estacas

entristecidas

Corredor surreal

e marinho

Tarde sem sol

Mar verde em acalanto

Montanhas em azuis

distâncias

Nuvens a formar

espectros no horizonte

Esta barca Estrela-da-manhã

Este capitão menino

entre céu e mar

Ar cinza de incêndio adiado

Mistérios de agosto

sem ti.

- O sorriso de Leonardo (Kafka ed. baratas 2004)

Meu 1° livro de poesia

* na barca rumo à Ilha do Mel - agosto de 2004

Monday, March 23, 2009

Frieda e Nicholas - filhos de Sylvia Plath


LONDRES, Reino Unido (AFP) - O filho dos poetas Ted Hughes e Sylvia Plath, Nicholas Hughes, cometeu suicídio na semana passada, 46 anos depois da mãe dele se suicidar, noticia o jornal londrino The Times. Nicholas Hughes, que sofria de depressão, se matou dentro de casa no estado americano do Alasca, informou a irmã dele ao periódico. Nicholas Hughes era professor de ictiologia e ciências oceânicas na Universidade do Alasca-Fairbanks, mas recentemente havia renunciado ao cargo para instalar uma oficina de cerâmica em casa. "Com profundo pesar devo anunciar a morte de meu irmão, Nicholas Hughes, que tirou a própria vida em 16 de março de 2009 em sua casa no Alasca", afirma Frieda Hughes em um anúncio publicado pelo Times. Nicholas Hugues era solteiro e não tinha filhos. Sua mãe, Sylvia Plath, americana, cometeu suicídio em fevereiro de 1963 ao deixar aberto o gás da cozinha de casa, depois de ter vedado com toalhas o quarto dos filhos. Ted Hughes, britânico, morreu em 1998, depois de ter vivenciado outra tragédia, quando sua companheira Assia Wevill também cometeu suicídio com gás, matando ao mesmo tempo a filha do casal, em 23 de março de 1969. Vários críticos acusaram durante muito tempo Hughes, por suas infidelidades conjugais, de ter sido a causa da morte da esposa. O escritor inglês evitou durante anos comentar publicamente a morte de Plath, até publicar, pouco antes da morte, Cartas de Aniversário, uma obra na qual recorda os sentimentos da época. Alguns críticos literários lamentam ainda que boa parte da notoriedade de Sylvia Plath se dever às circunstâncias de sua morte, e não a suas obras.

fonte:


Acabei de receber um e-mail da irmã do meu ex-marido - Soraya - que me ajudou a montar o clipe com versos e fotos de Sylvia Plath para uma apresentação de poesia, enviando esta notícia triste e quase inacreditável. Frieda é a última sobrevivente deste drama.

I'm your man

Leonard Cohen - 1969 (fonte-wikipédia)



.

Final de semana iluminado - a partilha com as irmãs Jaude no sábado - Na noite de domingo, a benção vinda da TV a cabo que entre tantos filmes - a maioria descartáveis -e uma infinidade de programas que não acrescentam nada - Lá vem Cohen e ilumina a semana - a bela semana. Um documentário belo que vi. A vida a obra e os que admiram e cantam suas canções. O poeta tocou-me em ternura e calma zen. O mundo necessita outros Cohen's.

I'm your man
http://www.leonardcohenimyourman.com/

O documentário fez parte da seleção dos festivais de Berlim, Sundance e Toronto em 2006.


.
Vontade de morar no coração de Leonard Cohen. Recolher de sua poesia toda palavra e dormir com elas, amá-las ao som de sua voz adocicada.
.
Atrás das linha inimigas do meu amor - poesias de Leonard Cohen - lançado no Brasil - tradução do poeta Fernando Koproski:
http://www.7letras.com.br/detalhe_livro/?id=84

estante # 12


47.
A sabedoria interna
Para conhecer o mundo
Não é necessário viajar pelo mundo.
Posso conhecer os segredos do mundo
Sem olhar pela janela do meu quarto.
Quanto mais longe alguém divaga,
Menor é seu saber.
O sábio atinge sabedoria
Sem erudição;
Alcança a sua meta
Sem esforço;
Termina sua jornada
Sem viajar.
Lao-Tse

Sunday, March 22, 2009

Mukhtar Mai - um símbolo


Na Vivare da Senador Alencar Guimarães está exposta uma tela de Maria de Lourdes Jaude, o rosto da paquistanesa Mukhtar Mai. Tema de sua poesia no último dia das mulheres.

Uma carta





Em 2006 organizei um recital de Poesia Árabe em apoio aos civís do Libano. No caminho desta tessitura fortaleci o carinho pelo poeta Michel Sleiman e conheci algumas pessoas da comunidade árabe. Nosso Diwan na noite mais gelada do ano foi um canto com acompanhamento do alaúde. Neste mês passei alguns dias em São Paulo e quando estava lá a editora de -A última chuva - Tãniz Diniz escreveu dizendo que Maria de Lourdes Jaude estava à minha procura. Ela esteve na noite árabe e nunca mais a vi. Ontem tomei um café com ela e suas irmãs Hamila e Jane. Um encontro de poesia e revelações. Lourdes canta ópera pelas ruas para os moradores de rua. Quer levar a poesia para a praça - contraponto aos crimes e dores que as ruas carregam - eu me encolho dentro do meu silêncio, cada dia mais silenciosa. Mas, toparia um movimento de rua que colocasse a poesia no topo, sem as auréolas pessoais e o narcisismo deste tempo. Só a poesia. Lourdes é advogada que se especializou em urbanismo, por isto sua vida passa pela rua. Os seus habitantes passantes que são o espelho da cidade. Ela não usa internet e retomamos o velho amigo telefone e ontem sai de sua casa com algumas páginas sulfite que ela entregou. Eu acreditando que eram seus versos, quando li era uma carta. ...


fragmento da carta de Lourdes Jaude:

...


L'etoile du vers
.
Bénie et
amoureuse,
rayon du miel, La
belle comme
a igual de la
racine oú il y
a
.
Lumiére! Ton
incommensurable est l'
aimable chemin a guider...


Poema para a Escritora Poeta "A estrela do verso" ..."Os seus caminhos sabe guiar"... Pelo perfil da estória. História. Esse halo bendito que coroa o Amor como escola das Letras. Favo de mel que alinhava o pensamento poético de gamas diversas. A Bela da Raiz da Palavra onde há luz de quimeras. O seu incomensuravel é ser guia das estrelas de suas proprias ideias...


... segue a carta e a poesia traçada em sete páginas, os fragmentos brilhando como os pingos na vidraça da janela do ônibus enquanto eu lia. "O poema é sopro divino num varal onde cada um apanha o que vê ou sente"... "Poeta é aquele que colhe do espaço o romance como romãs em ramas no bosque da sensibilidade"...

Saturday, March 21, 2009

estante #11





......Os nervos elípticos das metáforas desatam as bússolas sulfatadas
das periféricas emigrações-paraísos
..onde as insígnias dos comedores de planetas congestionam os ciclos
descoloridos dos úteros
..........para costelarem uma golfada de silêncio nos artelhos renascidos
sobre os cios mecânicos das fronteiras
.........que possibilitam aos sulcos figurativos das enlouquecidas bocas
....................................................uma habitação de espécies solares
As ressonâncias da lingua-sandália declinam-se perdidamente
................... ..sobre as técnicas implacáveis das luxuriantes cicatrizes
para preservarem as túrgidas vasilhas da luminosidade
...............................que impubesce as invasoras dinastias dos signos
........................................As cortesãs geométricas dos ancoradouros
retomam os resquícios imortais do bosque muscular
...........onde um farol vocálico inaugura a pulsação das fábulas
.............................entre o abandono sonâmbulo dum alfabeto terrestre
Luis Serguilha
A Singradura do Capinador
colecção golpe d'asa
Indícios de Oiro - 2005

estante #10


ficaram só nomes na paisagem dos nomes
dos amigos nomes dos pais nomes
dos inimigos nomes das árvores
nomes das pedras e das flores nomes
dos rios nomes dos capins ficaram só
nomes na despedida do que foi nomes
nas hastes nomes no ar no vento
nomes no tempo nomes é o que fica
ficarão pra sempre na paisagem:
nomes números & conceitos
Jairo Pereira
Espirithopéia
pg 157

Wednesday, March 18, 2009

Teatro #2




Relembrando a peça do Grupo Uninter - Céu.
Recebi o convite da Geisa Muller, com direito a fragmento de Ovidio.

"Pare, Cupido, de condenar seu poeta como um criminoso, eu que, tantas vezes, sob o seu comando, carreguei o estandarte que você me confiou. Frequentemente outros homens esmorecem; eu sempre amei, e se vc me perguntar o que faço ainda neste momento, eu amo."

Ovidio

Teatro #1

Uma mulher que, em um "jantar artístico" em homenagem ao famoso ator do Teatro Nacional e que faz até telenovela, percebe que está, na verdade, em uma reunião de talentos medíocres. Enquanto espera o famoso ator, que nunca chega, ela reflete sobre sua vida e o meio que a cerca, sob a lembrança de uma grande amiga de todos, enterrada naquele mesmo dia.

Festival de Teatro de Curitiba
dias: 20, 21, 22 e 25 às 19h
27, 28 e 29 às 21h
Ingresso: R$14,00 e R$7,00 (meia)
Casa do Damaceno - Rua 13 de Maio, 991 - inf.: 41-8493-3809

www.marcosdamacenocia.com.br
Texto e direção: Marcos Damaceno – a partir da obra de Thomas Bernhard

Com: Rosana Stavis - Composição, Adaptação e Direção Musical: Gilson Fukushima Violinista: Roger Vaz - Iluminação: Waldo León - Figurinos: Maureen Miranda
Arte e Design Gráfico: Foca Cruz - Fotos: Elenize Dezgeniski

La nave va...

Ilya! (Vmesto Pis'ma) - Bárbara Lia - para Connor Storrie

“Ilya! Vmesto Pis’ma” é o título perfeito para o que escrevi, fulminada de encanto e admiração pela Arte de Connor Storrie. Em lugar de uma...