Monday, March 11, 2013

Anne Sexton





QUANDO O HOMEM ENTRA NA MULHER 



Quando o homem
entra na mulher,
como a rebentação
batendo na costa,
uma e outra vez,
e a mulher abre a boca de prazer
e os seus dentes brilham
como o alfabeto,
Logos aparece ordenhando uma estrela,
e o homem
dentro da mulher
ata um nó,
de modo que nunca mais
possam voltar a separar-se
e a mulher
trepa a uma flor
e engole o seu pecíolo
e Logos aparece
e solta os seus rios.


Este homem,
esta mulher
com o seu duplo desejo
tentaram atravessar
a cortina de Deus
e conseguiram-no por um instante,
embora Deus
na Sua perversidade
desate o nó. 

Anne Sexton
tradução Jorge Sousa Braga

Saturday, March 09, 2013

Instantâneos Pessoais


























LEQUE DE NUVENS PARA O DEUS DAS ONDAS

O leque de nuvens se reflete
na areia de mármore.
Alento de tarde pagã.

Distante, a carranca do deus das ondas
escureceu o mar.

O coqueiro se eriça.
Cais sobre mim

feito neve nos Alpes.
E a tarde abraça o nosso abraço.

Bárbara Lia
in O sal das rosas

Aracaju, 1981 




“O silêncio como um oceano laminado”


Garras negras da morte
Farpas azuis da noite
Branca coruja de tocaia
Minha mãe rezando 
Na sala
Meu pai fazendo 
Um cigarro de palha
Bárbara Lia

A flor dentro da árvore (2011)




Peabiru (PR) 2008
Com uma amiga de infância - Sueli Rigonato 

Friday, March 08, 2013

O Verão das Musas #9 - Frida Kahlo



Encerro o ciclo das Mulheres que admiro. Existem outras. Existem tantas. Eu sou tantas. O tanto que a Mulher representa no Mundo jamais saberemos dizer, cantar, colocar em versos, música... Amo esta mexicana forte, esta que em muitas horas duras me apontou o Norte. Força espelhada em suas telas. Incrível Frida, irreverente, ÚNICA. 

Escrevi um poema que tem o título - Lendo Clarice Lispector - Ele é de toda Mulher, pois ele resume a força fêmea...

Mulheres sofrem meio às rosas / espinhos escondidos em seus cabelos / seios nus beijados pelo amado / velas de um barco / onde o timão balança / entre a neve e a primavera. // A gota clara do orvalho na rosa / é lágrima fêmea / que brilha enquanto sofre. (O sal das rosas)

Este brilho de Frida é o sol de muitas mulheres. Nosso fraquejar se torna pífio diante dela. É pouco o que enfrentamos diante de tantos contratempos da vida de Frida. E o que ela fazia? Ela sacava os lírios entre as foices, ela os colhia rapidamente, por saber que breve algo ceifaria - antes dela - as possibilidades. O que sei de amar urgentemente? O que sei da urgência é que ela é a minha própria vida, isto que alguns acham que é ansiedade é apenas o voo faminto para pegar o que é meu, antes que venha a maré, antes que venha a foice, antes que cerrem as portas, antes que escoe o tempo, antes que a dor se torne insuportável. Sabemos disto, Frida e eu. Para mim tudo foi mais leve, mas, ainda assim é uma droga conviver com algo que nos tolhe, ainda que pouco... Para Frida, eu tiro o chapéu. Não apenas para a Mulher, eu tiro para sua Arte. Sabendo que tudo está atado. Os grandes Artistas também são Grandes em suas vidas. Só alguém inteiro e forte pode compor uma eternidade. A vida plena não é mesmo para os fracos. A única questão com quem queima como estrela neste mundo é que a vida fica mais curta. Não é possível queimar impunemente. O que consola é que o fogo dos grandes não apaga, sua marca fica, imprimem a Beleza e nem importa se o tempo é pouco e se a dor dilacera. 
Gosto de ser Mulher, Frida. Sei que também amavas ser Mulher. Isto imprime sensualidade. Isto de ser mulher protótipo é triste. Bonito mesmo é ser ÚNICA.


http://www.museofridakahlo.org.mx/

Thursday, March 07, 2013

O Verão das Musas #8 - Emily Dickinson

Imagem - Penelope Dullaghan 




Se eu não estiver mais viva
Quando vierem os passarinhos
Dá ao de gravata carmesim
Uma migalha por mim

E se eu não te agradecer
Imersa num sono bendito
Saiba que o tento fazer
Com meu lábio de Granito.

Emily Dickinson





Perdi a conta de quantos poetas li em minha vida. O mundo está pleno de Beleza, pena que muitos não beberão jamais desta fonte incrível e maravilhosa chamada - Poesia. Entre tantos que deixaram por segundos a minha respiração suspensa. Entre tantos que colocaram uma pedra de gelo em minhas veias ou fogo em meu coração, ela ressalta. Mulher voluntariosa de Amherst. Por algum tempo dedilhei poesias, biografia, entrelinhas. Desejo de penetrar uma alma que consegue imprimir a Poesia com tanta perfeição. 

Fragmentos do livro Nunca lhe apareci de branco – Judite Farr (ed. Rocco):

“Sou pequena como um passarinho… Meu cabelo é arisco como a semente da castanheira e meus olhos são como o xerez na taça deixada pelo conviva. Será que isso bastaria?”

"Eu gostaria de poder usar um manto e uma coroa, pois “tenho para mim anseios imortais” - foi o que a Rainha Cleópatra disse depois da morte de Marco Antônio. O senhor gosta de Shakespeare? Considero Shakespeare o único livro necessário."


"Quando era menina me proibiam de ir ao bosque, havia cobra, diziam. E eu poderia colher uma flor venenosa, ou que um espectro do bosque ia raptar-me. Diziam coisas e eu olhava de longe como um anjo montado em um cavalo assustadiço." 


"Parece algum aparelho de tortura sobre o qual Alexandre Dumas escreveria... Suponho que se amarre o corpo para que a alma não voe. Já observei os retratos de outras pessoas. A vida foge deles imediatamente. Nesse aparelho vou parecer morta, como a imagem de uma pessoa sem cérebro. O que é importante é ver o semblante da Alma, não os joelhos do Corpo. Foi bobagem minha vir. Mas, por favor, diga-me como posar. Não quero ser grosseira."


Link para - Emily Dickinson Museum - The Homestead and The Evergreens - em Amherst, Massachusetts. The Homestead, casa onde Emily Dickinson nasceu e viveu e The Evergreens, casa onde viveu seu irmão e sua cunhada Susan.


"Remando no Éden" é um verso de Emily, e é assim que me sinto quando leio seus poemas... E foi este o título do poema para ela, no meu livro - A FLOR DENTRO DA ÁRVORE:





“Remando no Éden”
Bárbara Lia



Um olho de Emily
É Deus
O outro é Fera
Um olho é Eva
O outro é Lilith
No branco rosto
Lábio granito
Do branco vestido
Vaza uma luz que emana
E entontece
Nada a fazer
Depois de remar no céu
Nada mais a fazer
Quando se bebeu
Versos estrelas:
- Auroras gestadas
Carta de vôo de pássaros
Palavras de arcanjos
O ocaso em uma copa
O silêncio do oceano laminado -
O tosco me agride
Tudo o que é rude
Um passo atrás
A cada farpa
A cada sílaba Bárbara                                                 
Sibila frase agulha fina
- Avesso de Sibila –
Sífilis purulenta
Na pele da poesia
– Letargia –
Um passo atrás
Um véu
Dois véus
Uma estrada
Um muro
Um jardim
Uma porta
Pétrea e escura
Uma cama
Uma escrivaninha
Um quarto branco
Arco íris na retina
Uma luz difusa
Uma musa?

Emily...
Ninguém mais.


A flor dentro da árvore / 2011

Tuesday, March 05, 2013

Verão das Musas #6 - Sabina Spielrein



Ela passou de paciente a psicanalista. Criou a primeira escola de psicanálise para crianças na Rússia - A creche branca. A creche foi fechada pelo governo de Stálin. Sabina foi executada pelos nazistas - juntamente com as filhas - diante da sinagoga em Rostov, cidade onde nasceu. Sabina Spielrein foi paciente e amante de Jung. Foi com ela que Carl Jung testou pela primeira vez os métodos de Freud. Sabina conquistou Jung, foi sua amante, levou a memória dele até o fim, não tenha acesso a mais detalhes da vida desta mulher, que muito me instiga.
Deixou estas palavras como uma espécie de pedido final...

'Meu nome era Sabina Spielrein. Quando eu morrer, quero que o Dr. Jung receba minha cabeça. Só ele pode abri-la e dissecá-la, Quero que meu corpo seja cremado e minhas cinzas, espalhadas sob um carvalho, com os dizeres: ‘Eu também era um ser humano’.

Não assisti ao mais novo filme sobre o relacionamento dela com Jung e Freud. Não quero ver, pois gravei como uma espécie de espelho cristalino a interpretação de Emilia Fox no filme - Prendimi l'anima - Jornada da Alma.


Sabina era muito jovem quando chegou ao Hospital onde conheceu Jung. Recordo minha vida aos dezenove anos, que experiência carrega uma mulher de dezenove anos? Exigem demais das mulheres na História do Mundo. Em todos os enredos as mulheres seguem simplesmente - Eva. Parece que nenhum homem cederia à tentações não fosse por Eva, no caso - Sabina. Para um encontro é preciso o sim de duas pessoas. Percebo em muitos filmes, enredos, livros, a evocação de Eva. Sim, é ela que está lá oferecendo a maçã... Não é bem assim. E homens viscosos, peixes pequenos que não assumem a sua parcela na evolução de uma história existem em todo lugar. É certo que alguns encontros estão programados no DNA da evolução humana. Raros encontros. Encontros que vão propiciar que uma menina se transforme em alguém que vai dar - no futuro - um amparo a muitos, como Sabina fez, talvez não fizesse caso não encontrasse Jung. E as pessoas assinaladas tem aquilo que pensei outro dia ao dar de cara com aquela cena do reencontro de Marina e Ulay - grandeza interior. Esta menina que chega aos frangalhos em um lugar, sem comer, passando um atestado de fatalidade, acaba por reorganizar-se inteira, como pessoa humana, como mulher. Leva até o fim a sua vontade de colaborar com o bem estar humano, dedica-se às crianças, como quem deseja impedir que os pequeninos não alcancem a idade que ela alcançou em uma casa de doentes mentais, que logo seja sanada a doença da mente. O que Sabina faz utilizando a música. Na Rússia, curada, longe de Jung, ela casa-se, tem duas filhas. Em Jornada da Alma eu senti uma balança com pesos iguais no relacionamento dela com Jung. Ele vivia o tormento de estar apaixonado. Se a menina amou Jung, ele também cedeu ao carisma daquela mulher, ela conquistou um lugar no coração e mente dele. Ainda que fora do normal, ainda que histérica, ainda que frágil. 
Talvez algum dia eu descubra mais detalhes da vida e alma de Sabina. Por enquanto, fico a pensar nela como alguém que foi atirada nos cenários mais cruéis, meio ao total desencanto e sem arsenal algum, saiu vestida de menina deusa, com flores brancas nos braços, um amor no coração, sorrisos de crianças espalhados ao redor. E extrair o melhor da vida, contra toda falta de amparo, não é para qualquer um.

resumo da vida de Sabina:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sabina_Spielrein


Monday, March 04, 2013

O Verão das Musas n° 5 - Camille Claudel



´´Sempre amarei o tempo das cerejas
É desse tempo que no peito eu guardo
Uma chaga aberta....´´
Camille Claudel


























Nióbide blésse



À sombra da noite clara
Latona no meu encalço
Espectros da última primavera

O Rio Loire, um duplo do Aqueloou
Meu Monte Sípilo é Ville-Èvrard
Onde endureço carne e alma

Delírios brancos, visões:
Escunas leves com velas de vidro
E tombadilho de pétalas
Estilhaçam na roupa cinza
Ferem-me, beijam-me – qual o amor

Meu ódio espelha o trágico
Anseio que o mundo petrifique
Qual Zeus petrificou Tebas

Sonho com o anjo da restauração
Acordo. Nada se restaura:

Cama dura de ferro
Urinol fétido, trincado
Três tâmaras secas
Dois gatos no cio a quebrar
O silêncio arredio da madrugada

Os loucos acordam com vislumbres de luz
- Átimo de lucidez.
Acenam lenços de seda à Latona fria
Choram um beija-flor e já no corredor
Vestem o olhar vazio.

Andam autômatos como rios mortos
Deságuam cinzas
No jardim de Ville-Èvrard.

Bárbara Lia
in Para Camille, com uma flor de pedra
edições 21 gramas



Verão das Musas #4 - Clarice Lispector




Foto: Miller of Washington/ Arquivo Clarice Lispector/ IMS

Saturday, March 02, 2013

O Verão das Musas #3 - Pagu




“Pagú tem uns olhos moles
uns olhos de fazer doer.
Bate-coco quando passa.
Coração pega a bater.

Eh Pagú eh!
Dói porque é bom de fazer doer (...)”
Raul Bopp


Musa dos Modernistas. O verão das Musas - aquelas - as verdadeiras. Algumas pessoas pensam na Musa como aquela estátua de beleza que inspira poetas. Alto lá! Musa que é Musa passa longe da esfinge, manequim oca, estas coisas poucas. Musa que é Musa veste o Universo. Vive o seu tempo, como viveu Pagu. Alardeava o novo, incentivou Plínio Marcos, traduziu muitos autores e estava sempre na vanguarda de um tempo que a tratou de forma rude. Pagu - eternamente - brilhará como uma das Musas mais belas da Constelação Brasileira. 


***

PAGU, poeta:


Um peixe
Patrícia Galvão

Um pedaço de trapo que fosse
Atirado numa estrada
Em que todos pisam
Um pouco de brisa
Uma gota de chuva
Uma lágrima
Um pedaço de livro
Uma letra ou um número
Um nada, pelo menos
Desesperadamente nada.



Sobre a Poesia de Pagu, no site Modo de Usar & Co.


Bela página em homenagem a Pagu - http://www.vidaslusofonas.pt/pagu.htm


http://pt.wikipedia.org/wiki/Pagu





Friday, March 01, 2013

O Verão das Musas #2 - Nise da Silveira






Dra. Nise da Silveira, psiquiatra que criou o Museu da Imagem do Inconsciente. Pioneira que usou a arte como terapia. Doutora Nise acreditava naquilo que Artaud dizia, classificando a esquizofrenia como – um outro estado do ser – estes loucos como Artaud e Van Gogh e tantos. Viver não é apenas instante de chás à sombra. Este retorno ao quintal da infância é uma fuga secreta - eu vivo em um outro estado do ser. Eu tenho grilhões e chispas solares. Em mim as velas queimam como vulcões e a brisa invade como furacão. Isto é bem mais que um coração & alma pode suportar, muito mais. Então a poesia é o meu ópio, a terapia, o refúgio, como na infância, era a minha revoada por quintais, perseguindo borboletas e criando reinos imaginários. A vida retalha as costas com seu chicote enquanto eu canto árias azuis. Quem não entende isto, não deve vir ao chá, não deve ler poemas à meia-luz, não deve beber um vinho em um túmulo branco e perguntar à lua – afinal pra que mesmo tudo isto?


Quando visitei a exposição do Museu do Imagem do Inconsciente, em sua passagem pelo MON em Curitiba, fui tocada por uma espécie de alumbramento diante das telas de Fernando Diniz... 

O Verão das Musas traz esta pequena alagoana, personagem de Memórias do Cárcere - romance de Graciliano Ramos. Nise ficou 18 meses detida no presídio da Frei Caneca, um dos prisioneiros era Graciliano. 
Em 1995 Nise publicou - Cartas a Spinoza. 
O legado de Nise da Silveira inspira e nos toca com a força de aço de uma pequena mulher alagoana que optou por curar pela Arte, dialogar com seus ícones e mudar o comportamento de muitos dentro das Instituições. 






“ Agora, aqui em segredo, ouso supor que você tenha descoberto os poderes do imaginário e de suas possibilidades de organização, admirando, contemplando longamente as pinturas de seu contemporâneo Rembrandt. De certo não lhe escapou que Rembrant não se prendia à realidade objetiva, segundo preferiam
grandes mestres da pintura holandesa de sua época. Não estaria ele buscando no claro escuro do imaginário segredos muito íntimos, aspirações inefáveis?
Se numa tela célebre Rafael representou Platão com o indicador voltado para o alto e Aristóteles com o indicador voltado para terra, Remblandt exprimiu talvez coisas mais distantes, pintando Aristóteles com a mão respeitosamente pousada sobre a cabeça de um busto de Homero cego.
Ainda ontem a noite, pensei muito em você, mergulhado na contemplação do Doutor Faustus, ou imóvel, diante do Filósofo com o livro aberto, olhos perdidos, muito além das letras impressas, tranquilo, sentado ao lado de uma escada que se alonga em movimento espiralado não se sabe para onde.
Perdoe tanta ousadia. A sua menor discípula,
Nise”

Nise da Silveira

Cartas a Spinoza
Francisco Alves, 2º ed., 1999

Thursday, February 28, 2013

O Verão das Musas #1 - Marina Abramovic






O verão das musas substitui  o meu abortado verão poético. Algumas Mulheres que se destacaram diante dos meus olhos. Mulheres que admiro. Este é o nosso verão. 

Mulher
Musa
Artista

Dia 08 de Março é o - dia da mulher. Quando eu era menina achava essencial e admirava e acreditava que deveria fazer o possível para ser alguém que deixa uma marca no mundo. Era muito estranho aquilo, pois eu era uma menina pobre, filha de uma descendente de indígenas, vivendo em uma cidade muito pequena. Quando completei um ano fui atingida pelo vírus da poliomielite. A pequena sequela alterou rotas. Criou uma pensadora. Talvez eu me tornasse alguém introspectiva da mesma forma, isto eu não sei. O que tenho certeza é que sai de um nível de escuridão, caminho nenhum diante de mim, para construir uma vida na qual me tornei exatamente o que eu queria ser. Voltando ao meu desejo de ser alguém capaz de ajudar o mundo ao redor. Eu lia, abismada, biografias de pessoas que marcaram seu nome na História. Muito forte batia em mim o vento da universalidade. Aquelas pessoas que viviam com o ideal de tornar o mundo melhor. Sempre pensei em ser escritora. Apesar de ouvir muita poesia em casa, apesar de ser puxada para isto, eu não via, ainda, os escritores como homens e mulheres capazes de alterar o mundo. Demorei a perceber que é o pensamento que move o mundo. Que a cada ação humana existe um comando que é via pensamento/palavra. Quando percebi que a minha vocação tinha tentáculos na via humanitária, eu já estava enfronhada em um caminho do qual demorei décadas para sair, pois aos dezoito anos fui aprovada em um concurso e desviei minha vida para a inócua burocracia. Agora, Poesia é a via. Ela é a minha - estrela guia - através dela eu posso dizer do mundo, navegar no mundo, pulsar em outros corpos e corações. Através dela eu me transformei em algo que nunca ansiei - Uma artista. Por isto, acho essencial começar o nosso pequeno roteiro das - mulheres que eu admiro - com Marina Abramovic. Precisava encontrar Marina neste momento. Saber que estou no caminho certo. Que, ainda que tudo aponte para muitos nãos que caem como portas diante de mim, tudo em mim é um SIM. E ler este manifesto é parte do desabrochar rosa de 2013. Tem a ver com fases, tem a ver com um poema, tem a ver com o fato de no primeiro dia deste ano ser puxada para fora de minha casa. O céu estava coberto de nuvens rosas. Eu estava com meu neto no dia primeiro de janeiro. Ficamos os dois olhando para o céu e eu comentei com ele e ele não esqueceu. Quando fomos para a praia, eu contei para minha filha sobre aquela experiência nossa. Era a anunciação de outro tempo, a mudança, a destruição da fase azul de Picasso - um paralelo que fiz - pois ele passou da dolorida fase azul para uma outra de telas sem dor, a fase rosa. E quando eu comentava do nosso espanto diante do céu de outra cor o Arthur,  que tem apenas três aninhos, completou - o céu tinha nuvens cor de rosa. Sim. Muita coisa na atual LITERATURA destoa deste Manifesto. Quase tudo destoa neste tempo das - celebridades. Consegui vestir quase todas as palavras de Marina. Apenas não consigo perdoar os 'inimigos' que devo considerar sejam os desafetos. Sou Poeta e Humana, santa não. Perdoe-me Dalai Lama, os deuses do Olimpo, os Orixás e Alá... Deve haver algum protocolo celeste para entender isto, e considerar a minha dificuldade em perdoar alguns desafetos. Então. Perdoo, sim, os pequenos impasses e pessoas que não usaram da crueldade nua para me alcançar e magoar, difícil é a empáfia. É você mandar um e-mail por puro engano para alguém e azedar tudo, pois alguns acreditam pateticamente que o mundo gira em torno de seus umbigos. Vamos esquecer estas coisas pequenas. É tempo de mulheres fortes, as belas, as carismáticas, as que não precisam diminuir ninguém para brilhar, aquelas que são de aço, ferro, mel, nuvem, água, eternidade.


MANIFESTO SOBRE A VIDA DO ARTISTA

MARINA ABRAMOVIC


1. a conduta de vida do artista:

- o artista nunca deve mentir a si próprio ou aos outros- o artista não deve roubar ideias de outros artistas
- os artistas não devem comprometer o seu próprio nome ou comprometer-se com o mercado de arte
- o artista não deve matar outros seres humanos
- os artistas não se devem transformar em ídolos
- os artistas não se devem transformar em ídolos
- os artistas não se devem transformar em ídolos


2. a relação entre o artista e sua vida amorosa:

- o artista deve evitar apaixonar-se por outro artista
- o artista deve evitar apaixonar-se por outro artista
- o artista deve evitar apaixonar-se por outro artista


3. a relação entre o artista e o erotismo:

- o artista deve ter uma visão erótica do mundo
- o artista deve ter erotismo
- o artista deve ter erotismo
- o artista deve ter erotismo


4. a relação entre o artista e o sofrimento:

- o artista deve sofrer
- o sofrimento cria as melhores obras
- o sofrimento traz transformação
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito


P
- os artistas devem procurar a inspiração no seu âmago
- Quanto mais se aprofundarem no seu âmago, mais universais serão
- o artista é um universo
- o artista é um universo
- o artista é um universo


8. a relação entre o artista e o auto-controlo:

- o artista não deve ter auto-controlo em relação à sua vida
- o artista deve ter auto-controlo total em relação à sua obra
- o artista não deve ter auto-controlo em relação à sua vida
- o artista deve ter auto-controlo total em relação à sua obra


9. a relação entre o artista e a transparência:

- o artista deve dar e receber ao mesmo tempo
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber


10. a relação entre o artista e os símbolos:

- o artista cria os seus próprios símbolos
- os símbolos são a língua do artista
- e a língua tem que ser traduzida
- Às vezes, é difícil encontrar a chave
- Às vezes, é difícil encontrar a chave
- Às vezes, é difícil encontrar a chave


11. a relação entre o artista e o silêncio:

- o artista deve compreender o silêncio
- o artista deve criar um espaço para que o silêncio entre na sua obra
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento

12. a relação entre o artista e a solidão:

- o artista deve reservar para si longos períodos de solidão
- a solidão é extremamente importante
- Longe de casa
- Longe do atelier
- Longe da família
- Longe dos amigos
- o artista deve passar longos períodos de tempo perto de cascatas
- o artista deve passar longos períodos de tempo perto de vulcões em erupção
- o artista deve passar longos períodos de tempo observando a correnteza dos rios
- o artista deve passar longos períodos de tempo contemplando a linha do horizonte onde o oceano e o céu se encontram
- o artista deve passar longos períodos de tempo admirando as estrelas no céu da noite

13. a conduta do artista em relação ao trabalho:

- o artista deve evitar ir para seu atelier todos os dias
- o artista não deve considerar o seu horário de trabalho como o de um funcionário de um banco
- o artista deve explorar a vida, e trabalhar apenas quando uma ideia se revela no sonho, ou durante o dia, como uma visão que irrompe como uma surpresa
- o artista não se deve repetir
- o artista não deve produzir em demasia
- o artista deve evitar poluir a sua própria arte
- o artista deve evitar poluir a sua própria arte
- o artista deve evitar poluir a sua própria arte

14. as posses do artista:

- os monges budistas entendem que o ideal na vida é possuir nove objectos:
1 roupão para o verão
1 roupão para o inverno
1 par de sapatos
1 pequena tigela para pedir alimentos
1 tela de protecção contra insectos
1 livro de orações
1 guarda-chuva
1 colchão para dormir
1 par de óculos se necessário
- o artista deve tomar a sua própria decisão sobre os objectos pessoais que deve ter
- o artista deve, cada vez mais, ter menos
- o artista deve, cada vez mais, ter menos
- o artista deve, cada vez mais, ter menos

15. a lista de amigos do artista:

- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito
- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito
- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito

16. os inimigos do artista:

- os inimigos são muito importantes
- o Dalai Lama afirmou que é fácil ter compaixão pelos amigos; porém, muito mais difícil ter compaixão pelos inimigos
- o artista deve aprender a perdoar
- o artista deve aprender a perdoar
- o artista deve aprender a perdoar

17. a morte e seus diferentes contextos:

- o artista deve ter consciência de sua mortalidade
- Para o artista, como viver é tão importante quanto como morrer
- o artista deve encontrar nos símbolos da sua obra os sinais dos diferentes contextos da morte
- o artista deve morrer conscientemente e sem medo
- o artista deve morrer conscientemente e sem medo
- o artista deve morrer conscientemente e sem medo

18. o funeral e seus diferentes contextos:

- o artista deve deixar instruções para seu próprio funeral, para que tudo seja feito segundo a sua vontade
- o funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida
- o funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida






Marina Abramovic nasceu em 30 de Novembro de 1946, em Belgrado, Sérvia. Marina é uma artista que iniciou sua carreira no início dos anos 1970. Em atividade há mais de três décadas, Marina se denomina como a "avó da arte da performance". O trabalho de Abramovic explora a relação entre o artista e o público, os limites do corpo e as possibilidades da mente.

La nave va...

Ilya! (Vmesto Pis'ma) - Bárbara Lia - para Connor Storrie

“Ilya! Vmesto Pis’ma” é o título perfeito para o que escrevi, fulminada de encanto e admiração pela Arte de Connor Storrie. Em lugar de uma...