Saturday, April 06, 2013

The Girl



Sonhei que aos vinte anos me envolvi com  Hitchcock e que ele me presenteou com uma espécie de talismã que eu levava comigo. No sonho encontrei uma garota morena que insistia em dizer que era ela o grande caso de amor de Hitch. Olha só a confusão por conta do filme - The Girl - que assisti semana passada. Na conversa com a fictícia morena ela estava determinada a seguir como - a garota de Hitchcock- então dei a ela o meu talismã, amuleto, presente... Hoje acordei com o sonho ainda quente entre as mãos... E ficou tudo por isto mesmo.
Fiquei realmente impressionada com o filme, baseado no livro “Fascinado pela Beleza”, de Donald Spoto, “The Girl” conta uma história conhecida: a obsessão do diretor inglês por Tippi Hedren, protagonista de “Os Passáros” (1963). Toby Jones é um grande ator. Ele consegue fazer com que a gente deteste Hitchcock. Não creio em tudo que vejo, mas, creio na chateação que é ter alguém te assediando quando você não retribui tanto desejo. Em algum momento uma pena sublime do diretor vai nascendo dentro da gente e então ele faz algo que dá vontade de dar um tabefe naquele rosto eterno. Em todo caso, Hitch é incontestável e genial e eterno, apesar da garota. As cenas duras só de olhar (imagine interpretar) ficaram assombrando por um tempo. Certamente hoje nenhuma atriz faria o que ela fez, encarar pássaros ferozes ao vivo e a cores. Era uma maluca também a Tippi, ela aceitava tudo nas filmagem e se rebelava contra as investidas de Hitch. Muitos diretores e suas atrizes com suas histórias encarceradas em caixas de Pandora, quiçá. Deve existir uma química, um enlace, deve ser como um encontro mais explosivo que os de cama, tanto que alguns vão mesmo para a cama como a Kristen Stewart há pouco tempo. Hitchcock apaixonou-se e cedeu à  humanidade, aos gritos de dentro. Isto não deixa de ser poético. Talvez o limite de tudo, o limiar do risco que ele colocou nos filmes, ele queria para a sua vida. Ele descobriu que não podia tudo. Ninguém pode. Lembro que uma jovem escritora disse-me uma noite em um café: Você é a Bárbara Lia, você pode tudo. Aquilo me assustou muito. Ninguém está acima do bem e do mal, Nem Hitchcock, muito menos eu.

"as loiras são as melhores vítimas"

* The Girl, produção HBO, com Toby Jones e Siena Miller.


Tuesday, April 02, 2013

Réquiem para Martha

                           Martha Gellhorn (1908 - 1998)



Martha Gellhorn visitou-me nesta madrugada. Com sua voz firme a apontar verdades em uma história de amor enlaçada com a História do Século XX. Martha Gellhorn - Correspondente de Guerra, Livre e Bela. O filme Hemingway and Gellhorn é fiel na tradução da alma e da têmpera desta americana. Ela amou Hemingway, mas nunca abdicou da sua carreira de jornalista e escritora por ele. Por ser a única mulher a deixá-lo, li em algum lugar que ele a odiava. O filme não transpareceu isto. No filme ela é a narradora. Em uma entrevista ela fala de sua vida e carreira, uma Nicole Kidman maquiada, de olhar cansado, diferente das cenas onde ela conhece Hemingway (Clive Owen) e vive com ele um tórrido romance. Na sua luta contra o Fascismo ela se coloca no front. Depois disto, acompanha as guerras e se transforma em uma das maiores (quiçá) maior correspondente de guerra. Martha escreve bem, foca seu olhar no humano. Quer falar da guerra - as questões políticas - mas, as pessoas e suas dores sobressaem diante dela. As crianças mortas, ou as crianças que choram ao lado dos cadáveres das mães a sacodem, tal e qual, ou mais talvez, que a sua paixão por Hemingway. As mentes inquietas e criadoras trazem em si um potencial erótico infinito. Quando duas mentes destas se atraem e seus corpos correspondem, acontecem os grandes encontros de amor passional da História do Mundo. A inquietude de Martha e sua coragem foi o que de mais bonito me foi revelado neste filme. Hemingway dedicou a ela - Por quem os sinos dobram. No filme a figura de John dos Passos, interpretado por um ator que eu admiro muito, David Strathairn. Rodrigo Santoro em um papel que cai feito luva, de um revolucionário espanhol... Poéticas cenas mostram o fotógrafo húngaro - Robert Capa  - e as imagens dele congeladas na tela. 
Amo o sopro de renovação que chega com estas figuras essenciais. Martha nunca se colocou como apenas uma nota de roda-pé na biografia de Ernest Hemingway. E ela realmente estava à altura dele em sua jornada solitária pelo século, registrando as guerras e nunca abrindo mão de sua liberdade interior. Por cinco anos eles conseguiram algo quase improvável para estas pessoas solares: Viver a paixão em plenitude. Ernest fala sobre isto com Mary, a pessoa com quem ele viveu seus últimos anos de vida - Ela (Mary) era o tipo de mulher que cuida de um homem. Estas - geralmente - encontram maridos. As que não querem cuidar e nem serem cuidadas, vivem como Martha - esporádicas paixões, solidão assumida e a certeza de que construir com suas mãos um caminho - no caso dela, glorioso - vale todo o vazio do leito, da mesa, da sala. E para compensar, Deus sempre coloca um vulcão na vida destas mulheres. Estes que perpetuam - não pelo tempo de vivência - mas, pela força da experiência, do amor sem limites, da entrega extrema e do enriquecimento mútuo, que vale a pena, sempre vale a pena.





Sunday, March 31, 2013

Primavera atemporal com Samuel


The Pillow Book by Peter Grennaway




E como explicar o desejo?
A flor que se abre – à revelia-
Sôfrega, desvairada, atônita
Tudo se reparte
Em crisálidas mirabolantes
Parindo estrelas adormecidas
Aos borbotões


Bárbara Lia





SEGREDOS DE BEM-TE-VI



Tu - raiz - incendiando os labirintos da flor
A canção o grito o silêncio os passos a dor
Pisando nuvens e atirando palavras febris
Bilhetes sépia pelas frestas, gestos sutis


Casa de fogo, asas de cera, seda e estrela
Versos ao vento de um lugar - nadie os busca
As paredes espelhadas de som, água e vela
Bilhetes flanando plenos de amor que ofusca


O bem-te-vi saúda a cada nova manhã
Gritos de desejo lacrados atrás da porta
Versos memórias peles com febre terçã           


A gritar a saudade louca desfraldada
Bem-te-vi a espiar pela janela torta:
O beijo do homem de sol e da mulher alada

Bárbara Lia



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Éramos Eros: Cio miraculoso uníssono
Éramos Eros: Como respirar mesmo ar

In Até secar o Sol (2012)




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As palavras rolavam na grama e molhavam o chão com o desejo enrustido
As palavras eu as colhia e depositava entre as coxas - O fogo adiado

Bárbara Lia 


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Hoje à noite eu o amo pelo modo adorável como ele me deu a Terra.

Anaïs Nin




Gregory Peck - Ingrid Bergman







SÉPIA


Minha luxúria é sépia
Habita estúdios de 1930
Estouro de purpurina
A cada flash do tesão
                                              
Minha luxúria - Polaróide antiga
Imprime postais esmaecidos
Sorrisos em conta-gotas

Minha luxúria lacrou
O livro do amor
- utopia dos desgarrados –

(Adeus suspiros de Monalisa
Carícias de carpideira
Despedidas na soleira)

Minha luxúria é parto à revelia
Quando chegas com fórceps
Quando chegas com toques
Quando tocas meu clitóris
Quando roças meus mamilos

Quando afogas o amor
No mar dos improváveis
E ressuscitas o desejo

Retirando-me das entranhas de Eros
Pra me batizar com teu sêmen
Abençoado sêmen
Amém

Bárbara Lia
até secar o sol - 21 gramas







Humprey Bogart - Ingrid Bergman

d'hiver noir avec le bébé




ORGASMOS DE ÍRIS


Teus olhos enlaçavam os meus
em orgasmos de íris.
Inflorescência de estrelas.

Sempre acordo antes do sol.
Agora, que comecei a te amar,
amanheço antes que o dia.

Espanto as Bacantes gélidas,
que seguem o perfume da tua pele-
lírio do recomeço.

Pedras destilam a bílis
e a mágoa vai vazar em áridas notas
de um blues sem juízo.

As sapatilhas – talismã – azuis
seguem- te em paralela senda.
A dez centímetros e um véu.

O mar recua ante teu passo,
estátuas vertem  suor ao teu lado,
dentro o sol, não te permite sombra...

... E teus olhos enlaçavam
meus olhos
em orgasmos de íris...

Bárbara Lia 
in Noir (2006)




O amado na praia de mármore







BRISA


Entardecer lilás
brisa de raro fôlego


do deus das nuvens.
Pés descalços


liberdade de estar amando
na era dos mísseis.

Bárbara Lia
O sal das rosas 
Lumme/2007




























CONCHA ROSSA


Gosto dos sonhos feito filmes.
Peço aos anjos – Não me acordem!
Quero pisar algas, morangos, açucenas.

Leve flanar que só o sonho alcança.
Pensei haver sonhado aquele encontro
e raptei concha rossa naquela praia.

Dorme no meu quarto, na orla
do meu leito. Não foi sonho,
foi céu real. E o céu é eterno.
Bárbara Lia
-Revista Travessa dos Editores
edição de aniversário/2004






VIOLETAS BRANCAS


Sigo teus passos, feito asteca, sonhando
a terra eterna e rica – tua pele.
Pele de diários, onde leio a lua.
A maré suave que me enlaça nua,

écharpe de brisa e aurora, corais gris.
Adeus soledade de pedra. Paloma triste
em vôo riste, ao longe.
O deus-do-sol-do-meio-dia, colibri azul

da era atômica, é um sopro de luz e sons.
Sonhos delineados na tela fria.
O mundo sangra e transforma a garça

em íbis rubro. Leio um salmo antigo,
acordo em manhãs violetas. Tenho por companhia
um pequeno vaso de violetas brancas.
                                                                                                                              Bárbara Lia - O sal das rosas - Lumme/2007


Friday, March 29, 2013

Madrugadas com Rimbaud




Stefano Bianchetti/Corbis



A vela acesa, o estábulo, o feno
O vento rutilante lá fora
Uma estação no inferno
Um grito dentro
Que ainda espanta
Em todas as catedrais
As pombas brancas


****



quando ele corria
pelos telhados de ardósia
as pombas arrulhavam
em ventania
seu casaco - vela sacudida
estremecia
a maré da monotonia



***




Dans L’air



Tínhamos a mesma idade
Quando vimos o mar
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
 – Rimbaud e eu –

Por isto
Pisamos telhados
Ao invés do chão

Por isto
Machucamos nossos amores
Com nossas próprias mãos

Por isto
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe


- Por isto, tão pouca a vida
para tanta voracidade -


Bárbara Lia
O rasurado azul de Paris
- Coleção Artesanal 21 gramas.






Tuesday, March 26, 2013

Um outono com Camille





Para Camille, com uma flor de pedra.  Poesias inspiradas na vida de obra de Camille Claudel. Escrevi em um outono. Imprimi na série de livros artesanais - 21 gramas. 
Após receber o livro, Kátia Negrisoli traçou algumas linhas sobre os poemas. Nesta publicação em formato e-book ele traz a apresentação da Kátia Torres Negrisoli. A capa eu "roubei" da divulgação do recital do livro - O sal das rosas - no projeto Porão Loquax, pois ele tem a flor e a garota que lembra Camille jovem. O desenho de Brenda Santos - O sal das rosas. A rosa que é doada a Camille. A rosa publicada internamente é de Ane Fiúza. Minha amiga que ilustrou o livro - Noir. Estes diálogo femininos somados para compor este pequeno livro. Para Camille... com uma flor de pedra.

link para o livro no provedor ISSUU:


 http://issuu.com/barbaralia/docs/para_camille_-_livro_artesanal_2

Saturday, March 23, 2013

Uma manhã com Shakespeare

Desdêmona - Rodolfo Amoedo







DESDÊMONA

Olhou-me como nuvem
A sugar os vapores
Da minha alma
Por que ele é meu deus
Guardei-o em um lago
Onde Iago
jamais chegará

Bárbara Lia
A última chuva (2007)
Mulheres emergentes ed.



Uma tarde com Dante


fonte:



Crucificar a alma da rosa no caos do sangue de uma geração que é sombra em si. No limiar do céu a rosa mística abre apenas para Beatriz. Liberar o humano só quando o Verbo ungir as catedrais e os estádios. Molhar as aquarelas, os palcos e o negro silêncio profundo dos megabytes.
Bárbara Lia

O sal das rosas/Lumme 2007





Inferno by Stradano - fonte wikipédia



“A liberdade de morrer”



As asas que tu me destes
Rotas de Invernos
Ancoradas na ausência

As asas desfraldadas
Em suicídio adiado
No parapeito viscoso
- Décima espiral do Inferno de Dante

Bárbara Lia
in A flor dentro da árvore


Thursday, March 21, 2013

Dia Internacional da Poesia - Os poemas que eu vestiria III






A ESTRELA PRÓXIMA

A poesia é
impossível.

O amor é mais
que impossível.

A vida, a morte loucamente
impossíveis.

Só a estrela, só a 
estrela
existe.

- Só existe o impossível.
Orides Fontela


Dia Internacional da Poesia - Os poemas que eu vestiria II




"And were an epitaph to be my story I'd have a short one ready for my own. I would have written of me on my stone: I had a lover's quarrel with the world."
Robert Frost

Dia Internacional da Poesia - Os poemas que eu vestiria I




O Homem Público N. 1 (Antologia)
- Ana Cristina Cesar

Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.

La nave va...

Ilya! (Vmesto Pis'ma) - Bárbara Lia - para Connor Storrie

“Ilya! Vmesto Pis’ma” é o título perfeito para o que escrevi, fulminada de encanto e admiração pela Arte de Connor Storrie. Em lugar de uma...