Monday, December 04, 2006

GRUPO FATO





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GRUPO FATO - Curitiba - Guairinha - Julho
show - Música Prageada
foto de Bárbara Lia (amadora até à medula)




FATO
(por Bárbara Lia)



Na infância meu pai falava de uma dança chamada catira, eu percebia que ele tinha vontade de saber aquela dança, conhecida também como cateretê. Mas todo filósofo tem alguma dificuldade com estas minúcias do corpo, uma certa carência nos gestos. São tão concentrados no cérebro e alma, que acabam sendo malabaristas do impossível, curvados sobre livros, ou tendo torcicolo ao perscrutar estrelas. Eu havia ouvido falar daquela dança típica dançada pelos vaqueiros. Meu pai havia sido peão quando era jovem, um peão de boiadeiro, um desses vaqueiros que nas noites acendem uma fogueira, e dançam catira à lua. Os catireiros, como são conhecidos, têm uma vestimenta típica: camisa xadrez _ de manga comprida _ e calças jeans. Usam botas, chapéu de aba larga e lenço no pescoço, lembrando os boiadeiros. Eles bailam ao som da moda de viola, que trata de questões do dia-a-dia, como o trabalho e o amor. Os dançarinos em duas fileiras, a sapatear e bater palmas, sempre ao ritmo das violas. Para mim catira era um movimento que tinha terra & luz, sapateado e homens da roça.
Um dia colei o olhar na Televisão, um grupo que tinha uma dança, assim, de bater os pés, ao som de uma música que continha poesia, não me lembro quando, só me lembro que gravei o nome do grupo: FATO. Depois eu soube que era Fandango, que não era catira aquela dança bela. Fandango é uma dança típica do litoral do Paraná, reunião de várias danças que encerram a autêntica poesia cabocla nos cantos que as acompanham. É um translado da Península Ibérica. A melodia e os versos entoados no fandango contém a imaginação e a sensibilidade do nosso caboclo. Sua coreografia exige técnica e agilidade de bailarino, calçados especiais desses que se usam para o sapateado. As mulheres valsam arrastando os pés, atentas às evoluções, enquanto os homens sapateiam num ritmo certo. Os cavalheiros ou folgadores batem o sapateado com tamancos de madeira de lei, que eles mesmos confeccionam. O acompanhamento é feito com duas violas de onze cordas, pandeiros e uma rabeca.
Lentamente fui conhecendo a trajetória do grupo Fato.
Neste ano, no dia do aniversário de Curitiba, liguei a TV e eram os integrantes deste grupo que se apresentavam em um palco na Praça Santos Andrade, junto com a Orquestra Sinfônica do Paraná. A voz de Alexandre Nero me seduziu _ voz-poesia _ esculpida na noite que ia caindo cobalto. Fui fatalmente e definitivamente seduzida por este grupo musical.Em uma das músicas do Fato, a letra de três versos de Sandro Fernandes, com música de Ulisses Galetto e Grace Torres, ao ritmo do Fandango, vira uma festa de acordes:


A noite foi
A noite é
Anoitecerá


Toda a coreografia, o ritmo, a poesia das letras, a voz única do vocalista, entrecortada da intervenção dos outros integrantes e o show do Fato se transforma em um acontecimento que contagia. Utilizando raízes paranaenses e músicas que são poemas, e com uma afinidade entre eles, este grupo que iniciou em 1.994, e em 1.995 lançou o primeiro CD _ Fato. Seguidos de _ Fogo mordido (1.997) – Oquelatá queteje (2.000), e se preparando para lançar no início do próximo ano mais um CD. Entre muitas apresentações do Fato, inclui o projeto “Balaio Brasil” _ SESC, que reuniu artistas de todo o país na capital paulista. Neste ano o Grupo Fato representou o Brasil em Paris no _ Ano do Brasil na França _ com sua peculiaridade musical única. Seduzidos pelo Fandango, em 1.996 foram às raízes, até A Ilha dos Valadares, antigo entreposto e cativeiro de escravos que ainda mantém a prática de rituais rurais como a feitura da farinha de mandioca, e é a sede do folclórico fandango. Ulisses Galetto compôs uma das músicas do Fato, com o título Valadares...
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No tempo em que seria feito
O que tivesse sido dito
Pelas vozes búlgaras
Trazidas pelo ar


E o som do oco
(chão batido na madeira)
fosse aqui de Valadares
com tamanco e agogô


De grão em grão
Toda rabeca de Gramani
Enchesse a vida
De carinho e algo mais


Caruaru trouxesse pífanos de luz
Pra roda viva
E aí, quem sabe,
Houvesse um mar, um sol e um blues


De toda a coisa do mundo
Do fim do fosso, do fundo
Francisco, o Santo ou o Mendes
O Rio ou outro qualquer
Um olho, um brilho, uma trilha
De um novo homem sem rumo
A candelária em Janeiro
E a gente cega de fé


Se após o começo
Houver um meio sem fim.
Que seja um ponto no escuro,
Um carma, um ato, um amor
Uma criança, um futuro
Um homem agora com rumo
O que faria nosso sonho
Trocar o não pelo sim?
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Trocar o não pelo sim, rasgar a fonte branca das possibilidades, ancorar em uma Ilha antiga e aprender com seu povo a antiga dança, andar sempre com a música e sua partitura colada à pele. Não sei se algum dia a música vai me deixar um pouco quieta. Tudo que escrevo, cada romance, cada conto, e cada FATO tem uma música de fundo como um balé na alma. Se toda a poesia e a beleza da voz do Nero, e das partituras e dança e coreografia do FATO e de tantos grupos musicais que tem essas peculiaridades de traduzir a beleza da música _ neste enlace perfeito de melodia, letra, voz e dança. Se todos esses exemplares raros que a gente vê pousassem na telinha e fossem difundidos como os outros ritmos pops, tão fracos em filosofia em suas letras, tão iguais em seus acordes. Se estes grandes Grupos tivessem o espaço que dão ao pop pobre nosso de cada dia, a poesia ia fecundar, eu sei, e sei que isto é sonho meu de poeta. Mas, eu não entendo o meu País, tanto ouro escondido nas grutas, que a gente felizmente vai cavando, vai bebendo, e vai desfrutando, sempre com uma emoção guardada. Querendo que todos conheçam, sem ser egoísta, querendo que todo mundo um dia sinta como pulsa o sangue no ritmo do fandango e como é delicioso ouvir uma música cuja letra é o poema lavrado em cordas. A rabeca, pandeiro, tamanco e a lua, que certamente veste seu vestido azul alvíssimo e também dança.

FATO:
Alexandre Nero – voz
Gilson Fukushima – guitarras
Grace Torres – teclados
Priscila Graciano – Percussão
Ulisses Galetto – Baixo
Zé Loureiro Neto – Bateria
www.fato.org

2.006 _ Um ano longo/louco _ dezembro no ritmo do encerramento de aulas e início de férias. Decidi publicar a escalada intensa de 2.006, textos e poesias, e vou retroceder a dezembro de 2.005, quando o site Vejo São José publicou este texto sobre o Grupo Fato, sem que eu soubesse naquela época que iria novamente entrar em transe poético no show _ Música Prageada _ quando Alexandre Nero cantou "Águas de Março". O novo CD é belíssimo... E segue a trajetória deste grupo genial...