Friday, December 15, 2006

VOLVER


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Carmen Maura/Penélope Cruz
VOLVER (Almodóvar, Espanha)


Volver, o filme de Almodóvar é surpreendente, é a genialidade de fazer rir com as coisas que ferem mais que tudo. Eu temia ver um filme que falava da relação mãe-filha, e a atriz Carmen Maura lembrou a minha mãe, o rosto bonito embora envelhecido, e foi impossível não chorar ouvindo a personagem de Penélope Cruz cantando Volver e a mãe ouvindo, escondida a chorar. Volver é uma palavra impossível para mi madre. Eu segurei a mão dela na UTI. A mão fria, e a vida exilando é a coisa mais difícil de se enfrentar. Esperei que amanhecesse o dia na varanda de um Hospital em Maringá, quando fui chamada para a hora final, para onde a levaram e onde a vida dela foi parando devagar, como aqueles trens antigos até exilar o último acorde. Ela já não dizia nada com nada, e misturava tudo e guardava ainda aquilo que as pessoas guardam na alma, as confusões do viver, a vontade de estar ao lado de quem lhes dá a paz... Eu estava lá apenas para ficar dez minutos, era a despedida, todo mundo sabia, a família inteira na recepção pequena em estado de angústia e querendo entender e entender-se. Considero que aquela não foi a nossa última conversa, considero que mesmo sem deitar em seu colo, nossa despedida já tinha acontecido, com esta inexplicável ligação que há entre quem se ama, ela já havia dito o que necessitava me dizer, para se sentir melhor, para morrer em paz...
A cena era tão branca, espero jamais entrar em uma UTI e segurar a mão gelada de quem amo, nunca mais. A enfermeira me disse - dez minutos. O tempo passava e eu estava lá, e as recordações dela eram um conto estilo nonsense, que eu ouvia, calada, mão sua entre as minhas mãos. A enfermeira não me pedia para sair e fiquei ali, com ela pela última vez, sabendo que ela jamais iria volver... A enfermeira justificou a razão de ter "esquecido" de pedir para que eu saísse - Você é a única que a acalma, que conseguiu se manter calma diante dela... Sempre cismei com aquela mania dela, de me chamar de Lia... Talvez ela não me quisesse mesmo guerreira, incorporando este nome bárbaro... Que vê os amores morrendo, calma encobrindo o sangue coagulado dentro, o grito que escoa entre as rochas do nada, sempre o silêncio da minha dor valsando como dique dentro da montanha... A montanha protegendo, escondendo a dor que sangra líquida e incontida, segurando a mão da mãe que morre, de tudo que morre à revelia, sabendo que nada vai chegar para ocupar o lugar...
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Volver é um filme feminino, não feminista. É mais ou menos assim - mostrar como as mulheres conseguem tirar pétalas de pregos, ter aquela postura de peito erguido da personagem de Penélope. Cai o mundo, mas, não a coragem... estufar o peito, cantar a velha canção, tomar os filhos pelas mãos e o resto, o resto é o resto...