Saturday, March 19, 2016

ciudad sin sueño



Os homens que não sonham
(Bárbara Lia)


No duerme nadie por El cielo. Nadie, nadie.
No duerme nadie.
Las criaturas de La luna huelen y rondan sus cabañas.
Vendrán las iguanas vivas a morder a los hombres que no sueñan.
(Federico Garcia Lorca – fragmento de Ciudad sin sueño)




Os homens que não sonham demolem pontes catedrais parques cânions praças
Os homens que não sonham incineram as rosas cálidas das núpcias da moça feia
Os homens que não sonham afogam pássaros em nuvens escarlates enquanto riem
Os homens que não sonham pisam prímulas pálidas em varandas centenárias
Os homens que não sonham pintam máscaras de dor em crianças, com traços de Dali
Os homens que não sonham queimam o violino roto do último anjo que passou aqui
Os homens que não sonham armazenam cédulas, pepitas, moedas, esmeraldas, royalties
Os homens que não sonham caminham vestindo Armani olhos foscos atrás dos óculos
Os homens que não sonham trituram sonhos dos reais sonhadores como quem respira
Os homens que não sonham pisam pontes de gelo e alçam asas em pássaros niquelados
Os homens que não sonham nunca leram Lorca, não sabem de Las criaturas de la luna
Os homens que não sonham pisam flores de cerejeiras - tapete aveludado - e nem rezam
Os homens que não sonham odeiam flores nascidas pós-bombas em beleza voluntariosa
Os homens que não sonham ignoram iguanas vivas seus dentes de serra e olhar de vidro
Os homens que não sonham não veem os dentes afiados de iguanas tristes na pedra fria
Os homens que não sonham ignoram a mordida de iguana e ignoram que não sonham
Os homens que não sonham fecharam a via estreita que nos aproxima de um éden
Os homens que não sonham não amam iguanas, cidades, pedras, éden, cerejeiras, anjos
Os homens que não sonham não amam nada, não tocam nada, não vivem nada...