Sunday, March 11, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (VII)





















Um dia Deus
pedirá aos
poetas

Que levantem
E andem

A dar notícias
como jornais
a espalhar palavras
                            pão

Eles
sairão do poço
- fundo cavado-

Mas
se afastarão

Inventaram
a própria ressurreição


Eunice Arruda pertence a geração 60 de São Paulo, ao lado de poetas de proa como Álvaro Alves de Faria e Rubens Jardim e a inteligente teia de Orides Fontela, um grande exemplo de superação nas adversidades impostas pela vida.

http://poetaeunicearruda.blogspot.com/



EM CARNE VIVA

Um poeta em carne viva
abriga a terrível pulsação
de um coração-estrela
e um silêncio
encravado nas entranhas
como filho bastardo
que nasce
à revelia do seu canto

Um poeta em carne viva
pisa as pedras
imaginando-as
seda da China


Um poeta em carne viva
é um louco no tribunal
das almas de chumbo:
culpado sempre

Culpado de ser humano da fala ao falo

Bárbara Lia
Tem um pássaro cantando dentro de mim / 2011

Como tornar-se invisível em Curitiba - Jamil Snege




Você pode começar treinando numa dessas manhãs de muita neblina, à margem de um lago ou num bairro bem afastado do centro da cidade. Pode optar por uma rua deserta, no começo da noite ou numa véspera de feriado. Pode vestir um uniforme camuflado ou levar o seu "personal trainer" a tiracolo, pouco importa.

Esteja você com a síndrome do pânico ou com o coração amargurado, existe um método muito mais eficiente para tornar-se invisível em Curitiba do que essas deambulações (sic) pelos ermos da cidade. Embora não esteja ao alcance de todos, convém conhecê-lo, já que é absolutamente infalível e seus resultados surpreendentes.

Primeira condição: você precisa ter talento genuíno. Estudar bastante também ajuda, mas não substitui aquele toque de gênio inconfundível que marca e distingue certas pessoas desde o berço. Pois bem. De posse desse talento que Deus lhe deu – e contra a falta de estímulo da família, do meio e particularmente da própria cidade – você deve se atirar de corpo e alma na consecução de seu destino. Guiado unicamente pelo seu daimon, pelo seu anjo tutelar, você dará início à construção de sua lenda pessoal e dos projetos que dela advirão. Você estará, finalmente, a caminho de tornar-se invisível.

Cada conquista, cada livro publicado, cada poema, escultura ou canção, cada tela, espetáculo, disco, filme ou fotografia, cada intervenção bem sucedida no esporte, no direito ou na medicina, cada vez que alguém, lá fora, reconhecer com isenção de ânimo que você está produzindo obra ou feito significativo – o seu grau de invisibilidade aumenta em Curitiba. E é muito fácil perceber isso.

Primeiro, não faltarão pessoas tentando dissuadi-lo de seu próprio talento. Tudo farão para reconduzi-lo de volta à mediania, ou melhor, à mediocracia, que é o sistema vigente nesse estrato a que denominamos cultura. Se você resistir, tentarão cooptá-lo com promessas de nomeações ou ofertas de emprego em atividades sucedâneas. Se você é um belo projeto de escritor, alguém tentará convencê-lo de que é melhor, mais lucrativo, ser um redator de propaganda.

Se você é jovem e promissor cirurgião plástico, com projetos de especialização no exterior, não faltará quem o convide para sócio de uma dessas empresinhas de medicina privada lá onde o diabo perdeu as botas. Se mesmo assim você se mantiver fiel ao seu daimon, à sua lenda pessoal e não arredar pé de seu destino, a invisibilidade torna-se então um processo irreversível.

Os amigos mais chegados são os primeiros a acusar falhas em seus sistemas de radar quando o objeto a ser captado é você ou algo que lhe diz respeito. Os convites tornam-se mais escassos, o telefone já não toca como antigamente; e mencionar seu nome ou seus feitos, nas reuniões para as quais você não foi convidado, passará (sic) a ser tomado como um gesto de imperdoável traição ao grupo. Desse momento em diante, só os inimigos falarão de você. Falarão mal, obviamente.

E o mais curioso: à maioria desses "inimigos", a noventa por cento deles, você jamais falou, jamais sequer foi apresentado. Os amigos a gente escolhe, os inimigos escolhem-se a si próprios. Esta talvez seja a parte mais cruel (ou mais irônica) da história. A sua visibilidade, enquanto pessoa, transfere-se para a imagem que os outros fazem de você. Pois é ela, a sua imagem, que circula e passa a freqüentar os lugares para os quais você já não é solicitado. Não é mais você em pessoa – carne, sistema nervoso, personalidade, alma –, que se oferece à percepção do outro, mas uma espécie de correlato simbólico impregnado de tudo o que os outros lhe atribuem.

Para encurtar: vale a pena manter-se fiel ao seu daimon e cumprir com resignação cada etapa de sua lenda pessoal? Acho que sim. Curitiba está cheia de pessoas invisíveis.


Jamil Snege (1929-2003) nasceu em Curitiba, onde passou sua vida toda. Graduou-se em Sociologia e Política pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Escritor e publicitário, dividia seu tempo entre os livros e sua agência publicitária. Publicou crônicas, quinzenalmente, no Caderno G do jornal Gazeta do Povo . Escritor reconhecido pela classe literária, publicou, entre outros, O Jardim, a Tempestade (minicontos, 1989), Como Eu Se Fiz Por Si Mesmo (memórias, 1994) e Os Verões da Grande Leitoa Branca (contos, 2000).

Friday, March 09, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (VI)

Penelope Dullaghan   -    http://penelopeillustration.com/




Canção para um Homem e um Rio



Porque era um homem sincero
eu o levei ao rio entre junquilhos.
Mas sincero não era
era só homem
e deixei nos junquilhos a esperança
de dar à minha espera serventia.

Porque era um homem forte
eu o levei ao rio entre junquilhos.
Mas forte ele não era
era só homem
e entre pedras deixei o meu desejo
de abandonar o arado, a forja, e a lança.


Porque podia me amar
eu o levei ao rio entre junquilhos.
Mas amante não era
era só homem
e na água afoguei a minha sede
de palavras mais doces que ambrosia.


Porque era um homem
só homem
eu o levei ao rio entre junquilhos.

Marina Colasanti
Rota de colisão (Rocco, 1993)





*****



Inverno em minha Homestead
Meu coração um romance
Que nunca termina
Enquanto embalo a esperança
Que o sol pálido se fortaleça
E aqueça a cidade
Ouvindo Rita Ribeiro
Em um poema de Hilda Hilst:

"É bom que seja assim Dionísio, que não venhas"

Deus no orvalho
- 21 gramas / 2012



Ode descontínua e remota para flauta e oboé, de Ariana para Dionísio. Poesia: Hilda Hilst. Música: Zeca Baleiro - Canção I:





Wednesday, March 07, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (V)

cena do filme - Los amants du Tage (Henri Verneuil)

 


a maçã em tua mão
a mordida
a marca
dos dentes as gotículas
do sumo
o gosto o aroma
na língua
os lábios molhados
o prazer
no sorriso
rola a fruta
de susto no chão
                 insalubre

Berenice Sica Lamas
Copo de Violetas
Alf / 2011

Berenice Sica Lamas (Pelotas - 1949) Psicóloga, Poeta, doutora em Letras.



Amor mar muerto
Diez veces más sal
Que un amor normal
Aire atado
De amores muertos
Asustados
Con el amor vivo
Que rasga la roca
De modo que fluyan
Él liquido
Y lo granítico
De las flores

Bárbara Lia
Cantata Fugace
21 gramas / 2011

Monday, March 05, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (IV)










3 poesias do livro - O rasurado azul de Paris - Bárbara Lia:




quando ele corria
pelos telhados de ardósia
as pombas arrulhavam
em ventania
seu casaco - vela sacudida
estremecia
a maré da monotonia

 
 
 
Dans L’air
 
 
Tínhamos a mesma idade
Quando vimos o mar
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
– Rimbaud e eu –

Por isto
Pisamos telhados
Ao invés do chão

Por isto
Machucamos nossos amores
Com nossas próprias mãos

Por isto
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe

- Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade.





A vela acesa, o estábulo, o feno
O vento rutilante lá fora
Uma estação no inferno
Um grito dentro
Que ainda espanta
Em todas as catedrais
As pombas brancas




Sunday, March 04, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (III)

Grande como um quintal de infância - Millôr Fernandes





O caminho do instante já desenhado
mil saladas temperadas a óleo e sal
corto seu vermelho
e a sede aumenta

abro os braços nos dias tardios
rezo o sono do tempo
e amanheço ao som dos pardais

respiro infância
o suor caindo do balanço
tempo raro fotografado ao sol.

Maeles Geisler
Barra Velha, SC
(Lucidez transcrevo no papel e a loucura guardo. Aceito as letras e seu desenho mal feito. Refaço, procuro, me viro do avesso- Maeles)


http://www.terradegabriel.blogspot.com/




Chá para as borboletas


Janela - espelho meu.
Fragrância de almíscar selvagem
me violenta.

Menino com aura violeta.
Jovem com juba desgrenhada.
Velocidade lenta.

Garganta do poço este túnel cinza,
onde trafego dias.

Penso na infância, sombra
dos eucaliptos, recanto secreto

onde eu servia chá às borboletas.

Bárbara Lia
A última chuva
Mulheres Emergentes/2007

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (II)

Edouard Manet





IMPRESSIONISTA


Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
Adélia Prado

Adélia Luzia Prado Freitas (Divinópolis, 13 de dezembro de 1935) é uma escritora brasileira. Os textos retratam o cotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características o estilo único.



(...)

Um patchwork mineiro dentro de mim:

Odes a Nise e restos do manto
Do Alferes
Orgasmos de Dona Beja
E água memorável
Labirintos de Rosa
Perfume de Diadorim
Um suspiro de Adélia
Um olhar de Drummond
Um dominicano a enviar-me
Paz em postais
Dois poetas meninos
Vestidos de pedras e haicais

Bárbara Lia
A flor dentro da árvore
(fragmento da poesia - "Toquei seu berço silencioso")

Thursday, March 01, 2012

Frei Betto e as sementes da Paz


Querida Bárbara Lia
Agradeço a gentileza de enviar-me "A flor dentro da árvore". Sinto que a sua poesia está mais madura, mais solta, menos discursiva, plena de belas metáforas. Prossiga! É a sua sina.
Amizade e Paz.
Frei Betto
02/2012

...
clique na imagem para ler:

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (I)





Finisterrae


Aqui começa o fim
Feito de vento.

Enlouqueceu a bússola
Do tempo.

Naufragam as certezas
Do infinito.

Aqui se acaba o mapa
Nasce o mito.

Aqui começa a morte
Em naves findas .

Aqui começa o medo.
Como um grito.


Renata Pallottini nasceu em São Paulo, capital, a 20 de janeiro de 1931. Cursou Direito, Filosofia e Dramaturgia; escreveu e produziu trabalhos para teatro e televisão. Publicou, entreoutros,os livros: A casa, Clube de Poesia, São Paulo, 1958; Coração americano, Editora Meta, São Paulo, 1976; Chão de palavras, Editora Círculo do Livro, São Paulo, 1977; Noite afora, São Paulo, 1978; eObra poética, Editora Hucitec, São Paulo, 1995. Coordenou e participou da Anthologie de la poésie brésilienne, Editions Chandeigne, Paris, 1998, que reuniu quatro séculos da nossa história literária.

 


Tuesday, February 28, 2012

MISANTROPO


Tempestade à vista, vento abissal.
Recolher as roupas do varal.

Penetrar a gruta de cristal
Onde a voz de Deus ecoa.

Incenso, cantata de Bach.
Equilíbrio = solidão total.

Bárbara Lia


David Hochney

Monday, February 27, 2012

Dissidentes





Quando te expulsam de um sistema pode ser o inverso do que está no Gênesis. Se te sobrar  um único lugar, pode ser que este lugar seja o Paraíso. E o Paraíso não é muito habitado, mas, é o Paraíso. Sempre que alguém tenta me dizer que não devo ser esta dissidente, que não é salutar se isolar, eu penso nesta verdade que me assusta: Anularam a individualidade. O mundo só existe em comunidade, em grupos. Ter uma mente livre e se sentir completo a sós é algo tão inexplicável e assusta alguns, é como se dessem de cara com um ET. Os rumos das relações neste Milênio assusta. Pego meus papéis, ligo minha música e fico aqui pensando. E não me incomoda pensar. Ainda que Fernando Pessoa tenha escrito que - pensar incomoda como andar à chuva -
Eu amo a chuva...
E amei este texto que fala sobre a Liberdade de Pensar:


"E agora existem forças que enaltecem o conceito de grupo e que declararam uma guerra de exterminação a essa preciosidade, a mente do homem. Através das mais variadas formas de pressão, repressão, culto, e outros métodos violentos de condicionamento, a mente livre tem sido perseguida, roubada, drogada, exterminada. E este é um rumo de suicídio colectivo que a nossa espécie parece ter tomado.
E é nisto que eu acredito: que a mente livre e criativa do homem individual é a coisa mais valiosa no mundo. E é por isto que eu estou disposto a lutar: pela liberdade da mente tomar qualquer direcção que queira, sem direcção. E é contra isto que eu vou lutar com todas as minhas forças: qualquer religião, qualquer governo que limite ou destrua o indivíduo. É isto que eu sou e é esta a minha causa. Posso até compreender que um sistema baseado num padrão tenha que destruir a mente livre, pois esta é a única coisa que pode inspeccionar e destruir um sistema deste tipo. Concerteza que compreendo, mas lutarei contra isso por forma a preservar a única coisa que nos separa das restantes espécies. Pois se a mente livre for morta, estaremos perdidos."



John Steinbeck, in 'A Leste do Paraíso'

Sobrou o cinema...



Quando eu era adolescente eu nunca assistia ao Oscar, por uma norma da casa a televisão era desligada às dez da noite. Sempre via o replay no sábado à tarde. Não tinha a mesma emoção de acompanhar a cerimônia ao vivo, mas, como sempre amei o Cinema, eu assistia e foi assim que o Oscar sempre fez parte da minha vida. Quando fui viver na minha própria casa, incorporei o ritual, ficar acordada madrugada adentro para conhecer os vencedores e viver ao vivo o desenrolar da festa. Ontem dormi no sofá, mas, tentei. Vi quase toda a cerimônia do Oscar, creio que só perdi a entrega do prêmio de melhor diretor e melhor ator. É certo que nada é perfeito e não dá para entender o prêmio de melhor canção. Mas, nós brasileiros somos mesmo especiais. Seguimos com esta constelação de ótimos músicos, samba, bossa-nova e nossos monstros sagrados. Não é um Oscar mal direcionado que vai apagar o brilho da nossa alma musical.
O cinema e sua magia ainda é uma das poucas nuances poéticas que tocam a nossa vida.
Está cada dia mais difícil tocar o âmago da Beleza, traduzi-la. Por isto todos se extasiam quando alguém atira diante dos olhos todo o nosso desejo personificado.

A flor dentro da árvore


“Dame el ocaso en una copa!”


Velhas estradas bifurcadas
Lentas aparições de fantoches
Nas alamedas do nada

Bárbara Lia
A flor dentro da árvore
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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A poesia em QRCode integrou o projeto da poeta Sandra Santos. Exposições de poesias em QRCode no Castelinho Alto Bronze e no Memorial do Rio Grande do Sul, dentro da 57ª Feira do Livro de Porto Alegre.
O livro - A flor dentro da árvore - publicação mais recente. Apresentação do livro AQUI

Thursday, February 23, 2012

Lope de Vega

Desmayarse, atreverse, estar furioso,
áspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde y animoso;

no hallar fuera del bien centro y reposo,
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satisfecho, ofendido, receloso;

huir el rostro al claro desengaño,
beber veneno por licor süave,
olvidar el provecho, amar el daño;

creer que un cielo en un infierno cabe,
dar la vida y el alma a un desengaño;
esto es amor, quien lo probó lo sabe.

Lope de Vega
Poeta e Dramaturgo Espanhol
(1562-1635)


Cena do filme - Lope - dirigido por Andrucha Waddington 

21 gramas

Há um número escondido em cada ato de vida, em cada aspecto do universo. Fractais, matéria... Há um numero gritando, tentando nos dizer algo. Os números são uma porta para entender um mistério que é maior do que nós, como duas pessoas, desconhecidas, acabam se encontrando. Há muitas coisas que tem que acontecer para que duas pessoas se encontrem. De qualquer forma, isso é que é a Matemática.

do filme 21 Gramas


Tuesday, February 21, 2012

Constelação de Ossos - Bárbara Lia








FÓSSEIS ROSAS PROFANADAS



O ar raspando o sangue seco da alma. Alma mutilada a minha. Sangue incrustado em suas paredes desde a infância, algumas feridas já cicatrizadas. Minha alma um painel de Pollock. Onde ainda não cicatrizara, a tinta escorria espessa. Por muitas noites eu não dormia. A cor que mais doía era o amarelo aflito, aquele amarelo gritante. Não sei se algum dia vai esgotar o amarelo de Van Gogh. Como se ele tivesse a chave secreta da desesperança, em forma de girassol. O meu interior borrado, sangrado de cores ardia ao vento, o pulmão ardia ao respirar lufadas de ar puro entre medo e delírio. Raul segue pela Estrada Graciosa, um caminho antigo calçado de pedras, onde abismos se abrem, onde um trem trafega, onde pássaros desnudam suas lágrimas. Quatro passos necessários para aprumar o esqueleto. As nuvens se ordenam atrás das bananeiras. Olho o bangalô e sinto uma ternura de gênesis. Projeto de éden, o recanto de Nyx. À entrada da varanda um tapete tecido em barbante azul cobalto. As pedras da entrada são claras, justapostas formam um desenho branco assimétrico.
A varanda pequena adornada de bebedouros ao redor onde um beija-flor pousa, beija a água adocicada e se vai. Uma rede da cor do trigo maduro. Raul bate na porta, três toques, a porta está entreaberta. Ela não está na casa, eu penso. Silenciosa como um anjo, pousa das alturas ao nosso lado.  Aparece do nada, com um avental verde e um vestido indiano marrom, à nossa esquerda. Primeira visão de Nyx: Olhos negros, pele queimada de sol, cabelos branqueados de lua.  Combina com a cena, com a manhã e o bangalô. Meu corpo ressente a tensão da viagem na garupa da moto de Raul, tiro a jaqueta de couro negra e deixo florir azul a minha blusa. Sopra uma brisa amena da serra e junto uma certeza de que foi excelente aquela idéia de Raul – viver um tempo ali, entre o verde e os pássaros. Senti isto quando desci da moto e pisei a trilha branca com aquela reverência de quem entra em um templo.  Digo olá à minha nova casa e à sua dona que lembra uma sacerdotisa hindu. Tudo evocava o jardim de seda:  Incenso de lavanda a espargir um perfume suave. A tessitura do tapete de barbante de algodão. Com esta imagem de templo zen adormeci. Acordei com uma réstia branca de sol entrando pela fenda da cortina.  Lembrei o sorriso de Raul ao despedir-se e das folhas que ele espalhou pela calçada de entrada quando saiu com sua moto. Eu, vendo o vôo ocre das folhas como lenços de saudade. Pensava na loucura – aceitar uma interrupção abrupta na minha vida para estar ali na casa branca pequena, incrustada na Serra do Mar.
Sei que Nyx medita.
Ouço o som de sua voz a entoar um mantra.
O lugar onde Raul me depusera era ideal para descansar, mas terapia da alma não estava em meus planos.
Estava cansada demais até mesmo para pensar em recomeço. Um fóssil eu era. Meu espírito calcificado jamais voltaria a ser uma rosa virgem em flor. Se uma gota de Deus pingasse em minha língua eu voltaria a florir? Mas, não sabia mais quem era Deus e quem eu houvera sido. O Tei Gi foi minha primeira visão ao sair do quarto.  O quadro diante de mim no pequeno corredor. Ao barulho da porta que se abre, Nyx cessa seu mantra e vem em minha direção.
– Bom dia, Lyn!
Sorrio sem forças para dizer nada. Ela me aceita. Integra-me à cena, como se eu vivesse aquela vida natural desde sempre. Cada célula minha reclama um cigarro.
– Vamos preparar o café?
Nyx me envolve e me abraça, ela anda lentamente e quando precisa fazer grandes caminhadas utiliza uma bengala. Suas mãos cálidas em meu ombro fazem as incertezas ruírem. Vai me dizendo, a caminho da cozinha, onde coloca suas vasilhas e seus mantimentos. Deve ser assim nos mosteiros, as tarefas divididas. Pela janela da cozinha vejo o beija-flor em um vôo eletrizado a bicar o hibisco rosado em uma ternura aveludada. A cor dele é cinza indefinível. Nos dias que se seguiriam eu veria beija-flores verdes, negros, rajados e até mesmo de um azul cobalto. Uma variedade de cores em seu balé de espasmos e as flores oferecendo-se brancas, lilases, vermelhas, como noivas tontas de felicidade oferecendo-se ao amado. Eu veria pássaros debandando na chuva, rasgando as águas em um nado singelo. Eu veria a lua flutuante em suas fases imutáveis, noite após noite diante do meu olhar, na varanda. Eu ouviria o murmúrio das águas deslizando pedras. Aquele era o primeiro dia, de carinho de Nyx e café meio ao verde pululante. Ela diz que me concederá um mimo. Que poderemos tomar café naquela manhã, mas, que ela sempre toma chá. Com o tempo, ela jura que eu não sentirei falta da cafeína, que amarei as ervas e os chás e meu corpo agradecerá por isto. Meu pensamento duvida. O café fica pronto rapidamente. Percebo os gestos calmos dela e tento imitá-la. Comer lentamente, sem pressa, o pão de centeio com a manteiga cremosa. Sentir o sabor. Tão diferente das minhas manhãs anteriores, que começavam ao meio-dia. Beber aquele pingado e comer um pão com manteiga na panificadora da esquina. O balcão de um azul desbotado. Eu equilibrando-me naquela banqueta onde não podia recostar-me. Recostei na suavidade da fina almofada fixa no encosto da cadeira na casa dela. Por um instante pensei nesta falta de cuidado que temos com nossas vidas. Nyx parecia ler meus pensamentos. Sabia que eu estava me sentindo segura. Não mais como quem se equilibra acima do nada. Acima do nada, sempre.
– O que te veio como primeiro pensamento nesta manhã?
Pensei em dizer que primeiro me veio o sol pela fresta da cortina. Depois, falar da falta que senti do cigarro. Mas, quando dei por mim eu já havia balbuciado como se a voz não fosse minha.
– Pensava se uma rosa calcinada pode voltar a ser pétala viva - Pétala e não pedra.
– Quando as chuvas alcançarem as raízes.


Bárbara Lia
Constelação de Ossos (Vidráguas / 2010)






Friday, February 17, 2012

same time, next year / one day





Uma agradável surpresa no Telecine Cult, noite passada. Há muito tempo vi - Tudo bem no ano que vem - o roteiro de Bernard Slade, na verdade uma Peça de Bernard Slade, o filme é de 1978, com Alan Alda e Ellen Burstyn. Quando pensava neste filme eu não conseguia recordar o título. Lembrava apenas da forte impressão que causou aquele enredo: Em 1951, em um hotel afastado, com chalés ao redor, um homem e uma mulher se hospedam. Uma dona de casa, que nunca se graduou em nada e um contador. No restaurante do hotel os dois se encontram na primeira noite. Ele está lá a trabalho, ainda faz a contabilidade do seu primeiro cliente e isto o leva aquele hotel na mesma data todo ano. Ela segue para um retiro, enquanto o marido e os filhos vão ao aniversário da sogra que a detesta. Por serem os dois únicos frequentadores do restaurante do hotel, se cumprimentam, conversam e este encontro vai engendrar uma história de amor surpreendente que os faz retornar por 26 anos, uma vez ao ano. A mudança do tempo é assinalada por sequências de imagens em preto e branco, as imagens dos acontecimentos no País situam o casal dentro do espaço/tempo. Por ser uma peça o filme lembra uma peça. O cenário é o chalé, com poucas cenas externas. Lá se desenvolve todo o enredo, com a performance dos dois é possível acompanhar o desenrolar da vida de ambos além do final de semana dos amantes. Eu era bem mais jovem quando vi o filme pela primeira vez, entendi que no enredo existia um desnudamento das relações humanas. Um casamento de nove anos e alguns amantes depois, o filme soa muito real, muito humano. Algumas escolhas estão acima do nosso sim ou do nosso não, se tivermos coerência com nosso interior, é claro. Um bálsamo assistir novamente ao filme, reconhecer-se em algumas cenas.
Buscando notícias do filme descobri que o filme - Um dia - com Anne Hathaway e Jim Sturgess repete - em alguns pontos - o enredo de same time, next year. Os dois se encontram durante vinte anos, o primeiro encontro em 1988. É uma versão moderna, o filme baseado no livro de David Nicholls. Não li o livro e ainda não vi o filme. Nada é tão simples. Não dá para dizer, bem, em 1951 uma mulher não deixava seu marido e os três filhos. O personagem de Alan Alda não deixaria a esposa e seus três filhos... Nestes tempos, parece estranho que duas pessoas que se amam não abram mão de outras hístórias para viverem lado a lado. Não li o livro, não vi o filme. Alguma razão ainda leva duas pessoas que se amam a viver em universos geográficos separados. Mas, as similaridades pedem que eu descubra como se desenrola o enredo de Um dia. algo me diz que é só mais uma comédia romântica (ou drama?) made in USA.

Tuesday, February 14, 2012

carta celeste em esperanto



O amor é uma carta celeste em Esperanto. Um céu que não se compreende. Constelações em desalinho. Temos diante dos olhos e diante dos dedos que apontam para esse céu que oprime, apenas códigos. É preciso embebedar-se de infinito, rasurar retina dissecando imagens, então, quiçá, replicar aquela cena do matemático Nash que tece figuras pelo céu segurando a mão da amada naquele filme "Mente Brilhante". Talvez o amor seja apenas Matemática, ou pura Gramática. Ou matéria desconhecida que ainda não chegou até aqui. O que sei do amor? O que o amor sabe de mim? As mulheres livres não convivem muito bem com as algemas do "amor". Esses códigos, jogos, submissões. Algumas mulheres preferem isso, seguir as regras. Empoar a individualidade para não ficar sem ter alguém ao lado. Existem lições para isso, muitos conselhos. Hoje estão pululando livros. Eu os desprezo. Livros que enganam, tantos que sobem ao topo das listas dos mais vendidos. A vida? Devo dizer o que é a vida. É alcançar o objeto do seu supremo desejo e calar. Esconder nas entrelinhas da tua carne a hora gloriosa. Não. A regra é não. O sim está na moda. Tão Facebook, tão ciranda de fitas. Asfixiaram o amor com o politicamente correto. E o amor não é esta falta de senso. O amor é o centro. O atirar-se sem redes. É  doçura de doer sem dor.  O mundo me apavora. Jogo o anzol da memória e colho os amores que assisti ao vivo. Nenhum com o roteiro igual ao outro. Cada caminho tem uma cor, um cheiro, um lugar, um som. Cada pessoa tem seu próprio código e para dar de cara com isso  é preciso atingir o ápice do - humano. Basta ser. Mas, vão continuar semeando corações vermelhos e fitas lilases, frases feitas, livros com a palavra - felicidade. E do que sei desse tipo de amor humano é que ele é uma luz, fagulha que despedaça, estilhaça seu coração em uma constelação invisível que vai ficar eterna em um céu (que tu conheces) e recuperas um dia, uma hora. Nada a dizer, para saber esse momento, há que viver. Talvez por isso as mulheres fortes, as mulheres que eu admiro morreram sozinhas, a grande maioria. Elas que possuíam a  força entranhada de mil estrelas em suas almas e a coragem de ir em busca da sua carta celeste pessoal. Para dizer, esta é a minha estrela, minha constelação, nebulosa de fogo, minha cama na Via Láctea... Tenho asas.

**

II






Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu


Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.

Hilda Hilst




**

 
 
O amor é uma sombra.
Como você chora e mente por ele.
Ouça: estes são seus cascos: fugiram, como cavalos.
Sylvia Plath
 

**


"Conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?"

Ana Cristina Cesar

**


Que mal amor es sus labios
El infierno es este cielo


Lila Downs
**

O que eu poderia fazer sem o absurdo e sem o efêmero?

Frida Kahlo
**


Quando é que o amor acaba? Se você disse que se encontraria com alguém às 7 horas e chega às 9, e ele ainda não chamou a polícia, o amor acabou mesmo.


Marlene Dietrich



**


Tão logo essa palavra ''amor'' lhe ocorreu, ela a rejeitou.

Virginia Woolf

**

Nem tudo precisa ser revelado.
Todo mundo deve cultivar um jardim secreto.

Lou Salomé


**


 

'Ninguém canta com tanta pureza como os que estão no mais profundo inferno; seu canto é o que acreditamos o canto dos anjos'
Franz Kafka, em carta a Milena Jesenská


**

Sáfaras noites bárbaras!
fosse eu por ti
vi'king's - cenário e fúria
nossa luxúria!

Correr coxias
Donne's - compassos -
porto in'seguro
e cuor ingrato!
De um bote ao éden
THALASSA! THALASSA!
possa essa noite ricochetear
maremotos!

Emily Dickinson
trad. Maria do Carmo Ferreira

Sunday, February 12, 2012

Valentine's Day V

Fernando Lemos: Hilda Hilst




Vida da minha alma:
Um dia nossas sombras
Serão lagos, águas
Beirando antiqüíssimos telhados.
De argila e luz
Fosforescentes, magos,
Um tempo no depois
Seremos um só corpo adolescente.
Eu estarei em ti
Transfixiada. Em mim
Teu corpo. Duas almas
Nômades, perenes
Texturadas de mútua sedução.
(LXVII)

Hilda Hilst(Cantares de Perda e Predileção -1983)


Para comemorar o 14 de fevereiro  - Valentine's Day - pensei em várias postagens, mergulho em amores e poetas. Acabei raptada pelo livro que escrevo e ficou este registro pequeno. Dois filmes, a frase de Anaïs Nin. Um soneto que escrevi vestindo a pele de Neera, uma das musas de Ricardo Reis. Melhor ler os livros de Henry Miller e Anaïs Nin. Passar meses lendo Fernando Pessoa, como fiz ano passado. Melhor ler a obra de Hilda Hilst. Ficamos replicando gigantes e é preciso que os poetas vertam sua tinta interior. Narrem seu tempo e seus amores. Importa é registrar a vida, esta que escorre liquida. Hoje li a segunda parte das memórias de Ana Lúcia Vasconcelos do tempo que ela conviveu com Hilda Hilst, está no site Musa Rara:



Recolhendo similaridades - Hilda só fazia o que queria. Vivia apaixonadamente, não importava se a paixão era por um homem, ou uma idéia. Muitos estranharam quando Hilda publicou seus escritos eróticos. A escrita passa pela vida, por ela inteira, e o erotismo é parte da vida, não é possível separar corpo e alma. Somos uma entidade interligada e matar algo em nós no corpo ou na alma, acaba por matar corpo e alma. A arte diviniza o corpo. Pornografia é a ausência da Arte, o despir a alma e focar apenas na matéria/carne. Hilda colocava em tudo sua alma e sua obra, ainda que considerada pornográfica, era apenas o lado erótico, o desejo. O desejo que ela cantava sem pudores, este que é proibido. Principalmente em boca de mulheres, este que - já no terceiro milênio - a humanidade ainda estranha. Ainda assim, só conhece Hilda Hilst quem penetrou a densidade de luz de seus poemas.

Saturday, February 11, 2012

Valentine's Day IV




Hoje à noite eu o amo pelo modo adorável como ele me deu a Terra.
Anaïs Nin

Friday, February 10, 2012

Valentine's Day III

fragatas no Tejo




Aqui, Neera, longe
De homens e de cidades,
Por ninguém nos tolher
O passo, nem vedarem
A nossa vista as casas,
Podemos crer-nos livres.

Bem sei, é flava, que inda
Nos tolhe a vida o corpo,
E não temos a mão
Onde temos a alma;
Bem sei que mesmo aqui
Se nos gasta esta carne
Que os deuses concederam
Ao estado antes de Averno.

Mas aqui não nos prendem
Mais coisas do que a vida,
Mãos alheias não tomam
Do nosso braço, ou passos
Humanos se atravessam
Pelo nosso caminho.

Não nos sentimos presos
Senão com pensarmos nisso,
Por isso não pensemos
E deixemo-nos crer
Na inteira liberdade
Que é a ilusão que agora
Nos torna iguais dos deuses.
Ricardo Reis - Odes De Ricardo Reis

 
 
Usando a liberdade poética, pensei que - ao morrer Fernando Pessoa - com ele morreram todos seus heterônimos, criei alguns versos e um diálogo dos personagens dos poemas com o seu criador, em uma despedida, um adeus. Neste soneto que segue, Neera se despede de Ricardo Reis, emprestei o título do livro de Saramago para o poema... Um tributo aos amores inventados, alguns mais reais que os reais.
 
 
 
 
O ano da morte de Ricardo Reis



Não cante o desprezo aos deuses, Ricardo
Não colha as flores mortas ao lado do Tejo
Os fardos humanos são apenas isto – Fardos
E os beijos sensuais são apenas isto – Beijos

Sou toda verão na alcova, acesa, à tua espera
Estonteante mulher que levas a ver as flores
Enquanto os pássaros trinam alto – Neera!
Nada nos falta, mas, em ti brotam mil dores

Quando a morte te buscar, aquela que conheces
Voltarei aos prados colhendo as flores vivas
Tocarei a pele do planeta murmurando preces

Banquetearei na relva, as flores como convivas
Dói, Ricardo, saber que todos os campos serão meus
Ainda orvalhados de lágrimas dos belos olhos teus

 
Bárbara Lia
in Fotogramas em flor de algodão (livro em construção)

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