Tuesday, August 20, 2013

Crônica da poeta triste _ Bárbara Lia




Quando envelhecemos o cérebro vira um laboratório fotográfico que edita cenas. Um funcionário disléxico que embaralha tudo que aconteceu em nossas vidas em um mosaico lírico. O silêncio de uma manhã ao lado da mãe, o aroma do café e o canto dos pássaros misturam-se a uma noite de medo perdida na grande cidade apressando o passo em um reduto perigoso, temendo o assédio. Um encontro lascivo em segredo _ arrepiante metáfora do paraíso _ um corpo que estremece e te suga para um beijo rascante é substituído pelo olhar de escárnio de alguém maldito que colocou em tua alma a dúvida com a força do mal a avalizar a fala: _ Nunca serás querida!

O filme surreal passa noite e dia e só te livras dele quando sonhas. E os sonhos são vagos, em dialetos antigos, ou, pessoas sem voz a te revelar os segredos miseráveis que não vão alterar a rota do universo. Os cenários trepidam em ondas altas diante dos olhos: O quintal da infância, farfalhar de cores, a risada do pai, o rito das crianças, latidos e sinos. 
Clarice canta um hino cristalino de humanidade contemplando uma barata no armário.
Kafka olha seu corpo com asco vendo-se outro. Desvio de Kafka para não pisar a capa gosmenta e piso longe ferindo a sola e desejo abandonar este palco e as asas da cucaracha gosmenta. 
O cinematógrafo de Dali escancarado diante da retina. 
Amanheço em dilúvio surreal: Agora tenho trinta e seis anos, deixei meu marido, mãe e pai morreram, perdi um big emprego e estou diante da doutora psicanalista e a ela juro que tomei os florais e que li os livros do Deepak Chopra, sem saber como confessar que sou imune à felicidade instantânea e a tudo que cheira placebo. Nada engana minha alma e decido beber a dor sem adoçar, atravessar todos os desertos, ancorar em algum lugar. Em algum lugar _ que eu nem sabia ainda _ o lugar se chamava Poesia. Gueixa que me atrai _ A poesia. Ela me lambe, excita e me deixa de novo a sós: Mil pregos no corpo e uma chuva de palavras ásperas, ladainha de escárnio caindo sobre minha nudez. Altera a cena, progride o cinematógrafo e agora tudo está mais simples. O tempo espanta o desejo e não terei mais os caçadores da minha carne, quiçá seja sempre este andar na manhã calada, ao lado do neto, ouvindo o canto de um bem-te-vi. 
O paraíso não é aqui. No mundo tudo está  contaminado. A Beleza sempre relegada. Quem sabe no escaninho dos tristes eu encontre o salmo de redenção. No lugar dos loucos toda a poesia. Quem sabe em uma cidade de cegos eu possa ver a luz e quem sabe tudo evapore repentinamente e eu volte ao pó. Brilhar entre a grama de um campo santo feito poeira radioativa. Fogo sobre o chão. Vou queimar dentro alma coração espírito. Não creio em céu, no máximo vou morar na luz de um candelabro torto na casa triste de um homem que sorri sempre com os olhos e alma e não se cansa de molhar as flores e não se cansa de cantar aquela ópera que faz arrepiar a alma dos carrascos. Existe um lugar onde a humanidade estanca: O olhar humano do homem que não esqueço. Meu segredo-mor. A voz do neto a me chamar sem cessar apontando a descoberta do mundo. O lábio do filho que pousa manhã após manhã na minha testa. A cumplicidade das meninas minhas que agora são mulheres _ Pequenas “Bárbaras” de auras maravilhosas... E aquela estrela atrás da porta a lembrar da estrada torta de todos os poetas. 

Bárbara Lia / 2013

Sunday, August 18, 2013

"Saber não ser é raro"


Canto VI

41

Quem é que, com o belo sol da tarde,
gasta os minutos a amaldiçoar
vidas alheias? Ninguém desperdiça assim
uma energia tão simpática e elevada.
Se o dia, como um disco avariado,
nunca avançasse para além do meio-dia
mantendo-se o sol calmo, quente e alto,
não haveria no mundo um único sintoma
de vingança.

Gonçalo M. Tavares
Uma viagem à Índia
ed. Leya _ página 258





Fito-me frente a frente,
 
Conheço que 
estou louco. 

Não me sinto doente. 

Fito-me frente a frente.

Evoco a minha vida. 

Fantasma, quem és tu ? 

Uma coisa erguida. 

Uma força traída.

Neste momento claro, Abdique a alma bem ! 

Saber não ser é raro. 

Quero ser raro e claro. 


Fernando Pessoa



"Saber não ser é raro" /
Isto lembra aquele poema de Emily Dickinson: Não sou ninguém. Quem é você? Ninguém também... 
O que traz esta fala é ter ficado dois dias ao lado de um encanto chamado _ Gonçalo Tavares _ e ele sabe + não ser + Ontem quando o Flávio Stein leu a biografia dele antes da sua fala ao público, eu fiquei arrepiada. Então este pequeno mito - que conseguiu alcançar de forma acelerada o mundo com seus pensamentos e seus livros - é aquele mesmo ser incrível a falar naquela pequena sala como se fosse um professor de uma aldeia pequena perdida em um mundo perfeito? Somos vinte privilegiados... Colhemos palavras de um poeta e do seu riquíssimo arsenal recebemos alguma armas para as guerras da vida. A lição do Gonçalo é a atadura final que coloco em feridas que nunca cicatrizavam. E o que ele disse no primeiro dia daquela oficina a última gota balsâmica dentro. Vou levar isso, esta certeza de que nossa intuição nos leva para onde precisamos ir. Eu, que raramente inscrevo-me em oficinas, sempre sigo este fio que me puxa para algumas raras, de tempos em tempos. E esta chegou no momento certo para sublimar decisões que tomei e ao ouvi-lo na primeira manhã eu me senti leve, livre... Uma jovem menina que começa a trilhar seus passos em poesia disse com naturalidade, como se aquilo fosse possível: Vamos sequestrar o Gonçalo e não deixar ele ir embora nunca mais. Ficamos tramando uma forma, em tom de brincadeira. Era só nosso jeito de dizer: Bem, estas coisas deveriam permanecer. Os autores humanos, mais que humanos, derramam estas falas que acrescentam e não diluem na primeira esquina depois que você sai de uma palestra. E vou para nosso último dia de oficina com a certeza de que vou sentir como quem vê ir embora alguém que não é daqui, nem familiar, nem melhor amigo confidente, nem nada em termos de coisas passionais. É esta espécie de ser iluminado, que para alguns pode ser aqueles monges que dizem máximas e depois se calam e o universo todo se alinha como se as pragas fossem varridas. Vou sentir isto, este adeus lento de um poeta em carne viva. Sua identidade tem os traços fortes da metafísica de seus livros. E ele vai, como Bloom em seu livro, para um outro lugar, nesta epopeia... E espero reencontrar em algum dia, para beber um pouco mais da água/palavra, esta que ele derrama, como um pastor sublime. A maior beleza é encontrar um consagradíssimo escritor e ver o quanto ele foi grandioso ao raspar toda a petulância e arrogância que se encontra em todo canto. Ele que é _ Ele _ e não se preocupa com nada além daquilo que ele disse ao público: Receber a maçã de ouro de seus ancestrais, e deixar a sua maçã em algum lugar, em uma estrada, para que os que vierem depois saibam o caminho.

Monday, August 12, 2013

Insônia



Insônia


Este é o século da nossa insônia
Mentes plugadas em telas isonômicas

Longe dos mitos e da cosmogonia
Dopados de “soma” e monotonia

Este é o século lavado à amônia
Escravos cardíacos da luz de néon
Escravos maníacos dos mantras
Escravos agônicos do abutre Mamon

E havia esperança no pássaro
Havia luz nas colmeias tardias
Havia ar nas barricadas de Paris
E havia armar-te. Havia amar-te... Havia.

Bárbara Lia/2013


Imagem _ Edward Hopper

Friday, August 09, 2013

Livros


Ainda não aprendi a pensar em livros _sob demanda_ e quando alguém pergunta onde comprar um livro de poesia meu, eu sempre indico a Livraria Cultura, onde é possível encontrar _O sal das rosas, editado pela Lumme/2007. É possível, sim, comprar outro livro meu, é que ainda não aprendi a pensar nesta expansão. Basta encomendar _A flor dentro da árvore. E são estes dois. As edições de Poesia sempre com tiragem pequena esgotam com facilidade. Pensei em publicar isto e fico adiando. No blog do poeta Cássio Amaral tem um belo texto sobre o livro. É um livro delicado, que eu gosto imensamente. Ele tem 40 páginas e apresentação do poeta Sidnei Schneider. Quem desejar saber mais, deixar recado aqui, ou enviar um e-mail para barbaralia@gmail.com. O romance Constelação de Ossos está na Livraria Cultura, idem. E diretamente com a Editora Vidráguas. Finalmente, aquele livro que chegou com aquela aura leve e bonita da infância e me deixou muito feliz, com a acolhida que teve e com a resposta dos leitores. Paraísos de Pedra incorporou o mistério da Ninfa, a esperança da criança que eu fui e a força da mulher que sou. Estou MUITO feliz. Este livro que foi lançado única e exclusivamente em Curitiba pode ser encontrado no site da Editora Penalux. A Poesia segue, os romances à espera de editor. Tem sempre aquela vontade de não tentar os concursos e quando a gente queda à esta possibilidade, fica meses, quase o ano inteiro à espera de um resultado. C'est la vie. Ano que vem tem mais...


*Sobre _ A flor dentro da árvore:

http://cassioamaral.blogspot.com.br/2013/02/a-poesia-e-cerne-palavra-e-barbara.html 
http://www.musarara.com.br/a-flor-dentro-da-arvore
http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=5607

Sobre _ O sal das rosas:
http://www.saldaterraluzdomundo.net/Livros_Lan%C3%A7amentos_sal_das_rosas.htm


Sobre Constelação de Ossos:
http://paliavana4.blogspot.com.br/2011/01/12.html




Thursday, August 08, 2013

Agosto





Agosto


“Como aqueles primitivos que carregam consigo o maxilar inferior dos seus mortos, eu te carrego comigo, tarde de maio”
Carlos Drummond de Andrade


A mim restou este Agosto
Loucos gritos roucos
Ruínas sem rima
Versos apócrifos em esperanto

A mim este calcanhar de vidro
Telhado de Aquiles
Chão incerto de tombadilho

Pedra. Pedra. Pedra.
No começo do caminho
No meio do caminho
No fim do caminho

Ar puro agosto
Rosário de escombros
A tudo transformei
Em maios deslumbrantes


Bárbara Lia
/2013
Imagem _ Monica Cook

Tuesday, August 06, 2013

Calendário poético 2013




No link acima, os artistas e poetas que participarão da Bienal Internacional de Curitiba _ de 31 de agosto a 1° de dezembro... Muito feliz por integrar este momento _ Pura Arte. 






Setembro, abrindo as portas para a Primavera:
Tempo de andar ao lado desta lenda. Acordar com a canção imortal da chama infinita que é Vinícius de Moraes. Então me pedem _ que eu leia nossos poemas. Que eu seja uma das mulheres a cantar sua Poesia. E fico com estas mãos sem saber qual pétala, qual poesia? O que dizer deste monstro sagrado que me visitou ainda menina, com uma flor... E embalou as serestas e os vinte anos, e a maturidade e toda a vida. Estava lá a tríade _ Chico, Tom, Vinícius. Está lá ainda, vai estar para sempre. E que felicidade ser mulher neste tempo e caminhar nas notas destes gênios. Por obra da minha irmã caçula eu encontrei Chico e quando ele se despedia e saia para o seu show eu disse _ Obrigada, pela maravilhosa trilha sonora que você trouxe para a minha vida. Ele estava saindo apressado e parou um segundo e se voltou e me olhou, com olhar inquieto. Eu que tenho o dom de inquietar os corações masculinos. Ele ensaiou um sorriso e continuou, apressado. E nada mais pode ser dito, nada deve ser. Somos abençoadas por ter estes homens que cantaram o amor e a mulher com a sensibilidade necessária. Que entenderam nossos corações astutos, que conseguiram segurar em suas mãos a chama imprecisa que é ser mulher latina, esta luz morena, esta coragem nascida das entranhas da terra mais bonita. E fico assim, sem saber como começar a separar alguns versos, alguma poesia, o que Vinícius gostaria de dizer agora. O que ele diria para as musas das araucárias, que frase ele atiraria para estas meninas que caminham pela Rua XV, pelos bosques, estas novas guerreira, estas que não tem medo do mundo, que aprenderam a tirar leite das pedras, que hastearam sua bandeira de liberdade bonita. Esta liberdade que é ao mesmo tempo uma partilha e que faria Vinícius curvar-se ao encanto, ele que era assim, este gentleman, este amante, este querido parceiro que atravessou a vida como se ela fosse um canto. Escolherei poemas de amor e poemas que falem sobre a guerra, pois nada continua mais estúpida e inválida que a bomba... Nada mais eterno que o amor. 
Qualquer hora coloco aqui a notícia completa sobre esta leitura poética que vai me unir em beleza com este grande poeta...







Dois poemas meus integram este: "Ousado projeto, grandioso, como compete a quem empunha a pena do "Luís de Ouro" ( Carlos Drummond de Andrade), "Camões, grande Camões" (Manoel du Bocage) e quer dizer ao mundo as novas armas e os novos varões assinalados que da ocidental praia lusitana; da americana praia brasileira; das africanas praias guineenses; cabo-verdianas, são-tomé-e-principenses, angolanas e moçambicanas; das indianas praias goenses; das chinesas praias macauenses; e das oceânicas praias timorenses; por mares, ares, sites navegados à exaustão, passaram ainda "além da mágoa" e "em esforços e guerras" — com a palavra — "conquistaram" novas formas de expressão." fragmento do prefácio de _Paulo Seben _ Lançamento em Curitiba no início de novembro. 

Sunday, August 04, 2013

las palabras no hacen el amor hacen la ausencia...





Fragmento del poema "En esta noche, en este mundo" de Alejandra Pizarnik,
interpretado en una escena de "El lado oscuro del corazón 2" de Eliseo Subiela,
Argentina, 2001.



En esta noche, en este mundo


A Martha Isabel Moia


I

en esta noche en este mundo
las palabras del sueño de la infancia de la muerte
nunca es eso lo que uno quiere decir
la lengua natal castra
la lengua es un órgano de conocimiento
del fracaso de todo poema
castrado por su propia lengua
que es el órgano de la re-creación
del re-conocimiento
pero no el de la resurrección
de algo a modo de negación
de mi horizonte de maldoror con su perro
y nada es promesa
entre lo decible
que equivale a mentir
(todo lo que se puede decir es mentira)
el resto es silencio
sólo que el silencio no existe


II

no
las palabras
no hacen el amor
hacen la ausencia
si digo agua ¿beberé?
si digo pan ¿comeré?


III

en esta noche en este mundo
extraordinario silencio el de esta noche
lo que pasa con el alma es que no se ve
lo que pasa con la mente es que no se ve
lo que pasa con el espíritu es que no se ve
¿de dónde viene esta conspiración de invisibilidades?
ninguna palabra es visible

sombras
recintos viscosos donde se oculta
la piedra de la locura
corredores negros
los he recorrido todos
¡oh quédate un poco más entre nosotros!

mi persona está herida
mi primera persona del singular

escribo como quien con un cuchillo alzado en la oscuridad
escribo como estoy diciendo
la sinceridad absoluta continuaría siendo lo imposible
¡oh quédate un poco más entre nosotros!


IV

los deterioros de las palabras
deshabitando el palacio del lenguaje
el conocimiento entre las piernas
¿qué hiciste del don del sexo?
oh mis muertos
me los comí me atraganté
no puedo más de no poder más
palabras embozadas
todo se desliza
hacia la negra licuefacción


V

y el perro de maldoror
en esta noche en este mundo
donde todo es posible
salvo
el poema


VI

hablo en fácil hablo en difícil
sabiendo que no se trata de eso
siempre no se trata de eso
oh ayúdame a escribir el poema más prescindible
               el que no sirva ni para
               ser inservible
ayúdame a escribir palabras
en esta noche en este mundo

                                                              8 de octubre de 1971



ALEJANDRA PIZARNIK  //  De: Textos de sombra y últimos poemas





Monday, July 29, 2013

Paraísos de Pedra

Família!

Priscilla Fernandes 


João Debs _ O fotógrafo da Ninfa da Praça Osório _ belíssima capa do livro

     abaixo: com o poeta Rafael Valter



autógrafos
Márcio Claudino, presença amiga _ sempre.




"Paraísos" também traz os mais amados amigos que há tempo não via
_Ana Marcelle_ esta flor de Belém.


Nildete Costa _ Peabiruenses em tarde de "Paraísos"


                                         Fran Ferreira e Álvaro Posselt _ presença da Poesia



Muito obrigada a todos que foram ao Paço da Liberdade. Foi uma tarde bela de reencontros e alegria. Obrigada aos amigos que escreveram, e estiveram ao lado, ainda que não fisicamente. Grata ao Tonho Franca Franca e Wilson Gorj por abrir as portas da editora a este projeto delicado, que é o resgate de um tempo e de uma cidade. Obrigada aos responsáveis pelo Espaço SESC Paço da Liberdade por acolher este momento em um lugar de levezas qual as tardes da infância. Grata aos primos e primas que vieram. Aos autores Penalux Michelle Puppo e Thomas Brenner. E aos amigos que não estão aqui nestas fotografias.
O livro, agora, apenas no site da Editora Penalux.
O link ao lado.


Monday, July 22, 2013

Um mundo mágico ao redor da casa _ Marleth Silva para o Caderno G da Gazeta do Povo

Foto _ Daniel Castellano (Caderno G _ Gazeta do Povo)


Um mundo mágico ao redor da casa

Depois dos romances e da poesia, Bárbara Lia se arrisca nos contos para falar da infância no interior do Paraná

Matéria de Marleth Silva para a coluna _ Livros _ Cadeno G _ Gazeta do Povo, uma visão da jornalista do meu livro Paraísos de Pedra, que evoca memórias da infância na cidade de Peabiru, Norte do Paraná. Alguns contos do livro tem como cenário Curitiba. Por isto: Paraísos. As duas cidades como palco desta primeira publicação de narrativas curtas. 
Link para a matéria: clicar aqui



foto _ Kátia Torres Negrisoli

Tuesday, July 16, 2013

Convite para o Lançamento de _ Paraísos de Pedra _ Bárbara Lia (Editora Penalux) _ Contos





Paraísos de Pedra
Bárbara Lia
Editora Penalux _ 2013
Selo Castiçal
Contos Brasileiros
110 Páginas
Capa e Diagramação _ Ricardo A. O. Paixão
Imagem da Capa _ A Ninfa da Praça Osório, do repórter fotográfico João Debs
Revisão _ Priscilla Fernandes
ISBN _ 978-85-66266-34-3

Para adquirir o livro, quem não puder comparecer ao lançamento em Curitiba:
http://www.editorapenalux.com.br/




Paraísos de Pedra traz narrativas da Infância da autora na cidade de Peabiru e contos que utilizam como cenário a cidade de Curitiba: Memória e Invenção.
“Paradiso” trafega por locais curitibanos: A Feira de Artesanato do Largo da Ordem, o chafariz – A fonte da memória – do escultor curitibano Ricardo Tod que evoca os tropeiros que vinham a Curitiba para comercializar seus produtos transportados por carroças e mulas. Naquela época os animais utilizavam o pequeno bebedouro - ainda existente - no Largo da Ordem. O bar Sal Grosso - reduto de poetas e artistas. O Café Express e a Confeitaria das Famílias. O Mercado das Flores, a Rua XV...
“Cinema Paradiso” utiliza títulos de filmes para narrar uma infância mágica vivida em Peabiru. Alguns garotos da cidade a denominaram – Parisbiru. Uma cidade que tem o poder de cravar dentro da alma dos que ali viveram uma indescritível nostalgia que faz com que o pensamento sempre retorne para suas ruas marrons, para sua praça pequena e para os detalhes que fazem desta cidade uma espécie de paraíso perdido.

Os contos da maturidade tem a urgência de dizer: A vida escoa. Os da infância perdem-se em relatos da memória, longos como os dias em Peabiru. O sol ao lado, sempre.

Friday, July 12, 2013

Cenário Aroma de Anis



Kátia Torres Negrisoli vive em Adamantina. Nossas trocas poéticas sempre pelo mundo virtual ou via Correios deu um salto para este encontro em Curitiba. No cenário de um dos contos do meu novo livro _ Paraísos de Pedra _ O Café Express. Noite gélida e encontro para derreter a distância. Minha amiga de Adamantina é mesmo uma querida. Nosso encontro foi no cenário de um dos contos. Um conto antigo que reescrevi _ Aroma de Anis. Ali diante da Praça Santos Andrade. Em um café aconchegante. Bela noite poética. Valeu, Kátia.
***


fragmento de Aroma de Anis, Paraísos de Pedra _ Editora Penalux:


(...)

Em algum lugar Lá dança espalhando estrelas azuis.
Lá aonde eu nunca mais irei acalmá-la recostando no meu peito estraçalhado de amor sua cabecinha atordoada, enquanto ela repetia até adormecer:

Dói viver, dói viver, dói viver, dói viver...

Lá dizia que o gosto do céu é menta com chocolate.
Inverno de quase neve na cidade gélida, nossas bicicletas encostadas em algum lugar à nossa espera enquanto o sorvete derretia em nossas bocas ela repetia...

Céu! Este é o gosto céu: Menta com chocolate.

Em todos os invernos provarei o gosto do céu olhando o voo das pombas sentindo o aroma de anis de seus cabelos espalhados.
E um sopro suave à saída do Café Express me trará esta certeza: dela ao meu lado espalhando anis no ar com a ternura dos naufragados.

Bárbara Lia


Prédio da UFPR e ao lado fica a Praça Santos Andrade. Fotografia da Kátia. A que estamos juntas, pedimos para um moço bonito que estava no café tirar. Bela noite. Poesia de sabores e risos. ENCONTRO.


Thursday, July 11, 2013

Saturday, July 06, 2013

Shame

  _ Cena de Shame - Direção Steve McQueen  - Michael Fassbender e Carey Mulligan _



Respira fundo. Respira e entra no filme... Li algumas críticas. A sinopse nem ao menos toca no assunto _ incesto. Ninguém afirma, alguns dizem que existe uma insinuação de incesto e que o filme é sobre um cara viciado em sexo que não consegue ter uma namorada (no caso, uma colega de trabalho) e só faz sexo com prostitutas. Para mim soou mais nítido. Da primeira à última cena as reações dele à tudo que envolve sua irmã traz aquela sutil presença do amor homem / mulher. O silêncio, o desejo de não ouvir o que ela diz. E cena a cena ele vai revelando o que está em um lugar oculto, muito oculto. A interpretação dos dois atores é magnífica. Em alguns momentos do filme dá a impressão que algo já aconteceu entre eles. E que este momento criou aquela densidade e aquela tensão quando os irmãos se encontram. São conjecturas. O filme é sensacional por tocar em temas tão delicados e conseguir atravessar sem resvalar em nada pequeno. É sempre aquela tensão interior. Ele não diz a ninguém. Ele nem revela ao seu chefe que ele é o cara que baixa aqueles vídeos, ele não assume quando o chefe diz _ algum estagiário mexeu no teu computador... Os dois estão perdidos, isto é nítido. E não conseguem amparar-se por estarem a um milímetro do território proibido. E ver Shame no silêncio de uma tarde, com o sol agressivo depois de tantos dias cinzentos, dói mais. 
Prêmios são mesmo uma lástima. Em qualquer área. Não ter uma indicação ao Oscar, ao menos uma, mostra como é politicamente correta esta droga de Academia de Cinema. E daí se o assunto é incesto, e daí se o cara é viciado em sexo, e daí se ele anda nu metade do filme, se aquela menina linda consegue aparecer qual sua personagem, frágil, de cabelos descoloridos, pálida, a ponto de demorar um tempo para que eu percebesse que o filme era com ela.
Sim, eu sou desligada. Li sobre o filme e pensei em ir em busca dele. Mas, esqueci. Do nada, na casa da minha filha decido procurar filmes na tal Netflix e encontro o filme que invadiu a tarde de sexta-feira com um balde de água de beleza. Que bom saber que ainda fazem filmes como este. Que bom que existem diretores que não entram na linha politicamente correta, e ousam. Eles ficam sem os prêmios, e a Arte fica com a Beleza. E o que importa mais?
Premiam à exaustão filmes que falam de terrorismo. Isto sim é obsceno. A vida em si, o que somos nós como pessoas, as nuances da alma que a gente não compreende. Estas armadilhas na qual alguns caem e ficam sem saída. Tudo isto é humano. E não devia ofender mais que as guerras.
O filme não quer traçar nenhum caminho, provar nada, dar resposta. Mesmo o enredo. Não existem lições. E esta parte da vida é a mais rica. Para mim que não suporto mais tantas lições e tantas coisas tão redondinhas quadradinhas encaixadinhas buriladinhas. Para mim foi uma espécie de redenção...
Ponto para esta atriz que segue com uma surpreendente coragem. Para ela cai bem estes papéis de mulheres que são amadas mas não ficam com seus amores. Foi assim em _ Never Let me Go _ quando ela contracenou com Andrew Garfield. Foi também em _ Drive _ com Ryan Gosling, outro filme impactante, sem retoques, realidade crua lavada em humanidade. Foi em An Educacion que apresentou Carey ao mundo. Acho que ela tem um olhar de quem perdeu o amor. Tem lá dentro aquela tristeza embotada, uma mágoa que brilha, como se ela cobrasse do mundo o que lhe é devido. Ainda que não consiga. Ela cobra, encerra a dor na alma e depois dá aquele sorriso quase infantil. É uma estrela sem medo. Que escolhe estes papéis longe de estereótipos.
Este filme é de 2011. Eu sou aquela que vai narrando o que vê. E não ser crítica de cinema dá esta liberdade, não preciso estar em dia com a programação, apenas com tudo aquilo que lê e vê o meu coração.




Wednesday, July 03, 2013

La belle personne

Louis Garrel _ Cena de "La Belle Personne" de Christophe Honoré





"O poeta escreve sobre oceanos que não conhece". Disse Neruda. Chico escreveu Budapeste antes de conhecer Budapeste. Ouvi - um dia desses - Adriana Lisboa dizer que foi a Hanói pelo desejo de conhecer, e que já havia escrito o livro. Escrevo uma história e uma personagem puxa o fio até Paris. E senti uma vontade enorme de recriar poeticamente um homem francês assim, tipo Louis Garrel. Não aquele de "Os sonhadores", aquele de "La belle personne". Aquele homem apaixonado, angustiado, que se senta na escada diante do prédio da amada e fica à espera. Nem sabe que ela já deixou a cidade e atravessa o mar em uma barca, a espiar este distanciar de um lugar. Melhor que morrer é afastar-se da morte. E o amor é uma morte, lenta. É esta agonia que não cabe dentro da pequenez do ser. Quem tem juízo não vende a vida para ter alguém ao lado. Preferem eternizar algumas horas, estas que se transformam  território de moradia, casa aberta para sua visita. Viver duas ou três horas com quem se ama (em plenitude) e voltar ao banal é como manter o graal e saber que ele existe. E Louis Garrel é essa materialização do intocado. Paris, idem. A menina que criou vida em um texto meu. Reunir tudo isto vai demorar um pouco, vai me tirar do centro das coisas, deste mundo virtual onde não sei trafegar, eu confesso. Quem dera fazer as malas, desembarcar em Paris e sentar-me em um daqueles Cafés e ter esta mordomia que muitos tem, de deslocar-se fisicamente para o locais sobre os quais querem escrever. Eu não sei se isso traria um adendo. Chico e Adriana e suas falas chegam como uma brisa acolhedora para comprovar que posso criar um homem francês. Com carisma e paixão, qual o professor do filme "La belle personne", apaixonado por uma bela mulher que ele vai seguir pelas ruas, pelos corredores do colégio, pelos cafés, nadando na neblina de uma cidade fria, abduzido por ela, por ela que é daquele time de mulheres que saem de cena antes que esfume o encanto, estas que nunca ficam para recolher os estilhaço da beleza. As que deixam a beleza intacta. La belle personne.

Wednesday, June 26, 2013

Paraísos de Pedra _ lançamento dia 27 de Julho




A partir do dia 02 de Julho à venda no site da Editora Penalux.
Para quem está em Curitiba, tarde de autógrafos dia 27 de Julho.

Tuesday, June 25, 2013

fragmento de: A noite dos vivos _ Bárbara Lia



foto: Ricardo Pozzo (poeta, organizador do evento Vox Urbe _ Wonka Bar)

*

O homem sem sapatos trajando bermuda bege sobe na lateral do chafariz e conversa com o cavalo. Espero o amigo, anoitece. A lua crescente; a vida minguante. O homem diz ao cavalo as coisas do dia, seu dorso negro acaricia e se afasta para dizer em tom de brincadeira a frase tão verdadeira:
_ Mas, você é feio, hein?
A água não jorra, neste fim de tarde, do símbolo fálico do chafariz do Largo da Ordem.

Um cavalo que baba (goza?)... O que secou? O sêmen ou a lágrima? Muito estranho esse cara que fala com o mármore com intimidade de amigo. A água parada, a vida parada, o homem descalço a conversar com as pedras e eu a esperar o amigo... 

Paraísos de Pedra _ Bárbara Lia
Ed. Penalux
lançamento julho/2013

La nave va...

Ilya! (Vmesto Pis'ma) - Bárbara Lia - para Connor Storrie

“Ilya! Vmesto Pis’ma” é o título perfeito para o que escrevi, fulminada de encanto e admiração pela Arte de Connor Storrie. Em lugar de uma...