Tuesday, June 20, 2006

Noir























Claude Théberge

 (...)

Se me levasses a ver tua cena
Cairia - em néon azul -
O espírito de Billie Holyday
Em uma mesa de bar
As calçadas refletiriam
Andares a esmo
Alçando pilares de desejo 
Meninas nuas em camas de areia
Com o pó negro de kohl
Derretendo em prazer
No olhar
Ou, um quarto – silêncio -
Violão e cama
Clara solidão
Tuas cenas nítidas


Eu - uma cena escura & vaga.
- Lusco-fusco antigo -
Banhada em ausência
Da tua imagem em arco-íris.
Sangue ocre de árvores mortas
Espalhadas em mil papiros de agora
-A4-
Poesia narrada

Entre o branco-ausência
E o choro das árvores


Afogada em celulose
Olhando esta lua pobre
Que me confessou, corando,

Em surdina
Que também adora o menino.


BÁRBARA LIA
(do livro inédito - NOIR)

Wednesday, June 14, 2006

Poemail























aprendi a fazer aquilo
que deve ser como as donas de casa fazem:
esperar um afeto ao final do dia

a trancos e barrancos
vivi uma vida
(mais que o tempo que você viveu)
em burocracia asfixiante
casamento sem sal

ou açúcar e vida moldada
que me asfixiava
que me fazia acordar nas noites
a procurar um caminho
que me levou

a uma pobreza abençoada
chamada solidão


Bárbara Lia

Friday, June 09, 2006

Uma canção de amor para Bobby Long


















"Eu tive uma briga de amantes com o mundo" Robert Frost 

- do filme Uma canção de amor para Bobby Long

Monday, June 05, 2006

Giácomo Leopardi























L'infinito

Sempre caro mi fu quest'ermo colle,
e questa siepe, che da tanta parte

dell'ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
spazi di là da quella e sovrumani

silenzi, e profondissima quiete
io nel pensier mi fingo; ove per poco
il cor non mi spaura. E come il vento
odo stormir fra queste piante, io quello
infinito silenzio a questa voce
vo comparando: e mi sovvien l'eterno,
e le morte stagioni, e la presente
e viva, e il suon di lei. Così tra questa
immensità s'annega il pensier mio;
e il naufragar m'è dolce in questo mare.

Giácomo Leopardi



O Infinito

Sempre caras me foram essas ermas colinas,
e essa cerca, que por toda parte,
do último horizonte, o olhar exclui.
Mas sentando e admirando, intermináveis
espaços para lá delas e sobre-humanos
silêncios, e profundíssima quietude
eu, no pensamento, me finjo; onde por pouco
o coração não me amedronta. E, como vento
ouço sussurrar entre estas plantas, eu, aquele
infinito silêncio à essa voz,
vou comparando: e me sobrevêm o eterno,
e as estações mortas, e a presente
e viva, e o som dela. Assim, dentro dessa
imensidão se afoga o pensamento meu; 
e o naufragar-me é doce nesse mar.

Giácomo Leopardi

Tradutora - Patrícia Camila Greter
Formada em Letras Português Italiano - UFPR

- com ênfase em tradução -

Wednesday, May 31, 2006

lição n°1




A folha de uva me ensina mais que as teorias
O olhar do garoto nissei do terceiro andar
Yáyá do 607, com suas palavras-arnica 
Curando minha alma esfolada
Entre rosquinhas e sorrisos
Uma marmota na TV, olhar astuto
Dorso estirado de manequim
Também me ensina a ser zen
O desenho oriental em tinta nanquim
Sinfonia & chuva & a epopeia terna 
- Um filme na parede -
De cenas que resgato dos cílios
Do filho adormecido
Um cem número de visões, sabor e sons
Que degolam as vãs teorias
Um livro humano que me ensina
A entender a vida

Bárbara Lia

Monday, May 29, 2006

Deserto Metafísico



























Sebastião Salgado
Refugiados do campo de Korem,
Etiópia, 1984.


DESERTO METAFÍSICO


Eu me vejo como estrangeira pela vida
Refugiada em um mundo áspero 

De versos rasgados ao vento
Sei o quanto arde voltar dez passos
Olhar para trás e ver apenas - o vazio

Vaso amputado do jardim
Posso ver com olhos de areia
E ter certeza
Mais belos os cadáveres ambulantes:
O opaco semblante do menino morto
E do pai apático,
Da mãe que volta
- Como se voltam sempre as mulheres-
Atrás da última esperança

Mais belos e mais vivos 

Que almas perdidas

No deserto metafísico do ódio
- Os mortos vivos -
Refugiados do mundo da beleza
Ateando fogo a oásis alheios

Disseminando espinhos
Rindo em galhos retorcidos
- Harpias angustiadas -
Eu não os decifrarei nunca
Sem a senha secreta
Em meus ossos está a senha
Que abriria o coração dos tristes
Eu não reconheço os tristes
A água de canela venenosa
Que me dão de beber
Seus cantos de salmos ao avesso
Tramando meu fim

E eu ali - sorrindo de peito aberto
Morrerei acreditando
Como a mulher que se volta no deserto
À espera do milagre
A dizer pedra quando for pedra
E nuvem quando for nuvem
Morrerei com aquele olhar de espanto
De quem não acredita até o último instante
Que foi atraiçoada pelos tristes
Se o menino morto abrisse os olhos
Eu lhe diria que ele é mais vivo
Que os mortos vivos manipuladores de vidas
Do deserto de suas almas ressequidas
Brotam abutres invencíveis
Que comem minha carne até os ossos
E leem a minha senha escondida


Bárbara Lia

as times goes by


You must remember this
A kiss is still a kiss
A sigh is just a sigh
The fundamental things apply
as time goes by...
*

Sunday, May 28, 2006

noite de poesia

























Mano Melo enviou o convite, quem está no Rio pode ir lá no dia primeiro neste lançamento conjunto. Quando li o título do livro do Claufe Rodrigues, lembrei o poema dele que está no livro - Poemas Para Flauta & Vértebra - (Diadorim Ed. Ltda-1.994):
.
ESCREVA SUA HISTÓRIA
.
Escreva sua história na areia da praia
para que as ondas a levem através dos 7 mares
até tornar-se lenda na boca de estrelas cadentes.
Conte sua história ao vento
cante-a nos bares para os rudes marujos
aqueles cujos olhos são faróis sujos, sem brilho.
Escreva no asfalto, com sangue,
grite bem alto a sua história
antes que ela seja varrida na manhã seguinte
pelos garis.
Abra o peito na direção dos canhões!
Suba nos tanques de Pequim!
Destrua as catedrais de Paris!
Defenda a sua palavra.
A vida não vale nada
se você não tem uma boa história para contar.
CLAUFE RODRIGUES
.
LENDO CARTAS DE VAN GOGH A THEO
.
Escrever é o que resta.
Espremer os sentidos como uma laranja.
Ouvir os sons do silêncio mudo
NO burburinho da cidade imunda,
Com suas inumeráveis descargas abertas e tortas
Seus miseráveis abortos de carnes vivas e mortas
Olhando pela janela do ônibus
Andando a pé
Sentado no último vagão do metrô vazio
Passeando entre os iguais de diferentes tribos
Vou fazendo versos.
Cru cozido grelhados assim e assado
E et caterva
Assim escrevo.
Mergulhando no lago largo e amargo de amor e lama
Chamado o âmago
Em busca da melhor forma de expressão.
Descobrir a cor de cada palavra
Como Van Gogh descobriu as cores de cada cor.
MANO MELO
- O Lavrador de Palavras.

Friday, May 26, 2006

Koproski


Impacientes os vermes veem todo esse morrer. versos,
verdades, vestidos, vícios, vênus, vinhos. os vermes
enquanto esperam queimam as asas de cereja das borboletas

e morrem em vermelho todos os nomes do amor.

FERNANDO KOPROSKI
Tudo que eu não sei sobre o amor (Travessa dos editores)

Fernando Koproski nasceu em Curitiba, em 1.973, publicou entre outros, Manual de ver nuvens (1.999) Tudo que não sei sobre o amor (2.003). Traduziu poemas de Charles Bukowski - Essa Loucura Roubada que Não Desejo a Ninguém a Não Ser a Mim Mesmo Amém ( 7 Letras).
*

Wednesday, May 24, 2006

Tábula rasa


















TÁBULA RASA


As portas da cidade branca.
Abertas, par-em-par.
Meu espírito, tabula rasa.

Antes da data no tempo gravada,
Para alcançar a sacrossanta cidade.
Sigo beijando vermes,
Como se fossem jasmins.


BÁRBARA LIA


Poema do livro "O sal das rosas"

Monday, May 22, 2006

Lady Sol



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Campanário Ayacucho - Peru



LADY SOL


Por invejar a solidão
Da concha,
Da estrela,
Do sino ébrio...
Felicidade singular
De brilho & estrondos.
Mudei meu nome.


Como mão na luva,
Deslizei
Lerda e lenta
Para esta nova identidade:
Tem um calor de chá de anis,
Um pijama macio e quente – pantufas!
Tem lua lilás e Beethoven.
E tem uma saudade.


Ah! Vedei as portas...
Não tente entrar sorrateiro
Como na noite branca
Com a beleza de suas mãos
& acordes.

BÁRBARA LIA

Wednesday, May 17, 2006

ODE VERMELHA DE OILIGRIV






ODE VERMELHA DE OILIGRIV
(ou, sobre alguns dias em que São Paulo foi refém de Camacho)


“Se Deus não existe, tudo é permitido”.
(Doistoiévski)



Leu Dante na cela e incorporou um antipoeta: Virgílio às avessas
Abriu o porão do ódio e não havia rosas se abrindo 
Em elipses de céu
Mostrou o reverso da trilha em uma Divina Tragédia 
- Como se desce fácil do céu ao inferno -
Conduziu com maestria seu exército negro
Bastou lembrá-los:
Que eram rotos demais para andarem pelo Shopping
Feios demais para sentar na primeira fila do Concerto
Quando a Orquestra Filarmônica tocava a Sinfonia da Paz
Fedidos demais para irem a restaurantes
Com suas toalhas de renda
Suas cortinas de tafetá da cor das areias do Saara
A vida vendida em anúncios que eles nunca puderam comprar
E sorrindo, em close, arquitetava em capítulos a sua Ode Vermelha
- O antipoeta -
Oiligriv nome de cavaleiro do Apocalipse
Um demônio
Ou, alguém para nos lembrar que 
Aquilo que o amor não alcança o ódio abraça
O que o regime não recupera
O crime incinera em promessas cinzas
Última escada do desesperado

BÁRBARA LIA

Tuesday, May 16, 2006

Chiaroscuro - Poesia - Bárbara Lia





Chiaroscuro  


Hora suspensa. Horizonte de sangue.
Despediu-se o sol, não brilha a lua.
Barcas estremecem em marés de fogo.

Sinos dobram a Ave-Maria.
O Bem chora a evaporação do dia.
Lágrimas de anjos pela humanidade crua.

Encontro e fuga de almas no ocaso,
Bebendo o sangue solar – poção
De luz para os dias de aço.

Crepúsculo incendiado.
Átimo de esperança: Um Serafim alado,
Flauta de estrelas flana acima de algas e corais.

Toca a música divina estremecendo cristais.
(Jazz, blues, salsa cubana, sinfonia?)
Som azul unindo sangue celeste e marinho.

Serafim, flauta e sol
Evaporam em silêncio de prece.
A branda noite abraça o arrebol.

O eco da flauta aos puros adormece.

BÁRBARA LIA
(O sorriso de Leonardo - Kafka ed. baratas)

Monday, May 15, 2006

Michel Sleiman

















La vague - Bouguereau


Qasîda de Dionísio

Com Dionísio
ergo-me e brindo-te comigo:

borbulhas
palavras!

Bebe-me,
terás o ar da vida.

Bebe-me, e esquece
o que teus ombros inclina.

Estou em flor
nas encostas da vinha,

afasta de mim
a triste ermida.

Olha-me menino
reviro a areia...

Molusco em concha
esquecida, descobre-me

nas dobras do sal
nos enlevos do mar.

Nas dobras do sal
enleve-nos o mar.

Uva
sem sumo,

saliva
sem residência.

Não resistas,
desejo o teu alarme de vida.

Embriaga-te
e deixa falar-te o meu idioma.

Sereia nos ganchos
de anzol de delírios,

sou a margem,
o costado solitário.

Colhe-me e terás
o céu de tempos idos.

Tempo incriado, eu
faço-me a tua origem,

a mãe que te levou
oxigênio às artérias.

Vê-me,
estou no espelho de tuas águas.

Sabe-me a cor
que em mim deleitas,

sou a refração,
sou a refração.

E adeus,
se fui o que me foste...

casca da árvore, a seiva...
esta é a última chuva.


Michel Sleiman

Poeta e Professor de Língua e Literatura Árabe na Universidade de São Paulo (USP). Publicou A Poesia Árabe-Andaluza: Ibn Quzman de Córdova.

Razuma



RUIDADO PARA ELA
.
"A chuva é melhor agora
que não temos pressa
ou destino.
Só essa janela
(a vida que nos é alheia)
nos revela
o anseio de sair.
.
Não insistes
só recolhe o calor
que deixei em tudo
como sol.
.
Na chuva
a casa é tão pequena
não cabe - eu juro!
a febre do teu ventre
o fácil do meu riso
nem o filme
que por hora nos mensura."
AZZUMA

Ricardo Azzuma - Curitiba, escreve no blog:
http://www.umchimacomnietzsche.blogspot.com/
*

Friday, May 12, 2006

NO ENCANTADO SILÊNCIO DAS AREIAS DE MAPUTO


















WHITE SAND - MAPUTO
Maurício Matos

NO ENCANTADO SILÊNCIO DAS AREIAS DE MAPUTO


Entre estrelas
entre algas
entre brancos lençóis
e paredes brancas.
Vermelha viagem da vida nas veias.
Instante que precede ao nascimento,
também à morte.
A morte é um silêncio suspenso.
...E o sol, um silêncio vermelho.
Nuvens em seu passeio,
diante da janela deste apartamento.
Tem uma sinfonia em tons vários,
que gritam – SILÊNCIO!
Silencio. Branca como estrelas e algas,
passeio brancas areias de Maputo,
olhando ao redor em busca de Mia Couto...
ansiando que ele me ensine a estrondar
o encanto.

BÁRBARA LIA

Thursday, May 11, 2006

poema






crescente
a lágrima
a lâmina
ceifa sorrindo,
no lodo,
o lírio.

BÁRBARA LIA

Cinéfila - Shadows in the sun











Shadows In The Sun (The Shadow Dancer)
de Brad Mirman
com Joshua Jackson, Harvey Keitel, Claire Forlani, John Rhys-Davies, Giancarlo Giannini, Armando Pucci, Jake Broder, Stomy Bugsy, Valeria Cavalli, Silvia De Santis, Albert Dray e Ken Drury
(Itália, Reino Unido e França 2005)
Harvey Keitel incorpora o escritor que parou de escrever após a morte da esposa. Vinte anos sem escrever, vivendo em uma vila no interior da Itália. Alguns momentos que captam mesmo a alma de quem escreve. O olhar do escritor sobre o mundo e as coisas. O casal romântico não alcança a força de Harvey Keitel que vive Weldon Parish. Escritor que recebe a visita de um jovem editor, aspirante a escritor que deseja convencer Weldon a voltar a escrever...
Em dias nublados e sem respostas, para não pirar, esta poeta dá um lucro imenso à locadora de vídeo do prédio ao lado. Lá tem a Conceição, que ama Literatura. A Conceição manja tudo de Literatura e já trocamos altos livros e até li uns contos fantásticos de Guy de Montpassant que ainda não conhecia, pois a Conceição gosta mesmo de quem escreve bem. Temos tido um diálogo muito frutífero.
É claro que o filme não é magnífico, mas, consegue dar um alento, uma certeza que o escritor continua sendo escritor, mesmo quando para de escrever. Ele nunca vai mesmo olhar com olhos comuns o sol se pondo, nem a mulher, nem a noite, nem as estrelas.

Monday, May 08, 2006

4. MENINOS DE 1.944















Frei Betto - 25.08.1944

4. MENINOS DE 1.944

Esse ano - 1.944 - que recebeu um olhar especial de Deus trazendo o grande Cartunista, o Poeta que marcou uma época, o nosso maior artista- Chico, e um Frei que ainda luta pelos direitos humanos, e por mais que eu - em tão pouco tempo sem uma militância como a dele - já esteja desanimada de tudo, chutando o balde nas lutas pelas igualdades e pelo amor, eu que estou consumida em cinzas de fogo que não forjaram nada, que não serviram para melhorar o mundo nem salvar meu coração, nem trazer meu amor, vejo meu amigo indo sempre com uma inabalável coragem. Percebo isto na vida dele, que segue pelo mundo em seus seminários e palestras.
"Estou indo para a Itália" ele me conta naquele cartão lindo, adornado com uma igreja de Tiradentes, e me incentiva com a idéia do meu livro artesanal, e diz que os anjos da poesia estão vivos e que a poesia chega mesmo em grande número às finais de concursos importantes como o Jabuti. Frei Betto nasceu no dia 25 de agosto de 1.944, sua festa de aniversário de dez anos foi água abaixo por conta do suicídio de Vargas. A minha vida de menina foi soterrada pela frase - Eu nasci um ano após o suicídio de Vargas - por fim, a poesia sanou esta referência histórica e eu nasci na mesma data em que nasceu Leminski - 24 de agosto. Foi nesta coincidência de ter nascido em uma data próxima ao aniversário do meu amigo Frei Betto, e de ter incorporado a poesia e não mais um suicídio ao meu aniversário, que descobri a coincidência de grandes ícones terem nascido no mesmo ano. 1.944 - um ano abençoado.


Fragmento do livro
A Mosca Azul (Ed. Rocco)

... Naquele frescor da adolescência, meu único pecado era o saudável despertar da sexualidade, o jorro de sêmen em homenagem às misses da revista "O Cruzeiro" metidas em maiôs Catalina, as putas da rua Gaicurus fingindo-se de mais novas enquanto eu me disfarçava de mais velho, nesse intercurso silente e cúmplice entre dois seres que se dão em intimidades, um em busca de prazer, outro de dinheiro, antípodas intransponíveis...
...Todos somos discípulos de Sócrates, nós que antepomos os jovens ao velho mundo, à velha ordem, e negamos os deuses de conveniência do mercado.
Nem tudo, entretanto, era sombrio. Naqueles idos da Nouvelle Vague e Marilyn Monroe, de Oscarito e Grande Otelo, havia a festejar as derrotas do Império: os vôos do Sputinik, o êxito da Revolução Cubana, os barbudos sorridentes de Sierra Maestra, o fracasso da invasão da Baia dos Porcos, a surra levada pelos americanos no Vietnã, a revolução musical dos Beatles, o maio de 1.968, o corpo ostentando sua carta de alforria, o velho mundo chegando aos seus estertores. E eu era parte do futuro, artífice de uma história implacável, irreversível, o alvorecer de todas as esperanças. O tempo amadurecera. Imune à mosca azul, Che abandonou seu cargo de ministro, as loas do poder, e anônimo, meteu-se no Congo e, em seguida nas selvas da Bolívia. Pulsava célere o coração da América Latina: um, dois, três Vietnâs!... Em minhas mãos, modelava-se o feto de um novo mundo, o imperialismo agonizava a olhos vistos, e em seu enterro eu lá estaria para jogar o meu punhado de terra.
Quanta ilusão! Aos poucos, a avalanche do arbítrio castrense soterrou o Cone Sul: Brasil, Chile, Uruguai, Argentina, Peru, Bolívia... As descargas elétricas calcinaram sonhos, abriram feridas históricas (ainda incicatrizadas); semeou-se a cizânia por todos os cantos, filhos contra pais, pais contra filhos, famílias rachadas ao meio, e as mães compassivas, porém corajosas, de delegacia em delegacia, quartel em quartel, necrotério e cemitério, em busca de filhos desaparecidos. Até hoje, ao menos no Brasil, a farda insiste em promover o olvido, desmemoriar a nação e impedir que atrocidades cometidas em nome da lei sejam por todos conhecidas. Contudo, o governo, ao iniciar a abertura dos arquivos da repressão, joga luz sobre as trevas...
FREI BETTO

3. MENINOS DE 1.944

3. MENINOS DE 1.944























Chico Buarque (foto - joão wainer)
19.06.1944

Cala a boca, Bárbara
Chico Buarque - Ruy Guerra
/1972/1973
Para a peça Calabar de Chico Buarque e Ruy Guerra


Ele sabe dos caminhos
Dessa minha terra
No meu corpo se escondeu
Minhas matas percorreu
Os meus rios
Os meus braços
Ele é o meu guerreiro
Nos colchões de terra
Nas bandeiras, bons lençóis
Nas trincheiras, quantos ais, ai
Cala a boca
Olha o fogo
Cala a boca
Olha a relva
Cala a boca,
Bárbara
Cala a boca,
Bárbara
Ele sabe dos segredos
Que ninguém ensina
Onde guardo o meu prazer
Em que pântanos beber
As vazantes
As correntes
Nos colchões de ferro
Ele é o meu parceiro
Nas campanhas, nos currais
Nas entranhas, quantos ais, ai
Cala a boca
Olha a noite
Cala a boca
Olha o frio
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca Bárbara.


- Sem poesia para Chico. Diante da arte dele tudo cala.
Tarde aprendi que algumas coisas não cabem dentro
das palavras.
Isto lembra Mia Couto:
"Diante do amor
ela arrepiou o coração:
não tenho asas para tanto paraíso"


2. MENINOS DE 1.944

2. MENINOS DE 1.944

















Paulo Leminski
24.08.1.944 - 07.06.1989

sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa
Paulo Leminski - La vie en close

*
Mais um epitáfio para
Paulo Leminski

Em terra sem poetas
Quem tem um olho é Camões

Edson Falcão
Curitiba (PR)
- O ossário de um ferreiro -
Torre de Papel 2.003

La nave va...

Ilya! (Vmesto Pis'ma) - Bárbara Lia - para Connor Storrie

“Ilya! Vmesto Pis’ma” é o título perfeito para o que escrevi, fulminada de encanto e admiração pela Arte de Connor Storrie. Em lugar de uma...