Saturday, July 12, 2008

Por mais terras que eu percorra...

A conquista de Montese - tela A. Martins



Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.
.(fragmento)
.
(Canção do Expedicionário-
Letra: Guilherme de Almeida
Música: Spartaco Rossi)




Texto da Orelha do livro - Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira -
Leonercio Soares:


"... Como estou acostumado a receber livros mediante condições (explícitas ou implícitas), este presente não me espantou nem me comoveu.

Seria um caso a mais dentro da rotina da minha vida. Talvez um livro que me encantasse, ou talvez me comovesse. Recebo livros de poesia, de prosa, de técnica, e, em geral folheio todos, cuidadosamente, lendo alguns deles, quando sinto afinidades anímicas com os autores. Porém raros são os livros que começo a ler e atravesso dias, desinteressado das coisas da vida doméstica e apenas grudado às páginas do que estou lendo.

Pois foi este o caso do livro que recebi.

Não é uma maravilha literária; mas é suficientemente bem escrito para prender e é sobretudo um livro que tem calor, que tem patriotismo (real e não fingido) e escrito por pessoa, sem nenhuma dúvida, preocupada em relatar a verdade, mesmo quando essa seja dolorosa para os cidadãos brasileiros e nosso país.

Terminei a leitura dos dezoito capítulos e mais o epílogo desse livro na madrugada do dia 24 de maio, por sinal dia da comemoração da batalha de Tuiuti, durante a guerra do Paraguai, citada pelo Autor, em termos muito honestos de sua parte, ao comparar a guerra de 1865/1870 com a de 1944. Cem anos depois chega ele à conclusão que não avançamos moral e organizacionalmente nada!"

"... pois desde logo afirmarei: É um livro impressionante, verdadeiro (e dentro da relatividade das coisas humanas) extremamente bem intecionado e justo.

Devo dizer (e o Autor também adverte) que o livro exige - ou merece - uma cuidadosa revisão, senão nos cochilos da datilografia e das expressões um pouco apressadas, no emprego das preposições, no que possa ficar definitivamente como um testemunho perene da FEB e uma reação vivíssima de um homem honesto que se libertou de todos os possíveis condicionamentos para dizer a verdade (pura e simplesmente a verdade do que viu, ouviu e viveu nos campos de batalha da Europa) a fim de melhorar a situação de um BRASIL que vive mal e que sempre viveu mal, não por que lhe faltem recursos, mas porque os ladrões e os canalhas pululam ocupando altos cargos que só excepcionalmente caem nas mãos de gente honesta.

O livro começa contando o caso, talvez verdadeiro, de um expedicionário que, para viver, realizava uma degradante criação de larvas de moscas varejeiras. Fá-lo encontrar-se com outros expedicionários, e os joga no seu quadro extremamente bem traçado.

Todavia, do segundo capítulo em diante, o relato é da guerra, desde a chegada a Nápoles até a vitória final em que a FEB tem um papel importante na rotura das linhas alemãs, mas não tem meios de fazer que uma vitória iniciada em ótimas condições chegue ao final, porque o Brasil não tem meios de mostrar-se tal qual se mostram os países desenvolvidos aos quais a guerra interessa e eles podem levar a termo a organização de final de guerra."

"... E das páginas do seu livro fluem visões do que foi para a nossa gente, a guerra na Itália, toda corroída, do começo ao fim, pelas vergonhosas situações que ali são expostas com firmeza e verdade.

Claro que o Autor é brasileiro e no final ele se indigna contra o desprezo dos americanos que nos tratam, não como aliados ou como iguais, senão como inferiores que consentem para o seu país situações que mantém cento e trinta milhões de habitantes em condições de deficiência moral e econômica, graças a governos corruptos e aos costumes displicentes com os quais nos habituamos, que nos vêm apodrecendo e degenerando.

Claro que no Brasil e no Exército há gente boa e honesta, mas ele mostra como e quanto essa gente se apaga e sofre..."
David Carneiro
(Gazeta do Povo- 31.05.84)


Meu tio herói de guerra


Cidade de Montese após cessarem os ataques.



A última vez que falei com meu tio Leonercio foi uma longa conversa por telefone. Ele me contava do novo livro que escrevia e que lhe custou muitas viagens ao interior do Paraná. Mais de dez anos antes da nossa última conversa ela havia lançado - Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira. Nunca li seu último livro - O velho estafeta - pois ele estava vivendo um novo casamento com uma pessoa que se fechou em conchas, mudou-se para muito longe após a morte dele, levou junto o livro, e demonstrou que não tinha interesse em publicá-lo. Fico aqui pensando no direito sagrado de filhos e sobrinhos e netos de terem acesso aos bens intelectuais dos seus. Quando tento falar com meus primos sobre o livro eles vivem o mesmo drama que eu. Um casamento dá poderes demais a terceiros e se não se pode contestar o poder do cônjuge sobre os bens da matéria, devíamos ter direito aos bens intangíveis - afinal, está no livro sagrado que o Espírito sopra onde quer... ou não? Eu ainda não havia publicado uma linha e me via lentamente voltando a escrever versos e histórias, coisa que eu tinha abandonado lá pelos meus vinte anos, quando falei com meu tio, dez anos atrás. Percebi o desejo dele, grande desejo, de lançar seu livro. Chegou a perguntar sobre a Lei Rouanet. Uma pena viver em um País onde um livro que resgata história não pode ser acolhido, publicado, lido. Não sei se o furor dele no livro anterior era causa da dificuldade de lançar um novo livro. Sempre penso nas coisas que ele narrou sobre a nova história. Fiquei imaginando homens de chapéu de couro em lombos de burros, com embornais de lona atados ao corpo e aos animais, cruzando trechos íngremes para levar correspondências, documentos. Fiquei imaginando todo o tempo em que ele percorreu lugares para pesquisar sobre os estafetas. Senti desejos de ler o livro que nunca li e, quem sabe, nunca lerei.
Ontem reencontrei o livro dele que eu imaginava perdido. Lembro que senti falta dele em uma mudança. Levaram meu vestido de noiva, uma centrífuga, muitas roupas e algumas quinquilharias de cozinha que eu havia deixado em uma caixa na casa antiga. Quando voltei para apanhar, percebi o roubo e não me entristeci pelo vestido (do casamento que não deu certo), nem pela centrífuga, muito embora ela lembrasse uma infinidade de sucos de cenoura e de tomate e sucos de frutas que eu fiz para meus filhos. O rito terno de mamadeiras e fraldas que eu amava, de um tempo em que eu fui loba serena e feliz. Mas, entristeci por pensar perdido o livro, um pouco menos ao imaginar que algum ladrão se interessava por leitura, afinal... Mas, a caixa com poucos livros foi parar no quarto das minhas filhas, e ficou assim, até agora. Para mudar algumas coisas reviraram o quarto de cabeça para baixo e eu fiquei feliz ao encontrar entre - Ensaios e Anseios Crípticos, do Paulo Leminski e um livro de Mário de Andrade - o livro do tio herói de guerra, em uma caixa de papelão, espremido entre tantos outros.
Encontrei referências a ele na internet, sei que o livro do meu tio sacudiu um pouco o orgulho da FEB. Conheci, através de uma amiga, um senhor bem velhinho que até desconfio que era do Exército, que me contou que o livro do meu tio foi retirado da Livraria. Nao duvidei pois o livro foi lançado em abril de 1.985. Lembro que meu pai veio do interior e se hospedou em minha casa, pode notar o orgulho dele pelo irmão. Fomos ao lançamento em uma das lojas da Livrarias Curitiba. Li o livro, e soube um pouco mais da II Guerra, por alguém que esteve lá, que voltou com hábitos modificados. Meu tio jamais dormiu em um colchão macio, preferia dormir no chão, ou em tábuas, acostumou o corpo ao tempo da guerra o que causou transtornos em sua vida diária. Mesmo em seu carro ele colocou uma espécie de tapete de madeira no banco, aqueles com pequeninas bolas de madeira. Na Itália, um incidente no acampamento quase se torna causa de uma cegueira. Ele esteve nos hospitais, no front, em muita parte. Como era sargento, quando seu superior foi ferido, tomou a frente do seu pelotão e comandou a Tomada de Montese. Voltou com duas medalhas de herói de guerra, e um belo dia decidiu escrever um livro, muito tempo depois de sua volta.
Não sei quando começou em meu País a corrupção, talvez tenha começado quando desvirginaram nossas praias com caravelas. Para mim, a ousadia do meu tio não espanta, este lado louco de dizer o que pensa tem um tanto a ver com o meu sangue mesmo... O livro começa com a visita de um ex-pracinha a um amigo dos tempos da guerra. Do susto de encontrar o amigo criando larvas e vivendo em um mísero casebre nas imediações de Brasília, sendo sustentado pela mulher que leciona, já velha e cansada também a mulher do ex-soldado. O livro começa, talvez, com uma visita real do meu tio a algum amigo. Meu tio pertenceu ao S.N.I. quando voltaram da Itália ele tinha juventude e inteligência, um pai deputado, o meu avô. Para ele a vida não foi complexa no campo material, mas, foi complexa no campo psicológico, como foi para uma infinidade de soldados que apelaram para o que meu tio chamava - famigerada pensão de major louco de guerra. Acredito nas narrativas e já vivi o bastante para saber que a verdade fica por vezes escondida e nem sempre é propalada. Vou reler o livro do tio, o livro reencontrado.



...

Entardecia, uma tarde nublada, de horizontes entenebrecidos, quando a frota de pequenas embarcações singrou as águas agitadas do Mar de Tirreno, ao longo da costa italiana. À proporção que o cardume de pequenos barcos avançava, mais violento e agitado mostrava-se o mar. Ondas imensas se erguiam fazendo as barcaças desaparecerem nos buracos abertos; a água espumante varria os convéses de lado a lado. Fora dos porões apertados, tinha-se que se agarrar às cordas e cabos de aço para não ser arrastado pelas ondas que vinham e passavam.

Muitos soldados que resistiram bem a travessia do Atlântico, nos grandes navios, ali, viajando nas barcaças, baquearam.

Enquanto as barcaças avançavam beirando as penedias, sobre elas, nas ilhas e nos pontos mais destacados, as antíquissimas ruínas de castelos iam aparecendo e ficando para trás.

Somente ao amanhecer, chegando no porto de Livorno, é que o mar se fez mais calmo.

No porto de Livorno a tropa passou para os caminhões reforçados de transporte do Exército norte-americano, que a conduziu para a área de acampamento, na Quinta Real de San Rossore.

.

***
.

Um navio carregado de alimentos, atracoou no porto de Nápoles. Navio brasileiro, com comida para o soldado brasileiro.

O Serviço Médico Aliado, examinou a carga:

- e mandou descarregar;
- e mandou espalhar gasolina;
- e mandou pôr fogo.

Achou que não servia:
- feijão carunchado;
- arroz mofado;
- farinha de mandioca embolorada;
- charque podre...

Depois disso nunca mais mandaram navio de comida para o soldado brasileiro. Parece que houve uma ordem do Comando Superior Aliado: - "Não mandem mais estas coisas!"

Isto foi bom para os dois lados: bom para os que estavam roubando o dinheiro que era para comprar comida de primeira e já não precisavam comprar mais nada; e, bom, melhor ainda, para o soldado que estava guerreando na Itália e não teria que comer

- feijão carunchado;
- arroz mofado;
- farinha de mandioca embolorada/
- batatinha brotando;
cebola podre;
charque podre e
fumar
- Fulgor, Yolanda e Liberty, molhados e ardidos.
Só que, com isto, o Brasil fez uma bruta dívida de comida que o americano forneceu para o soldado brasileiro. Mas esta sim era comida de primeira. De primeiríssima.

O chato da história é a gente ter vergonha...


Leonercio Soares (Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira - edição do autor)

...

Sobre o livro:


Thursday, July 10, 2008

Tábula Rasa

Las puertas
de la ciudad blanca
abiertas de par en par
Mi espíritu, tábula rasa

Antes de la fecha
en el tiempo grabada
para alcanzar
la sacrosanta ciudad
Sigo besando lombrices,
como si fueran jazmines
poesia - Bárbara Lia
dibujo - Alejandra Pizarnik

Tuesday, July 08, 2008

Para Camille, com uma flor de pedra


Niobide blessée

À sombra da noite clara
Latona no meu encalço
Espectros da última primavera

O Rio Loire um duplo do Aqueloou
Meu Monte Sípilo é Ville-Èvrard
Onde endureço carne e alma

Delírios brancos, visões:
Escunas leves com velas de vidro
E tombadilho de pétalas
Estilhaçam na roupa cinza
Ferem-me, beijam-me – qual o amor

Meu ódio espelha o trágico
Anseio que o mundo petrifique
Qual Zeus petrificou Tebas

Sonho com o anjo da restauração
Acordo. Nada se restaura
Tudo igual:

Cama dura de ferro
Urinol fétido, trincado
Três tâmaras secas
Dois gatos no cio a quebrar
O silêncio arredio da madrugada

Os loucos acordam com vislumbres de luz
- Átimo de lucidez.
Acenam lenços de seda à Latona fria
Choram um beija-flor e já no corredor
Vestem o olhar vazio.

Andam autômatos como rios mortos
Deságuam cinzas
No jardim de Ville-Èvrard.

BÁRBARA LIA

http://www.saldaterraluzdomundo.net/literatura_po_b%E1rbara_Lia.htm



Em fevereiro passei alguns dias e noites atada à alma de Camille Claudel, ela enreda os signos e sua vida, neste mergulho na vida de Camille senti a dor dela, tão profunda que me deixou prostrada. Na página da jornalista Ana Lucia Vasconcellos, link acima, algumas poesias destes dias, que eu vesti a pele de Camille. Quando ela foi atirada em um asilo de loucos pela família, quando perdeu o amante Rodin, sofreu um aborto, e naufragou em um tempo dolorido. As esculturas de Camille são poesias que espelham sua dor, enredadas com signos, e nesta troca de experiências, além do tempo, que não existe tempo, tentei dar voz à Camille... Nióbide Blessé, ou Níobe ferida, é uma das esculturas na qual me debrucei para escrever - Para Camille, com uma flor de pedra...



________________________________________________


Níobe, a irmã de Pélops, saiu da Ásia para se casar com outro filho de Zeus, Anfíon, famoso músico que reinava em Tebas. Teve muitos filhos e filhas (a quantidade varia conforme a fonte), e estava tão orgulhosa e feliz com sua prole que cometeu o erro de declarar-se superior à deusa Latona, que tivera somente dois filhos, Apolo e Ártemis.

A deusa se ofendeu e pediu aos filhos que a vingassem. Apolo matou então, com suas flechas, todos os rapazes; Ártemis fez o mesmo a todas as moças. Níobe, cheia de dor, voltou para a Ásia e tanto chorava que os outros deuses se apiedaram dela: transformaram-na numa rocha perto do Monte Sípilo, de onde uma nascente vertia água constantemente.

fonte: http://greciantiga.org/mit/mit07-1.asp

- o rio que nasceu das lágrimas de Níobe é o Aqueloou

Sunday, July 06, 2008

Poesia morta - Céu Fuligem - Sol Negro










SOL NEGRO


Crucificar a alma da rosa
no caos do sangue
de uma geração
que é sombra em si.

No limiar do céu
a rosa mística
abre apenas
para Beatriz.

Liberar o humano
só quando o Verbo
ungir as catedrais
e os estádios
e molhar as aquarelas
e os palcos
e o negro silêncio profundo
dos megabytes.




POESIA MORTA

inocência morta
lírio em chamas
corvos
vermes
lodaçal
cheiro acre
que atravessa o mundo
feito fumaça
anjos desertores

e rosas chamuscadas
choram
a morte da insana poesia
cavam olhares e bombas e notícias
e o rosto do cavaleiro branquelo
do apocalipse -
olhar de horror fragmentado
que desfaz a poesia em cinzas
-brancas cinzas de areia-
pode que floresçam em rosas do avesso
pode que o fantasma da poesia fique
e pague o preço




CÉU FULIGEM


era de aquarius
de cabelos de vidro
máscara azul
sapatilhas de areias
pisa o milênio
sutil e solene
nuvens negras
o oriente geme
Krishna, Allah e os astros
nos deserdaram
estrelas apagadas
em um céu de fuligem
entre os cães e as carnes
de crianças do Iraque
uma lágrima rasga
em cicatriz, o poeta
(na selva-relva
acordes & solidão)
15.05.2005
.
BÁRBARA LIA
.
Poesias do livro - O sal das rosas - Lumme editor - 2007

Saturday, July 05, 2008

Rimbaud

Rimbaud propiciou belas trocas, tentei postar um vídeo do youtube, não sei configurar este blog depois que meus arquivos foram formatados e não estou conseguindo postar vídeos - então, eu deixo o endereço para quem quiser.
Também coloquei ao lado um link para um site que é uma obra de arte - Arthur Rimbaud (FR) - eu adorei este site!
Rimbaud é uma senha para um mundo de delírios poéticos e encantamento. Rimbaud é um poeta-labirinto.
.
- versos finais de - O barco bêbado - (Tradução de Renato Suttana):
.
...Magoam-me as auroras.
Todo sol é dolente e amargo todo luar.
O acre amor me fartou de torpores, demoras.
Oh, que meu casco estale! Oh, que eu me lance ao mar!

Se desejo da Europa uma água, é a poça estreita,
negra e fria, onde à luz de uma tarde violeta
um menino agachado, entre tristezas, deita
seu barquinho, a oscilar como uma borboleta.

Imerso em languidez, não posso transcender
o rastro, ó vagas, dos que levam algodões,
nem dos pendões o orgulho e das velas vencer,
nem já nadar sob o olho horrível dos pontões.
.
a poesia aqui:
.
...
A ESTRELA CHOROU ROSA
A estrela chorou rosa ao céu de tua orelha
O infinito rolou branco, da nuca aos rins
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha
E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris
Rimbaud

Thursday, July 03, 2008

Cássio Amaral

..
Rimbaud no estilhaço das nuvens
Frank Zappa profetizando
o teatro mágico de rifes psicodélicos
.
.
ENTEN KATSUDATSU
cortar o molde das nuvens Rimbaudianas
cheirar os sóis de Van Gogh
queimados de poemas despojados
.
(Enten Katsudatsu quer dizer versátil, livre e desimpedido em japonês)
.
.
YUME
.
reflexo no mar de Chagall
nuvens conspiram absinto
na noite engolindo o céu azul
(Yume quer dizer sonho em japonês)
.
.
violetas desaguadas na calçada
pálpebras da cinza do dia
reflexo do choro na aurora de Maiakowski
.
Cássio Amaral.
Do livro inédito Sonnen
.

Tuesday, July 01, 2008

O rasurado azul de Paris



Cronópios - Literatura e Arte no Plural publicou algumas poesias da série - O rasurado azul de Paris (poesias para Rimbaud):


Friday, June 27, 2008

Hoje: cem anos do nascimento de Guimarães Rosa







Relembro Diadorim. Minha mulher que não me ouça. Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.
pg 34
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: veredas



Fotos que tirei no Museu da Lingua Portuguesa na exposição - Grande Sertão Veredas.

Thursday, June 26, 2008

Dans l'air



Tínhamos a mesma idade
Quando vimos o mar
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
– Rimbaud e eu –

Por isto
Pisamos telhados
Ao invés do chão

Por isto
Machucamos nossos amores
Com nossas próprias mãos

Por isto
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe

- Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade.


- Bárbara Lia
(O rasurado azul de Paris -
poemas para Arthur Rimbaud)

Tuesday, June 24, 2008

O encontro perfeito

Sean Connery - Rob Brown



Alguns encontros são perfeitos. Na arte e na vida.

Encontrando Forrester (2.000). Um filme de Gus Van Sant, com Sean Connery e Rob Brown. O ator Rob Brown estreou neste filme, mas, fica difícil acreditar. O menino quase rouba a cena de Sean Connery, mas, como ninguém rouba a cena de Sean Connery a dupla torna o filme belo. Belíssimo. Um garoto negro do Bronx que joga basquete muito bem e que escreve em surdina, guardando cadernos e cadernos de textos sem mostrar a ninguém e um escritor recluso que escreveu um único livro, premiado com o Pulitzer. William Forrester, o escritor; Jamal Wallace, o garoto, dão uma lição de parceria.

Eu te dou de volta o sopro da esperança e tu me dás o grão maduro da vivência. Eu te ensino a andar de novo de bicicleta para beber a primeira brisa da manhã e tu me ensinas o silêncio. Eu te dou o meu silêncio prá proteger teus medos. Eu te dou de volta a coragem de um novo exílio para criar o verão, mesmo que seja o último sopro de tinta nas páginas... Na solidão de Forrester está escondido um espanto que quem escreve vive. De olharem para ti como se tu fosses a tua obra. E no escritor isto é mais complexo do que em todas as artes. Pois não estás em um palco e nem atirastes de forma concreta tua Arte em uma tela. Os teus leitores sempre te olham como se tu fosses o livro, o poema. Te escondes das palavras que te ungem, depois de tê-las buscado - às palavras da tua obra - como o pescador ao peixe mais arisco. Te escondes das setas que atiram em ti e não sabes explicar que não és aquilo que escreves, ou que podes até conter belezas, mas, em ti também está contido o banal e que és igual a todos. Decididamente não vives em um jardim cercado de borboletas... Nem és o personagem desgraçado que passeia pelas páginas de seus livros. Mas, explicar, como? Em uma cena Forrester deixa transparecer isto... Mas, em todas as cenas é apenas o delírio, este que apenas quem escreve sabe - a busca pelo caminho que vai criar o texto mais bonito, o livro único que impacta por quatro décadas, o romance do século... Quem não ambiciona isto?
O espanto do professor obtuso diante dos escritos do garoto. Esta falta de sensibilidade que por vezes impera - como pode um menino do Bronx escrever tanto? E ele desafia o professor e ele mostra que a Literatura é um tesouro aberto, em bibliotecas pelo mundo todo, toda a água pura, o ar do éden, toda a magia e a loucura, todo o espanto e toda filosofia e toda poesia... Este menino aprendeu como aprendem alguns - bebendo da fonte pura. É assim, na solidão dos dias e das noites, alguns se atiram com avidez na fonte pura, e encontram um Forrester, como o menino encontrou; como eu encontrei. Estes encontros perfeitos que vão tirando dos olhos da gente a venda, que vão ampliando e mostrando um caminho nada banal, um encontro mágico. Estes encontros mágicos vão soprando o barco dos nossos sonhos e nossas esperanças para o alto, para longe, para muito longe, a ponto de tocar a aresta de algum astro, ou de muitos...
Em uma fusão perfeita, o encontro de Forrester com o menino coloca nos trilhos duas vidas e libera o oxigênio e acende a chama.

Quero luz!

Fragmentos do livro – O homem medíocre:

- A hipocrisia é a arte de amordaçar a dignidade.
- O homem que pensa com a própria cabeça e a sombra que reflete pensamentos alheios parecem pertencer a mundos distintos. Homens e sombra: diferem como o cristal e a argila.
- As sombras não crêem.
- Quem marcha em direção de uma luz não pode ver o que ocorre na sombra.
- A mediocridade teme o digno e adora o lacaio.
- Poucos sonhadores encontram um clima e uma ocasião que lhes exalte a genialidade. A maioria é vista como exótica e inoportuna...
José Ingenieros (Giuseppe Ingegneri )
Palermo, 24 de abril de 1877 — Buenos Aires, 31 de outubro de 1925
.
(...)
Luz, quero luz
Sei que além das cortinas
são palcos azuis
E infinitas cortinas
com palcos atrás
Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa,
Pulsa, pulsa mais
Mais, quero mais
Nem que todos os barcos
recolham ao cais
Que os faróis da costeira
me lancem sinais
Arranca, vida
Estufa, vela
Me leva, leva longe,
Longe, leva mais
Chico Buarque – Vida

Para quem viaja ao encontro do sol
É sempre madrugada
Helena Kolody


Lendo – O homem medíocre – José Ingenieros (Livraria do Chain Editora) neste inverno rigoroso é mais ou menos como tomar um chá de uma erva rara. Um vento de fogo no frio, estas horas santas em que um livro te sacode e te dá forças para mais um tanto de caminho. Longo caminho este, serpenteado de sustos. Mas, buscando sempre, cavando sempre a rocha escura. Lembrei a canção do Chico, a poesia de Helena Kolody: Quero luz!

Monday, June 23, 2008

Bem-te-vi



Ramagem arranha janela.
Sonho:Aeroporto fantasma.
Espíritos de náufragos do Titanic.
Ku Klux Klan ateando fogo ao enforcado.

Seqüência horripilante:

A mulher sem olhos na cama,
entre lençóis úmidos de chuva.

Acordo com o bem-te-vi
na manhã de sol
na mesma paisagem.


BÁRBARA LIA

(O sorriso de Leonardo - Kafka ed baratas - 2004)

Sunday, June 22, 2008

La Furia Roja

Emilio Butragueno - copa do mundo 1986
.
Hoje quando a Espanha venceu a Itália voltei a pensar em Butragueno. O jogador espanhol que me encantou em 1986. Emilio Butragueno tinha um ar de menino frágil e um futebol potente. Lembro que via os jogos da Espanha só para ver o Butragueno, e me apaixonei pelo craque, há 22 anos. Hoje quando o goleiro Casillas agarrou aquelas duas bolas decisivas, pensei na fúria espanhola. É... futebol faz mesmo a minha cabeça. Mas, meus ídolos eu os pesco assim, pela euforia ou pela timidez. Lembro que minha mãe me apresentou o Santos Futebol Clube. Ela nasceu no interior de São Paulo e acabou me contagiando com um time que era moleza se contagiar nos anos 60. Quando eu era menina, meu time conseguiu a proeza de ser duas vezes campeão do mundo, e depois, antes da copa de 70 ainda tinha uma máquina de futebol com carlos alberto, edu e clodoaldo. Pelé? Bem, eu penso que o Pelé tem a sua história, mas, meus jogadores preferidos são outros. Clodoaldo era meu ídolo em 1.969, depois na copa de 70. Depois de um tempo infinito de ostracismo, eu me vi de novo criança, torçendo por Diego e Robinho. Já fui mesmo uma torcedora ferrenha, já não sou.
Ainda acho linda uma partida de futebol.
Quando Butragueno me encantou meu filho Thomas ainda não era nascido. Agora é ele que me contamina com a Eurocopa.
De resto, cada time do Brasil que disputa um campeonato, acaba sendo o meu time. Por isto eu torço para o Fluminense na quarta, e espero que ele ganhe a Libertadores... Na Eurocopa eu vou torcer assim como quem descobre a leveza da pluralidade, esta que me permite ficar feliz ao final de cada partida, sem estar sendo falsa ao pensar - que vença o melhor!

Friday, June 20, 2008

Sakountala




Cinzel de prata esculpindo pés
Cada fagulha vermelha
um fio de cabelo do amado

Cinzel de prata treme
acende astros
de um azul escuro
em meu olhar algodão

Rodin!
Rodin!

Tantos pés teci
em mármore angustiado
-trilha de pés moldados-

esquerdo / direito
esquerdo / direito
esquerdo / direito

Tantos pés
emprestei-te
para ter-te assim
ajoelhado
enlaçado
abismado
abandonado

Augusto espectro
de fogo
onde queima
a aurora

Sei!
Tudo isto
é mármore!

Mas, antes
foi carne
vermelho abandono
amor petrificado

Antes do fim
às margens
do Rio Loire
nossa carne carmim
foi mármore.

BÁRBARA LIA

(do livro - Para Camille, com uma flor de pedra - Inédito)


Sakountala - a escultura de Camille Claudel, concluida em 1888, foi inspirada em um conto do poeta Calidassa (Índia)


Well, well.
I had my way.
I trusted a king
And put myself in his hands.
He had a honey face and a heart stone
(She covers her face with her dress and weeps)
- Calidassa
–

Tuesday, June 17, 2008

Dios en el rocio

(para Jorge Luis Borges)

Jardín perfumado de Istambul.
Sol intolerable besa la rosa azul
en el florero blanco. Dos perros de
color de la luna
alrededor.
Tus ojos se pierden en la rosa desnuda.
Ojos del color del Mar Caspio en la aurora.
Gota del rocío baila en el pétalo.
Cristal.
Punto en el espacio – Aleph
descortina el universo.
Sueños enjertados de sol, desiertos,
aromas, fauna, primaveras, tormenta.
Todo el universo en gota clara
que cubre la rosa. Las lágrimas
bajan solar al labio carmesí
y el pecho arde de amor y luz.

BÁRBARA LIA

Sunday, June 15, 2008

Tratado dos anjos afogados

ARIEL, Marcelo. Tratado dos Anjos Afogados,
Caraguatatuba, Sp: LetraSelvagem, 2008.




Tuesday, February 21, 2006

PAPO-RELÂMPAGO.. (publicado em fevereiro/2006 no blog do Marcelo Ariel)

.
Conversa sobre poesia e literatura com minha amiga a escritora Bárbara Lia no msn :

Marcelo diz:
Olá meu anjo...
Bárbara Lia diz:
oi, tudo bem contigo?
Marcelo diz:
Estou no meio de um romance..chamado TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS e você..escrevivendo muito?
Bárbara Lia diz:
Eu estou dodói, escrevendo um romance e algumas poesias...
Bárbara Lia diz:
Como é que a gente afoga anjos?

Bárbara Lia diz:
Ou como a gente desafoga anjos?
Marcelo diz:
É sobre cantores de blues e sambistas que nunca gravaram discos e outras figuras meio parecidas comigo e contigo...artistas em estado puro e bruto..flores selvagens do Ártico
Bárbara Lia diz:

Gostei disto, de ser uma flor selvagem, acho até que vou escrever uma poesia, acho que
Bárbara Lia diz:
Sou mesmo uma flor selvagem,
Bárbara Lia diz:
Eu gosto de blues, e de música sempre, de boa música,
Marcelo diz:
Vou te enviar uma cópia...
Marcelo diz:
Também amo o blues.
há uma corrente secreta ligando o blues e o samba da velha guarda...
Bárbara Lia diz:

Gostaria sim, de ler,
Marcelo diz:
Você está escrevendo um romance? sobre o que?
Bárbara Lia diz:É policial, e infanto-juvenil...
Bárbara Lia diz:
...


Marcelo diz:

hum..policial..oba! adoro Simenon..e Chesterton

...

Bárbara Lia diz:
Falta muito prá concluir,
Bárbara Lia diz:
Eu sou muito tímida prá falar sobre o que escrevo e não sou tão
Bárbara Lia diz:
Erudita...
Bárbara Lia diz:
Minha poesia é mais rica que a prosa, é o que penso...
Marcelo diz:
Talvez não exista a prosa..e tudo seja a poesia sob diversas formas..está será apenas uma questão formal num futuro breve.daqui há cinco minutos...
Bárbara Lia diz:
Na verdade eu acabo sempre misturando e minha prosa é muito poética, e minhapoesia acaba sempre contando alguma história, não é abstrata...
Marcelo diz:
O Lobo Antunes chama os romances dele de poemas..e a vocação da poesia sempre foi essa de desmistificar o real
Bárbara Lia diz:
Ou produzir uma nova realidade, é o que eu tento...
Bárbara Lia diz:
Mas, não sou muito teórica,
Bárbara Lia diz:
Eu sou a bruta flor, quer dizer, selvagem ainda, eu só sei sugar da rocha, a seiva, e não tenho nenhuma teoria... tenho uma ligação com ALGO, que me nutre, eu não sou minha poesia, sou só a condutora
Bárbara Lia diz:
Mas, não sou muito teórica,
Marcelo diz:
O Guimarães Rosa dizia a mesma coisa...
Será que há algum mistério no 'Ato em si' da escritura.
de um poema ou romance?
Bárbara Lia diz:
Há mistério em tudo...
Bárbara Lia diz:
Não tem nada a ver com mediunidade, mas, de uma aspecto mais sublime, como se fossemos mesmo antenas da raça, como dizia Pound...
Marcelo diz:
Vou colocar esse nosso papo no meu blog...posso?
Bárbara Lia diz:
Que responsabilidade!

*

Marcelo Ariel lançou Tratado dos anjos afogados. Também lançou, depois deste nosso bate-papo: Me enterrem com minha AR-15 (Dulcinéia Catadora). Escrevemos juntos a poesia A esfinge na névoa:
.

A ESFINGE NA NÉVOA

Quando a alma
fala
já não fala a alma.
Se o corpo é sua escada
a língua é por onde
ela escapa?

Jamais sairemos
desse labirinto
de falsos silêncios;
Então, por que não cantamos
enquanto afundamos?

Ou por que não nos calamos,
até o fim da névoa
do labirinto
e do silêncio torpe?...

Se a canção da Ursa Maior
não nos alcança,
afundar no canto ausente
das sereias de antes,

e apesar da vitória
deste abismo em nós
de nossa secreta Ítaca
não estamos tão distantes.

Ítaca dentro de nós:
A torre, a amada a fiar o manto,
o cão cego e fiel,
a mesa, o vinho...

Ítaca – a felicidade-
escondida no mar de abismos
e nos labirintos de sal
- nossa casa-alma:
Esfinge na névoa
que sempre encontramos
no final.
BÁRBARA LIA / MARCELO ARIEL

Thursday, June 12, 2008

Poesia na sala de aula


minha flor, com direito a borboleta


A professora Silvia de Almeida Vicentin da Escola Guilherme Butler - da rede municipal de ensino - convidou-me para falar de poesia para seus alunos, dentro de um projeto que ela desenvolve. As turmas? 4ª série. Fiquei feliz com o convite e nesta quarta - dia 11 - passei meu dia entre as crianças. A Silvia fêz uma dupla surpresa - Ela não contou aos seus aluninhos que eu iria. Ela também não me contou que as crianças estavam preparando um recital com minhas poesias. Foi um dia lindo. Algumas alunas fizeram uma espécie de jogral com algumas poesias que elas escolheram, outras optaram por falar sozinhas o poema, e na turma da tarde algumas fizeram poesias para mim. Teve bate-papo, entrevista e troca de poesia. Levei o livro - A última chuva - prá eles. A diretora Maria Inês declamou Mar Português. A escola fica ao lado do Farol do Saber Fernando Pessoa. A Silvia, a Lucimar (a outra professora das turmas de 4ª série) e a diretora Maria Inês presentearam-me com lembranças do colégio e uma linda flor rosa, com uma borboleta voejante. Quando me enviarem as fotos vou publicar aqui. Meu dia ficou MUITO rico e pelos olhinhos brilhantes da meninada sei que o dia delas também.
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os jograis de ontem (lindos!):



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“Grão, o amor da gente é como um grão”
Gilberto Gil
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grão
grão
grão
a cantar
as horas
.
gota
gota
gota
a cantar
a chuva
.
folha
folha
folha
a cantar
o outono
.
bem-te-vi
bem-te-vi
bem-te-vi
a cantar
novo dia
.
lâmina
lâmina
lâmina
a cantar
o amor
.
(Amar é ferir-se
emlâminas
sollasidoremifa)
***

VIOLETAS BRANCAS
.
Sigo teus passos, feito asteca, sonhando
a terra eterna e rica – tua pele.
Pele dos diários, onde leio a lua.
A maré suave que me enlaça nua,
.
écharpe de brisa e aurora, corais gris.
Adeus soledade de pedra. Paloma triste
em vôo riste, ao longe.
O deus-do-sol-do-meio-dia, colibri azul
.
da era atômica, é um sopro de luz e sons.
Sonhos delineados na tela fria.
O mundo sangra e transforma a garça
.
em íbis rubro. Leio um salmo antigo,
acordo em manhãs violetas. Tenho por companhia
um pequeno vaso de violetas brancas.
.
***
***
CLARICE
Dois corações selvagens
na selva do impossível
tão perto que o respirar
deles é transfusão de sangue.
Depois da noite nuclear -
amantes
rompendo o ventre
da laranja mecânica -
a mostrar viva as entranhas
do céu,
nego-me a escrever versos
para amores lúgubres
plenos de tédio
de flacidez no olhar e no abraço
no passo e no sorriso
Depois de Deus...
quem me levará ao paraíso?
Prefiro o inferno na selva.
Dois corações selvagens
Perto...
Perto...
Perto...
***
Flora e Clarice estão no livro A última chuva (ME ed alternativas) - Violetas Brancas em O sal das rosas (Lumme editor)

Saturday, June 07, 2008

a Rodin

Sakountala - Camille Claudel


(...) Como seria gentil se me comprasse uma roupa de banho azul escura com galões brancos, em duas peças, blusa e calça (tamanho médio), no Louvre ou no Bon Marché (de sarja) ou em Tours!
Durmo nua todas as noites na ilusão de que está a meu lado,mas quando acordo já não é mais a mesma coisa.
Um beijo
Camille
.

Sobretudo, não volte a me enganar.

(Camille Claudel 1891)
.

- Sakountala, que Camille concluiu em 1.888, foi a escultura/poema do tempo de felicidade, ainda. Após romper com Rodin ela seguiu com esculturas/poemas que delatavam a dor da perda e uma angústia em pedra - L'âge mur, La implorante, Hamadryade, Le dieu envolé e outras...
Junho tem muitos corações bregas na tv e em toda parte, esta ilusão fóssil de que todos os amores são leves voejantes e cor-de-rosa. O de Camille por Rodin retrata a impotência de uma mulher brigando com furor pela sua arte, e sendo descartada, assim, atirada ao asilo de loucos por trinta anos. O que aconteceu à Camille foi um dos grandes ultrajes à alma feminina, um abandono, como é o subtítulo da escultura - Sakountala - o abandono. Para qualquer um, ainda neste milênio, o espanto se instaura quando uma mulher toma as rédeas de seu querer, proclama seu desejo, desnuda-se em poesia, esculturas, ou de qualquer forma. Rodins ainda existem. E isto é uma pena. Camille pagou um preço alto demais por esta liberdade furiosa. Em uma carta Rodin a chamava - Minha furiosa amiga.

La nave va...

Ilya! (Vmesto Pis'ma) - Bárbara Lia - para Connor Storrie

“Ilya! Vmesto Pis’ma” é o título perfeito para o que escrevi, fulminada de encanto e admiração pela Arte de Connor Storrie. Em lugar de uma...