Tuesday, April 17, 2012

Série: Os Manequins


(...)

Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro ao rubro: se acredito na tua morte começo o suicídio.

(...)
Luisa Neto Jorge
fragmento do poema - Difícil poema de amor.
http://www.truca.pt/raposa_textos/palavras_124_luisa_neto_jorge.html

Série: Os Manequins


corset laced manequins



o manequim de dentro reflexo do manequim de
fora. Se você me olha bem, me vê também no
meio do reflexo, de máquina na mão.

Ana Cristina Cesar

Série: Os Manequins

Via Blush



Os Mannequins de Munique
Sylvia Plath




A perfeição é horrível, ela não pode ter filhos.
Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero

Onde os teixos inflam como hidras,
A árvore da vida e a árvore da vida.

Desprendendo suas luas, mês após mês, sem nenhum objetivo.
O jorro de sangue é o jorro do amor,

O sacrifício absoluto.
Quer dizer: mais nenhum ídolo, só eu

Eu e você.
Assim, com sua beleza sulfúrica, com seus sorrisos

Esses manequins se inclinam esta noite
Em Munique, necrotério entre Roma e Paris,

Nus e carecas em seus casacos de pele,
Pirulitos de laranja com hastes de prata

Insuportáveis, sem cérebro.
A neve pinga seus pedaços de escuridão.

Ninguém por perto. Nos hotéis
Mãos vão abrir portas e deixar

Sapatos no chão para uma mão de graxa
Onde dedos largos vão entrar amanhã.

Ah, essas domésticas janelas,
As rendinhas de bebê, as folhas verdes de confeito,

Os alemães dormindo, espessos, no seu insondável desprezo.
E nos ganchos, os telefones pretos

Cintilando
Cintilando e digerindo

A mudez. A neve não tem voz.

tradução - Cláudia Roquette Pinto



Série: Os Manequins

imagem - hippie chic designs



Afinidades


A costureira, moça, alta, bonita
ancas largas,
os seios estourando debaixo do vestido,
(os olhos profundos faziam sombra na cara),
morreu.
Desde então, o viúvo passa os dias no quarto olhando pro manequim.

Murilo Mendes
                                                    

Saturday, April 14, 2012

Poesia = Interesse Vital e Universal



Poeta quer dizer possesso. Não devemos confundir os artistas do verso com os criadores de Poesia. Os primeiros interessam apenas à literatura, ao passo que os segundos têm um interesse vital e universal, como uma flor ou uma estrela.

Teixeira de Pascoaes, Portugal - 1877/1952

A estátua de Teixeira de Pascoaes situa-se na freguesia de Gatão, Concelho de Amarante - Portugal

Thursday, April 12, 2012

7 quedas


"Foi a maior cachoeira do mundo em volume de água, isso mesmo, foi! Isso porque em 13 de outubro de 1982 as comportas da recém criada Usina Hidrelétrica de Itaipu foram fechadas para a criação da represa de Itaipu inundando as quedas d’água. Para se ter uma ideia de sua grandeza basta compararmos a taxa média de fluxo anual dela com as Cataratas do Niágara (a maior em volume de água atualmente), a Sete Quedas tinha um fluxo de 13.300 m³/s enquanto as Cataratas do Niágara tem hoje 2.407 m³/s. Ela se localizava na fronteira entre o Brasil e o Paraguai fazia parte do Rio Paraná, hoje ela esta localizada no fundo do lago artificial de Itaipu.
As Sete Quedas podiam ser consideradas uma das maiores maravilhas naturais, era uma verdadeira pintura de Deus. Era Constituída por 19 cachoeiras principais divididas em 7 grupos de quedas. A cidade de Guaíra foi construída em 1940 para aproveitar a potência turística da região, foi nessa época que o Brasil e o Mundo começaram a conhecer o Salto Guaíra (outro nome dado ao Salto de Sete Quedas)."

(Hoje recebi um e-mail de um ex-colega de trabalho, Silvio Galli, relembrando uma viagem de 1974, quando visitamos este lugar lindo em uma excursão. Visitei 7 Quedas e sempre penso nisto como uma dádiva, ter tido a chance de conhecer esta maravilha da natureza que deixou de existir)

Wednesday, April 11, 2012

“O pedigree do mel não diz nada a uma abelha”
Emily Dickinson



O rancor dos homens
Contaminou as flores
As abelhas
Morreram de cólera
Adocicada

Último zumbido
Acordou o Sol
Em cadência afinada
Qual canção do Vangelis

Bárbara Lia
A flor dentro da árvore / 2011
pg. 10


A flor dentro da árvore
Poesias
Bárbara Lia
ed. do autor
apresentação do poeta Sidnei Schneider
capa - quarto de Emily Dickinson em Amherst
 

Link para a edição ampliada no formato e-book:

Thursday, April 05, 2012

Cenários


praia do cassino - foto eduardo wilckboldt

- cenário de um dos encontros entre Pablo e Serena no livro Solidão Calcinada -


Bairro Peixoto (Copacabana-RJ) foto Cris Isidoro
Bairro onde vive a personagem Bárbara de Solidão Calcinada. Não é minha biografia este livro, mas, até alguns amigos que sabem que nunca vivi no Rio de Janeiro leram o livro e pensaram que era minha vida. Ainda não contei a minha história.


Centro Histórico de Curitiba - Largo da Ordem - foto Washington Cesar Takeuchi
A personagen Lynx do meu romance - Constelação de Ossos - atravessa a extensão desta rua de pedra em uma das cenas do livro. É o ambiente da cantora de bar, ela trabalha e vive nas proximidades...


Estrada da Graciosa, dá acesso ao bangalô da personagem Nyx, de Constelação de Ossos, na Serra do Mar



Hotel e Restaurante Nhundiaquara - Igor, Lynx e Nyx almoçam neste lugar em uma das cenas de Constelação de Ossos


Wednesday, April 04, 2012




Para Camille, Com Uma Flor De Pedra

Em seu artesanal, delicadamente amarrado com fita de cetim laranja, recebi "Para Camille, Com Uma Flor De Pedra", esculpido pelos dedos hábeis de Bárbara Lia, querida escritora paranaense, das que honram o solo fértil e abençoado, barro que enlameia de emoção, quais as estátuas de Camille e Rodin.
A flor de pedra de Camille é branca, o solo pisado é duro, marmóreo, esculpido em cinzel de prata, em ágeis pinceladas no teclado moderno, contemporizando com o rústico - liso e firme das estátuas em tenro amor-paixão dançando nos olhos vítreos e catalogados azuis de Camille pela ótica não menos carmim de Bárbara Lia.
Camille em francês, Bárbara em português. Distintas línguas, mesma linguagem do amor, da dor, da alma transfigurada em poesia. Assim se apresenta nossa poeta maior: Com Uma Flor de Pedra Para Camille e lia em seu rosto qual performance de Rodin a copiar o sereno das mãos feminis em seus arquétipos e ideais.
Na progressão da obra, Bárbara Lia narra o sofrimento de Camille, uma obra com início, meio e fim. Narrativa poética trágica. Uma estética, uma arte revelando outra arte. A dramaturgia. Um sentimento desvelando tantos outros em pequenos textos ajeitados nas poucas páginas, como perfume francês, menores frascos, melhores fragrâncias e estas são com notas florais, ornando mármores e barros, gentilmente, trabalhados e talhados por mãos de vontade de amor.
Passeando pelos jardins, Sakountala, Rua Notre-Dame-des-Champs, L'Implorante, L'âge Mür (não podem faltar rosas), Hamadryade I com "guirlandas de nenúfares", Hamadryade II "rio petrificado e Danaê alva no ateliê escuro", Le Dieu envolé com todas as pedras talhadas "ignorando o burburinho e voando na sombra" levando almas até Nióbide blésse com o cio insuportável dos felinos, os loucos acordam suas almas sentidas e acenam à Latona, a Deusa da noite clara, num clamor tardio, era tarde, o líquido vermelho escorregadio levou o amor a desaguar em cinzas nos jardins de Ville – Èvrard, nada a fazer, os lençóis de seda se evaporam e o olhar vazio se perde no vácuo dos dias, esperando a Senhora da Noite, levar com pugência seu parto, sua dor, o amor não acabado e vilipendiado pelo egoísmo do amante, que não tinha pés nem mãos, Camille era suas mãos é pés, seu caminho, por isso temia, por isso aniquilava. O horror da superação foi maior, neste instante, mas o verdadeiro se instala pela História e segue nas letras dos poetas sinceros da arte do amor esculpido em tenras folhas amarradas pelos cetins, que a pedra imberbe não corta, respeita e se encolhe. Pois pedras são areias escorrendo pelas mãos, quanto mais seguras, mais escorrem e não morrem, formam o uno indivisível neste deserto de frio de vento forte em ventre vazio.
Com Uma Flor de Pedra. Damos à Camille, neste instante, toda flor e perfume, na maciez da seda, novo amor, novo lume. Mulher solidária, amante da arte, está frente ao tempo ido e louvamos Camille, estorvamos espinhos, acenamos às rosas e passeamos pelos jardins de Ville-Évrard, calmamente, loucamente amando e criando fantasias, através do amor humano e real. Bárbara, só temos a agradecer, por ter suscitado esta história, para que a pudéssemos reviver, em outras esferas, outras eras, com mais pudor, mais alvorecer, mais luz e lume a aquecer os corações partidos, que se agigantam fugindo dos redemoinhos do egoísmo ancestral. Podemos passear pelos cenários, podemos interagir e sentir podemos, antes de tudo, partilhar.
Bárbara mergulhou nas ondas de Camille (The Wave - 1897) e trouxe nas bordas das marés textos rebordados, estranhamente buscados no fundo d'alma.

Professora Kátia Torres Negrisoli – Adamantina (SP)



Sakountala
 
 
Cinzel de prata esculpindo pés
Cada fagulha vermelha
um fio de cabelo do amor

Cinzel de prata treme
acende astros
de um azul escuro
em meu olhar algodão.

Rodin!
Rodin!

Tantos pés teci
em mármore angustiado
-trilha de pés moldados-

esquerdo / direito
esquerdo / direito
esquerdo / direito
esquerdo / direito

Tantos pés
emprestei-te
para ter-te assim
ajoelhado
enlaçado
abismado
abandonado

Augusto espectro
de fogo
onde queima
a aurora

Sei!
Tudo isto
é mármore!


Antes
foi carne
vermelho abandono
amor petrificado

Antes do fim
às margens
do Rio Loire
nossa carne carmim
foi mármore.

Bárbara Lia
Para Camille, com uma flor de pedra
21 gramas - inventário poético by Bárbara Lia
texto de apresentação Kátia Torres Negrisoli
desenho da capa: Brenda Santos - http://oscaprichosdemaria.blogspot.com.br/

Tuesday, April 03, 2012

A poeira do tempo - Angelopoulus



A verdadeira utopia é a terceira asa do anjo.
Não encontro um vídeo com legenda em português.
O enredo deste filme de Theo Angelopoulos - Um cineasta americano, de ascendência grega, realiza um filme que conta a sua história e a dos seus pais. O filme se desenrola na Itália, Alemanha, Rússia, Cazaquistão, Canadá e E.U.A. Uma história que é, ao mesmo tempo, uma grande viagem por acontecimentos dos últimos cinquenta anos que marcaram o século XX.
A história de amor de seus pais traz uma dança ao lado de um rio, separações e reencontros. Na atualidade o cineasta, recém-separado, luta para entrar em contato com a própria filha. Não o contato físico, mas, aquele conhecimento de alma a alma, o encontro necessário. Willian Dafoe e Bruno Ganz estão magníficos neste filme. A poesia baila e é a poeira do tempo. O cineasta morreu há pouco tempo, e a frase dele imprime a importância deste filme...
“A casa é onde nos sentimos em equilíbrio”

+ sobre o cineasta Theo Angelopoulus:
http://abraccine.wordpress.com/2012/01/27/theo-angelopoulos-1936-2012/

Thursday, March 29, 2012

O céu do Ceará

Lua e estrela, tentativa de registrar a poesia da imagem com a câmera digital... Fortaleza, Segunda-Feira (26/03)

Wednesday, March 28, 2012

Chuva & Macaxeira

As águas de março fechando o verão.
Vida em família.
Amparo.
Minha mana me levou ao show do Chico Buarque.
Minha filha Tahiana cumpriu a velha promessa de me mostrar Fortaleza, a praia do Futuro. A cidade molhada, o céu do nordeste bordado de chuva. Peixe, pirão e promessas: Cuidar melhor de mim. Quero a vida e estes amores. O sorriso do neto, passear com a filha por uma calçada plena de mar e sol. Um poeta pode despir tudo, não levar seus livros, nem anotações, nem memória de que é poeta. Pode pensar - preciso um tempo. Pode tentar ficar a sós com os seus, e sem mais nem menos, assim, olhando o horizonte em algum lugar, sem querer e quando menos espera brota um poema -

"Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol"

Impossível separar a poesia do poeta. Rimbaud já está dentro do sangue, como ele dezenas de poetas... Versos bailando na Avenida Beira Mar...
Fortaleza... Muita chuva, macaxeira e cerveja.
Peixe, Pirão, Poesia.
Trégua.
As velas do Mucuripe...
Os barcos atirados ao mar...


Sunday, March 25, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (XII)


Jan Saudek



"Só quando não procuro encontro. Versos, chaves de gavetas fechadas, namorados, botões, Deus. Batalho arduamente em vão e depois, sem esforço, sem fazer nada por isso, quando já não batalho, ganho, vejo que ganhei. Foi assim com o primeiro poema que escrevi, o da Faruk. Com a postura do candelabro do yoga, que não havia meio de conseguir atingir. Com o primeiro beijo dado por um rapaz. Com Deus. Tento tento e falho. Mas por tentativa e erro, a subir e a cair, a fazer e a desfazer, tenho conseguido tudo o que quero. Vejo que passei a vida a escalar uma montanha com uma pedra às costas e que agora cheguei ao alto e fiz um pic-nic de burguesas."

Adília Lopes
(Crónicas do meu moinho)

Adília Lopes, pseudônimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, (Lisboa, 20 de Abril de 1960) é uma poeta, cronista e tradutora portuguesa.



***

Amei uma mulher com cheiro de céu na altura do coração. No silêncio dos dias, longe dela, eu a lembrava e chorava. Chorava repentinamente em qualquer lugar. Bastava lembrar o perfume suave da sua alma e a luz que dela emanava. Era o silencioso Dharma a nos enlaçar. Era outra história. Era uma fragrância de outra esfera. Sutil, quase inodora. O céu não tem cheiro de nada. Inodoro. Cheiro de Luz Branca. Branco. Branco. O inferno exala no ar Chanel n° 5. Forte como farfalhar de sedas vermelhas. Chanel n° 5 - o cheiro do inferno.

Bárbara Lia
(Coreografia do Caos - Books on line Germina/2011)
http://www.germinaliteratura.com.br/booksonline_barbaralia/booksonline_barbaralia.htm

Friday, March 23, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (XI)

Magritte



Ar


É da liberdade destes ventos
que me faço.

Pássaro-meu corpo
(máquina de viver),
bebe o mel feroz do ar
nunca o sossego.

Olga Savary  (1933)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Olga_Savary




Pulmão de Deus

Sussurro suave ao redor, nuvem
de seda embalando astros.
Aqui, onde respira a vida,

perfume de malva, silêncio de córrego
entre pedras. Ar lúcido de luz.

Bárbara Lia
O sal das rosas (Lumme editor/2007)

Thursday, March 22, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (X)


from The Window

you are my bread
and the hairline noise
of my bones
you are almost
the sea
Diane di Prima
 

 
(...)
 
Hedged about with primroses
with promises
The magic words we said when we were praying
Have formed a mist about us...
Diane di Prima
Ode to Keats, 2, The Dream (Versos finais)

***

“I think the poet is the last person who is still speaking the truth when no one else dares to. I think the poet is the first person to begin the shaping and visioning of the new forms and the new consciousness when no one else has begun to sense it; I think these are two of the most essential human functions” - Diane di Prima

 
***

Diane di Prima nasceu em 1934 no bairro do Brooklyn, em Nova Iorque. Seu primeiro livro chama-se This Kind of Bird Flies Backward, publicado originalmente em 1958. Tornando-se um elo entre os poetas da Costa Leste e Oeste norte-americanas, Diane di Prima conhece e envolve-se no fim dos anos 50 e início dos 60 com os Beats de Nova Iorque e San Francisco, vivendo por alguns anos entre as duas cidades. A poeta fundou o Teatro dos Poetas de Nova Iorque (New York Poets Theatre), e ainda a Editora dos Poetas (Poets Press), que publicou alguns de seus companheiros. Com LeRoi Jones (mais tarde conhecido como Amiri Baraka), editou a revista The Floating Bear (1961 – 1969). Diane di Prima passou a estudar o budismo após conhecer Suzuki Roshi, e se ligaria ainda à comunidade de Timothy Leary em Millbrook.
A poeta nova-iorquina publicou alguns de seus livros mais importantes na década de 70, como Revolutionary Letters (1971) e Loba (1978). As "Cartas revolucionárias" estão ligadas a seu ativismo político com o grupo conhecido como "The Diggers", fundado por Emmett Grogan (1943–1978) – a quem Bob Dylan dedicou seu álbum Street-Legal (1978).
fonte: modo de usar & co.
http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2008/02/diane-di-prima.html



***


O que a onda diz ao cão sentado babando moluscos e saudades?
Como rasgar a onda sem cicatrizar em azul?
Beber a ardência seminal de amantes afogados
Como quem engole segredos guardados entre debruns de ondas
Em seu giz rendado.
Bárbara Lia
- Tem um pássaro cantando dentro de mim/2011


***


Os grandes poetas do mundo são em número bem menor que as estrelas. Talvez por isto o Céu extasie e a Terra gema entre ogivas e axés.
Bárbara Lia

***


"Escanear os céus com um ar suspeito”


Não olhes o sol
A olho nu
Isto se chama
Violentar Deus
Irado, Ele abrirá
Escaras em tua retina
Abrirá o portal
Do abismo
Para cegar teu olhar
Que ousa afrontar
A Luz!


Bárbara Lia
A flor dentro da árvore / 2011                                                                                               Salvador Dali
                                                                                                          

Monday, March 19, 2012

AC / DC

Antes do Chico / Depois do Chico

Sampa 18 de março

O carro entra pelo portão de acesso ao espaço HSBC e eu vejo: O homem magro, de camiseta grafite e sorriso no rosto, apressado, iluminado. 45 segundos foi o tempo em que, em minha vida, convivi com o mito. Aquele mesmo cantor que abriu os olhos da menina do interior com as letras a imprimir um tempo. A adolescência ouvindo Roda-Viva e Apesar de Você. Enquanto naquela cidade pequena os garotos subiam ao palco do Cine Vera no programa de calouros para cantar as canções da Jovem Guarda, as canções de Wanderley Cardoso, Jerry Adriani e outros. Eu esticava o olhar para as páginas das revistas e aumentava o volume do rádio quando ouvia outros nomes,  outros caras. Era Luz maior. Luz! Quero Luz! Os nossos ícones despontavam e eu era a menina estranha e diferente que se alimentava de Bob Dylan, ecos de Woodstock, Chico Buarque e Caetano Veloso. Não tinha com quem dividir os meus ídolos, somente quando passei no vestibular e fui viver em outra cidade, encontrei outras pessoas, outras cabeças, outros meninos ávidos como eu.  Lembro o refrão naquele dia de luz diferente, cantando Gilberto Gil - No Woman Cry...

Bem que eu me lembro
Da gente sentado ali
Na grama do aterro, sob o sol
Ob-observando hipócritas
Disfarçados, rondando ao redor...

Amigos presos
Amigos sumindo assim
Prá nunca mais
Tais recordações
Retratos do mal em si
Melhor é deixar prá trás...

Não, não chore mais
Não, não chore mais
Oh! Oh!
Não, não chore mais
Oh! Oh! Oh! Oh! Oh!
Não, não chore mais

No tempo em que o ziper da tirania foi apodrecendo e as almas saíram do calabouço, aquelas que traziam a carne colada ao corpo ainda, as asas dos que não morreram se abrindo, suturadas (ou não) e a Anistia (ainda que tardia) comemorada, por nós, em um churrasco à beira de um lago, com violão e as canções.
Ah! As canções.
Então, sei que o poeta-mor entendeu as palavras tortas, múrmurio do avesso, de alguém que tenta dizer em trinta segundos - Obrigada! Como explicar em uma frase a importância de sua obra em minha vida. Guardar a fotografia como quem guarda um momento íntimo. Ele que é avesso a estas coisas todas. Não vou mostrá-lo fora do palco. Valeu, pela brevidade e pelo encanto. Pelo canto e pelo sorriso. Pela partilha da beleza na noite deste março... e uma poeta volta a ser menina.
Minha irmã caçula esteve aqui no Natal e disse - Teu presente é só em março.
O presente era um ingresso para o mergulho na Poesia, era para estar em um Show de Chico Buarque.
A Fá, minha irmã, disse que aprendeu a gostar de MPB por minha causa, e ela se sente muito feliz com isto. Por ter convivido com alguém em um recanto de um País que expande a alma para descobrir a beleza que tem um nome no topo: Chico.  Um compositor. Um cantor. Um escritor. Um Poeta (sempre). Um homem. Nosso expoente maior. Unanimidade sempre.
A platéia tem meninos com seus pais, universitários, os velhinhos e seus cabelos brancos. Não, eu não vou chamar esses caras de idosos. Somos velhos, eu estou ficando velha. E amo esta palavra - Velho.
Os músicos que acompanham Chico Buarque são sensacionais, a iluminação perfeita e no palco os painéis davam o toque final, uma alegoria brasileira, deste brasileiro que a gente aprendeu a amar para sempre...
Uma delícia Chico e Wilson das Neves cantando -- Tereza da praia. Bia Paes Leme em - Se eu soubesse. E a surpresa maior, ouvir aquelas canções. Aquelas que embalaram a minha vida. Todo Sentimento e Choro Bandido entre tantas. As inumeráveis noites, o desabrochar da vida, ter alguém que sabe cantar a real essência de uma mulher. E pra terminar, aquele voo para bem longe com os acordes belíssimos de Futuros Amantes...



Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização


Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você







painel de Cândido Portinari


Chico Buarque e Wilson das Neves - Maravilha!



Chico Buarque de Hollanda



(não tirei muitas fotografias, pra não distrair minha alma, melhor nadar neste som - Valeu, Chico!)

Tuesday, March 13, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos IX

Salvador Dali



O Avental




No centro da casa,
uma vertente.
No centro do movimento,
o avental de minha mãe.
As toalhas jamais
sabiam secar-me.
Ali acalmava as mãos
interrompidas de voar.
Ali as lágrimas
e toda a trégua.


Maria Carpi
(Nos Gerais da Dor)

Maria Carpi, natural de Guaporé - RS (1939).
BIBLIOGRAFIA:
- NOS GERAIS DA DOR, 1990. Ed. Movimento.
- DESIDERIUM DESIDERAVI, 1991. Ed. Movimento.
- VIDÊNCIA E ACASO, 1992. Ed. Movimento.
- OS CANTARES DA SEMENTE, 1996. Ed. Movimento.
- A MIGALHA E A FOME, 2000. Ed. Vozes.
- A FORÇA DE NÃO TER FORÇA, 2003. Ed. Escrituras.




++++++++++++++++++++++++++



se eu pudesse ter o presente impossível
pediria os olhos mel de minha mãe
eles me viam inteira
- um cata-vento topázio eclipsando o cinza
sem o mel
que me cobria
em alguns dias sou cinza;
em outros - cata-vento
e entre eclipses sazonais:
topázio.

Bárbara Lia
A última chuva
(Mulheres Emergentes/2007)

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Monday, March 12, 2012

3 Sonetos no Jornal Rascunho




No ano passado escrevi alguns sonetos, com liberdade poética emprestei a voz de alguns personagens dos poemas de Fernando Pessoa. Os poemas são todos de despedida - Neera se despede de Ricardo Reis, a Chuva se despede de Bernardo Soares e eu me despeço de Fernando Pessoa, no soneto - Ausência de Fernando. Os poemas estão na edição de março do Jornal Rascunho, no link abaixo, com belas ilustrações de Rafa Camargo:



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Sunday, March 11, 2012

La nave va...

Ilya! (Vmesto Pis'ma) - Bárbara Lia - para Connor Storrie

“Ilya! Vmesto Pis’ma” é o título perfeito para o que escrevi, fulminada de encanto e admiração pela Arte de Connor Storrie. Em lugar de uma...