Monday, August 14, 2006

Elegia tardia



O pai abrindo a cripta pequena
- Branca-
Apoiada em seus joelhos
No terceiro degrau da escada
Escura
- Venham dizer adeus ao irmão!
Pedro nunca entrou na nossa casa;
Pedro nunca saiu do meu coração

A mãe procurando a tosca cruz
O coveiro confirmando o despejo
Pedro virou pedra revirada
Despejados os seus ossos
Com mortalha de nuvens e tudo
A mãe sugada
- Olhar de pedra fria-
No redemoinho da certeza
Da iniquidade da pobreza

As estrelinha fraturadas
Que me espiam em noites
De êxtase ou de amargura
São ossinhos de Pedro
- O anjo despejado -


Bárbara Lia

Saturday, August 12, 2006

AS ROSAS MORTAS A ME CONTEMPLAR






Quando eu era menina
tinha medo da cortina
que lembrava
o quintal do mal.
Era adornada de pecado,
rosas em gritos menstruais
sangrando folhas descomunais.
Durante o dia, eram bizarras;
na noite me assombravam
formando rostos
na contra luz da lua azougue.
Eu farfalhava no colchão,
cerrava os olhos,
me encolhia em posição fetal.
Nunca disse à irmã ao lado,
nem à mãe
(que trocaria a cortina, para minha paz).
Eu nasci de frente para os fantasmas.
Contemplo.
Não expulso.
Não acendo a lâmpada.
Enfrento.
No quarto escuro
(agora da alma)
os mil rostos
de rosas mortas
a me contemplar.

BÁRBARA LIA
O sal das rosas
Lumme editor

Monday, August 07, 2006

Stuart Angel






















.
Stuart Angel


Quando Stuart Angel entrou para a luta armada eu vivia no paraíso - um quintal com árvores frondosas e balanço, o poço, o casarão negro da avó e poemas atirados dia e noite, lambendo paredes. Do amor, eu sei que ele é profundo, pois meu pai recitava Gonçalves Dias:

I.

Emfim te vejo! — emfim posso,
Curvado a teos pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pezar de quanto soffri.
Muito penei! Crúas ancias,
Dos teos olhos afastado,
Houverão-me acabrunhado,
A não lembrar-me de ti!



Havia a ira de Castro Alves em poemas épicos. Havia uma indígena calada que preferia as novelas do rádio aos recitais de sua sogra e de seu marido - minha mãe. Havia o irmão que me ensinou a ser goleira e a lama em que a gente se atirava, pois era vital salvar o gol, pular enquanto o sol nos cobria de vermelho morrendo, sem eu saber que morriam muitos sóis de esperança, na pele de meninos guerreiros, que acreditaram um dia, com toda fé que existe, que poderiam mudar o mundo... Havia uma varanda onde a cadeira de balanço rangia e acordava as estrelas. Havia uma biblioteca onde eu me escondia e lia, lia, lia, enquanto ia me embriagando com o cheiro de canela, esperando os bolinhos de chuva, a primavera da minha vida.
Meu pai comemorou o assassinato de Marighela - Um comunista a menos! Ele disse. Não havia razão para que eu gravasse tão nitidamente estas palavras quando ele ouvia a notícia naquele rádio Semp que ficava acima de nossas cabeças onde minha mãe ouvia a Ave-Maria, deixando sempre ao lado um copo de água e uma fé que até hoje não entendo. Meu pai dizia que eles eram terroristas. Eu não sabia que os "terroristas" seriam meus irmãos de sonhos, não sabia que um dia o Frei Vermelho, seria meu amigo.
Stuart Angel teve uma das mortes mais sórdidas de todas as mortes sórdidas do tempo da ditadura. Zuzu Angel foi a única que nunca desistiu de punir os assassinos. Nenhum regime de governo deve dar aos governantes o direito de passar por cima dos Direitos Humanos. Zuzu sabia disto. Por muito tempo acreditei em alguma tolice que li em um desses jornais ou revistas tipo Veja, que Stuart não era um militante e que foi preso por que sua mulher Sonia era do Partido Comunista. Via nele um mártir e não um guerreiro. Por muito tempo eu tive uma imagem distorcida de Tuti, como Zuzu o chamava. Por muito tempo eu não conseguia pensar na crueldade que foi a morte dele sem ter pena da raça humana.
Vi o filme, e fiquei com a canção do Chico uma noite um dia, ecoando, ecoando.

Zuzu Angel - dirigido por Sérgio Rezende, com Patrícia Pillar (Zuzu Angel); Daniel Oliveira (Stuart Angel); Leandra Leal (Sônia); Luana Piovani (Elke Maravilha); Paulo Betti (Carlos Lamarca); Nelson Dantas (Antônio Lamarca); Antônio Pitanga; Elke Maravilha. 

No filme, resgataram alguns atores do filme Lamarca. Eu confesso que não sabia que as torturas que aniquilaram Stuart era para que ele confessasse o paradeiro de Lamarca e a cena tocante de Zuzu visitando o pai de Lamarca traduz a impotência diante do poder. Nelson Dantas em uma interpretação sublime, os grandes também morrem. Mas, antes nos dão lições, Nelson Dantas era grande.
Descobri uma foto do Stuart, pois Daniel de Oliveira é apenas o ator, excelente, magnífico, no entanto, breve ele estará incorporando meu amigo Frei Betto em Batismo de Sangue. Antes, ele foi Cazuza... É preciso lembrar os rostos verdadeiros, o jeito calmo de Stuart. Foi assim que ele foi mostrado no filme, uma vida cortada na raiz, como tantas outras vidas.

Friday, August 04, 2006

DIANTE DA JANELA, O ROSEIRAL - BÁRBARA LIA - O SAL DAS ROSAS



 

Testamento enterrado

À sombra do roseiral:


Deixo meu violão para a balconista da padaria

A erva benta para a velha do sobrado

A chaleira que chia Villa-Lobos

Para Frei Gustavo, que costura almas

Nas manhãs de quarta

O livro de poesia de Augusto dos Anjos

Para o cobrador do expresso 022


Assinado: A menina dos olhos tristes

Chico me chamava de Carolina

Mas era só um disfarce

Sou eu a menina

Que viu o tempo passar na janela

Sem ver


Bárbara Lia
O sal das rosas
Lumme Editor


Thursday, August 03, 2006

Orgasmos de íris - Bárbara Lia




Teus olhos enlaçavam os meus
Em orgasmos de íris
Inflorescência de estrelas

Sempre acordo antes do sol
Agora - que comecei a te amar -
Amanheço antes que o dia

Espanto as Bacantes gélidas
Que seguem o perfume da tua pele -
lírio do recomeço -

Pedras destilam a bílis
E a mágoa vai vazar em áridas notas
De um blues sem juízo

As sapatilhas – talismã – azuis
Seguem-te em paralela senda
A dez centímetros e um véu

O mar recua ante teu passo
Estátuas vertem suor ao teu lado
Dentro o sol não te permite sombra

...E teus olhos enlaçavam
Meus olhos
Em orgasmos de íris

BÁRBARA LIA
NOIR
Edição da autora 

Wednesday, August 02, 2006

ICARABE

Encontrei esta carta, publicada no site ICARABE. Senti uma ternura ao ter este pensamento - que os artistas são sempre os que libertam os pássaros brancos, como se os artistas traduzissem uma vontade acima, um degrau acima, uma esperança que ninguém vê:

CARTA AOS CINEASTAS PALESTINOS E LIBANESES


Na ocasião da abertura da Bienal do Cinema Árabe em Paris (22 de julho de 2006)
Nós, cineastas israelenses, saudamos todos os cineastas árabes reunidos em Paris para participar da BIENAL DO CINEMA ÁRABE. Por intermédio de vocês, queremos enviar uma mensagem de amizade e solidariedade aos nossos colegas Libaneses e Palestinos que estão atualmente acossados e sendo bombardeados pelo exército de nosso país.Nós somos categoricamente contra a brutalidade e a crueldade da política israelense, intensificadas ao máximo nas últimas semanas. Nada pode justificar a continuidade da ocupação militar, do cerco e da repressão na Palestina. Nada pode justicar o bombardeio de populações civis e a destruição das infraestruturas no Líbano e na Faixa de Gaza.Permitam-nos dizer a vocês que os seus filmes, aos quais fazemos tudo para assistir e circular entre nós, são muito importantes para os nossos olhos. Esses filmes nos ajudam a conhecer e a comprender vocês. Graças a esses filmes, os homens, as mulheres e as crianças - que sofrem em Gaza, em Beirute e em todos os lugares em que nosso exército exerce sua violência - , têm, para nós, nomes e rostos. Queremos agradecer-lhes por terem feito esses filmes. E também encorajá-los a continuar a filmar, apesar de todas as dificuldades.No que diz respeito ao nosso trabalho, mantemos o compromisso de expressar - por meio de filmes, de ações pessoais e de voz elevada - , nossa oposição categórica à ocupação militar israelense. E de expressar também nosso desejo de liberdade, justiça e igualdade para os povos da região.
Nurith Aviv / Ilil Alexander / Adi Arbel / Yael Bartana / Philippe Bellaiche / Simone Bitton / Michale Boganim / Amit Breuer / Shai Carmeli-Pollack / Sami S. Chetrit / Danae Elon / Anat Even / Jack Faber / Avner Fainguelernt / Ari Folman / Gali Gold / BZ Goldberg / Sharon Hamou / Amir Harel / Avraham Heffner / Rachel Leah Jones / Dalia Karpel / Avi Kleinberger / Elonor Kowarsky / Edna Kowarsky /Philippa Kowarsky / Ram Loevi / Avi Mograbi / Jud Neeman / David Ofek / Iris Rubin / Abraham Segal / Nurith Shareth / Julie Shlez / Eyal Sivan / Yael Shavit / Eran Torbiner / Osnat Trabelsi / Daniel Waxman / Keren Yedaya

Monday, July 31, 2006

Vinícius



















"A arte não ama os covardes"


"Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores?"


Vinícius - simples assim - Vinícius apenas, o corpo todo que ri a alma toda que voa o coração que não cessa de amar, infinito sempre, olhar que acende lá no fundo do poeta a luz-farol da busca, pescando musas pela vida, amando-as enquanto há amor para dar, procurando - a eterna primavera prá só depois morrer - foi feliz? como chico diz no documentário, a felicidade... se o fosse não buscaria em ânsia embebida em uisque o amor. O que se tem ao final do filme VINÍCIUS é um desejo de VIVER, de viver a poesia, mais que escrevê-la viver na noite na boêmia na indignação na partilha, quem disse que um boêmio não pode escrever em refinada dor uma Rosa de Hiroshima, um Orfeu Negro, um canto de beleza aos orixás, quem diz que um boêmio não sabe que o homem é acima de tudo quem olha e fica indignado, que se magoa, que chora de saudade do primeiro amor, que na velhice ainda diz de quantas vezes teve vontade de bater à porta daquela que foi entre todas as amadas a mais amada e pedir um colo - orgulho de dois lados pode destruir mesmo um paraíso - e o medo, ele teve medo, ele disse. Lindo Vinícius, me fez ter vontade de balançar na lua, aquela lua em formato de rede de luz, aquela lua que por vezes me acena como se valsar no universo infinito fosse possível, dormir ao som do bandolim das estrelas, lembrar o tempo em que tínhamos um violão uma saudade e uma garota de Ipanema, e um poeta, sem frescura, um poeta na carne, na alma, na ânsia de vida que vida sem ânsia não é nada.
*
Medo de amar

Vire essa folha do livro e se esqueça de mim
Finja que o amor acabou e se esqueça de mim
Você não compreendeu que o ciúme é um mal de raiz
E que ter medo de amar não faz ninguém feliz

Agora vá sua vida como você quer
Porém, não se surpreenda se uma outra mulher
Nascer de mim, como do deserto uma flor
E compreender que o ciúme é o perfume do amor

Vinícius de Moraes

Direção: Miguel Faria Jr. Roteiro: Miguel Faria Jr. e Diana Vasconcellos, com colaboração de Eucanaã Ferraz Produção: Miguel Faria Jr. e Susana Moraes
Elenco
Camila Morgado/Ricardo Blat/Renato Braz/Yamandú Costa/Adriana Calcanhoto/Olívia Byington/Mônica Salmaso/Mariana de Moraes/Zeca Pagodinho/Mart'NáliaMS/ BomNego JeffLerov/Antônio Cândido/Caetano Veloso/Carlos Lyra/Carlinhos Vergueiro/Chico Buarque/Ferreira Gullar/Edu Lobo/Francis Hime/Georgiana de Moraes/Gilberto Gil/Luciana de Moraes/Maria Bethânia/Maria de Moraes/Miúcha/Susana Moraes/Tônia Carrero/Toquinho
O elenco e Chico Buarque lindo e descontraído e recordar Vinícius, só isto já faria valer a pena, no entanto, todo o resto é mesmo um banho de desejo, de viver... VIVER! Saravá, Vinícius!



Friday, July 28, 2006

memórias de uma gueixa































Memórias de uma gueixa - baseado no livro de Artur Golden.
"uma gueixa é uma obra de arte em movimento"
O jardim oriental e as cerejeiras. Aléia de bambus. Os vapores do chá. O amor contido, guardado entre a seda do quimono por uma vida. A guerra que destrói a beleza. A sutileza inteligente provando que a beleza é papel de arroz e estraçalha e deve ser apenas o complemento daquela banhada na sabedoria adquirida, roubada da dor, rasgada por entre as frinchas dos sonhos. Uma poesia o cenário, os gestos e a música oriental, uma história que deve me ensinar a amar silenciosamente.
Memórias de uma gueixa ganhou 3 Oscars, nas categorias de Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia e Melhor Figurino. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Trilha Sonora, Melhor Som e Melhor Edição de Som. Ganhou Globo de Ouro de Melhor Trilha Sonora, além de ter sido indicado na categoria de Melhor Atriz - Drama (Zhang Ziyi)

Thursday, July 27, 2006

Livro do Desassossego


"Tenho fome da extensão do tempo, e quero ser eu sem condições."
"Eu não sou pessimista, sou triste."
"Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e o mistério de ambos."

"Uns governam o mundo, outros são o mundo."
"O sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite correm na cidade do seu espírito do mesmo modo que as da realidade."
"Escrevo demorando-me nas palavras, como por montras onde não vejo, e são meios-sentidos, quase-expressões o que me fica, como cores de estofos que não vi o que são, harmonias exibidas compostas de não sei que objetos. Escrevo embalando-me, como uma mãe louca a um filho morto."
"Tenho ternura, ternura até às lágrimas, pelos meus livros de outros em que escrituro, pelo tinteiro velho de que me sirvo, pelas costas dobradas do Sérgio, que faz guias de remessa um pouco para além de mim. Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar - ou talvez, também, porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos por sentimento que o dar, tanto vale dá-lo ao pequeno aspecto do meu tinteiro como à grande indiferença das estrelas."

Fragmentos:
Livro do Desassossego
ÁTICA, LISBOA, 1982
BERNARDO SOARES
(um dos heterônimos de Fernando Pessoa)

Wednesday, July 26, 2006

Líbano
















SOB O CÉU DO LÍBANO
(Le Cerf Volant, de Randa Chahal Sabbag, LIB/FRA, 2003)
A atriz Flávia Bechara que interpretou Lamia no filme.
Vi recentemente este filme e sonho que as crianças do Líbano possam sair livres de casa para soltar pipas.

LIBANO
O dia nasceu vermelho, diferente daquele tom de luz que rompe o horizonte em todas as manhãs. Vermelho da cor do sangue das crianças do Líbano. Foi de outro tom a manta de céu que se estendeu diante da minha janela. Corri para apanhar a máquina fotográfica, mas, tive zelo de mãe e não acordei nenhuma das "crianças" para perguntar em que raio de lugar elas enfiaram as pilhas... Eu me perdi no silêncio entorpecido das manhãs em que me ponho a ver o sol nascer. Tomei um banho e segui ao colégio. Na esquina eu vi a placa de um carro e não pude deixar de pensar no apocalipse - 6666 - não lembro a cor do carro, não vi a cara do motorista, apenas gelei na manhã de presságios estranhos e pensei no número da besta, no sol que nasce sangrando.
...Na escola, quando começaram a definir e distribuir os países para a - festa das nações- eu entendi o sol que sangra, o nº da placa do carro com gosto de extermínio e crueldade, e a minha decisão estava tomada - escolhi o Líbano.
A cultura árabe e toda a poesia. O Líbano que agora sangra, como o sol de hoje, vai ser para as crianças do Líbano o carinho da minha turma de meninos do Sul do Brasil. Resgatar alguma esperança, quiçá, quiçá celebrar o fim da matança...

Monday, July 24, 2006

agenda


TERÇA 25 julho 2006:

Porão Loquax especial com Microfone Aberto
Traga seus textos ou de autores que você gosta e venha ler no Porão Loquax.
entrada R$1,99
WONKA BAR - Trajano Reis, 326




CARPINEJAR LANÇA LIVRO EM CURITIBA
Sessão de autógrafos de "O Amor Esquece de Começar" acontece na terça (25/7), a convite da Livrarias Curitiba. O poeta e cronista gaúcho Fabrício Carpinejar é o convidado especial de julho da Livrarias Curitiba, no dia do escritor (terça, 25/7). O autor fará leitura de textos e autografará seu novo livro "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 286 páginas, R$ 35), às 19h, na Livrarias Curitiba, da Megastore do Sopping Estação (Shopping Estação - Loja 1108 - Centro Telefone: (41) 3330-5118).


NO CANAL FUTURA:- no dia do escritor 25/07:
- 20h30m -Todas as Letras (Monteiro Lobato)
- 21h30m - ao vivo, o Sala de Notícias em Debate, que discute a profissão de escritor no Brasil.
- 22h30m - Todas as Letras - segunda parte (Fernando Pessoa)
e encerra com umas palavras - Bia Correa do Lago entrevistando Jostein Gaarder, autor de - O livro de Sophia *
Durante a programação do dia do escritor uma série de interprogramas que homenageiam o escritor Mário Quintana. As peças foram produzidas pela UPF TV, a televisão da Universidade de Passo Fundo, parceira do Canal Futura.

http://www.futura.org.br/main.asp

Saturday, July 22, 2006

Amigos

Saudades de Mano Melo, e me cai um poema na caixa de e-mails falando do Mano Melo. Então eu raptei o poema e mais um do Mário Pirata, para dizer que quando tem este sol e céu e tudo aquece, eu penso no meu doce amigo do Rio de Janeiro - Mano Melo - esta pessoa solar:

CAFÉ COM MELADO
o sábado acordou
com céu cor de caramelo
eu fui tomar café
e lembrei do Mano Melo
MÁRIO PIRATA

OFERENDA

dia desses te dou uma estrela
pequena e maluca
daquelas que cirandam
nas saias das ciganas
e caem
penduradas da ponta dos cabelos
das mulheres apaixonadas e menstruadas
dia desses te dou uma estrela
maluca e pequena
MÁRIO PIRATA

site do Mário Pirata, poeta, artesão e brincadeiro, de Porto Alegre
http://www.ailha.com.br/mariopirata/

Monday, July 17, 2006

A colheita da beleza - Bárbara Lia

A COLHEITA DA BELEZA


Cão fiel e bizarro
Que esconde
Estrelas no olhar
A seguir teus passos,
Bebendo esta tua distração:
Mão esquerda
No bolso do jeans;
Mão direita
Segurando o cigarro.
Na memória a voz lavada
Em leveza:
- Eu sou um cara mau!
Do que sei da vida, amor
Os 'bons' enterram belezas
Vestidos de branco-asco
E asas de plástico
Os 'maus'?
Colhem a beleza em prantos.
Pés descalços na terra quente
Colhendo flores brancas
Para o funeral da felicidade

BÁRBARA LIA

- do livro inédito NOIR

Saturday, July 15, 2006

O aleph azul de Borges






O Aleph Azul de Borges

 

 

 

Deixastes aqui teu coração

Aleph azul

Povoado de tigres brancos

E miragens. Pulsa nessa

Milonga Del Angel

Primavera desprotegida

Acordes de Piazzola

 

 

Nuvens brancas

A acenar certezas:

Teu coração Aleph azul

Permanece

– Suave ritmo del sul -

 

Deixastes um Livro de Areia

- Tu’alma -

Viramos suas páginas

Neste deserto metafísico

- Noturno e trágico -

Que leva à aurora nítida

Do reino da poesia

 

Deixastes aqui teu coração

Aleph onde trafegam signos

Mesmo que tenhas imprimido sonhos

Em grego, sânscrito ou aramaico

Deciframos – em alfa –

Tuas mensagens de estrelas

 

És um vaso vazio de segredos

Pleno de sóis & luas & signos

Da nobreza

Em uma azul sinfonia

Que teces entre teus dedos

Enquanto apontas:

 

A eterna água, o ar eterno

Flanando em um vale de sombras

E a inscrição em fios de ouro

- Não existe tempo –

 

Guardiões do impossível

Levamos ao pescoço a ampulheta

Como homens-bombas

Explodindo a vida

Sem seguir teus passos-acordes

 

 

Cegos, não percebemos

A inutilidade da areia

Que cai gota a gota

Teu coração quer nos gritar isto -

Aleph azul que guarda segredos rojos

 

Alguns o folheiam em prece, como anjos

Eu o folheio, deslumbrada

Com a mesma cálida e reverente ternura

Com que olhava abismada a estrela Vésper

 

Azul como teu Aleph coração

Seta e sinal em meu caminho:

A estrela Vésper

E o Aleph azul de Borges




O Aleph azul de Borges - uma poesia que escrevi na primavera passada, ao som de piazzola - está no site cronópios.

http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=1565





arte: Erika Kuhn

Sunday, July 09, 2006

DIA DO POETA




Ando vestindo um estranhamento de mim
Um estranhamento do mundo
Eu tinha conseguido banir a aurora ardente
Eu tinha varrido as canções
Das moças brancas de lábios vermelhos
Que bailam no bosque sagrado de Upsala
Todos os grandes cenários
Onde eu expandia o sonho:
As caravanas do deserto, os tuaregues
A lua crescente - que é meu totem -
O delírio das noites brancas
Eu tinha conseguido
Colocar a capa frígida de plástico na alma
Até o anjo astuto rasgá-la inteira
E me atirar nua no cenário
Aí está a mulher - nua –
Se esconde tanto
Que até da poesia se esconde
Se assusta tanto que não é mais Eva
Agora é Lilith
Agora é Anaïs esperando Henry Miller
Agora é Frida rasgando a dor em telas
Agora trafega entre narcisos em Devon,
Amando um poeta britânico
Que vai deixá-la
E vai fazer sangrar a aurora
Que Ariel quer alcançar
E vai espantar a lua
Que nunca se entristece
E os estúpidos confetes
Agora apanha o casaco e segue ao rio
Corre! Corre!
Não deixe que Leonard a alcance
Contemplo as passadas todas
Das mulheres serenas de loucura
Agora está no rochedo em Mar Del Plata
E vai viver em uma casa de vidro
Em um oceano de translúcidas algas
Agora segue e atira ao vento
A tua dor consentida
Atira as palavras aos pés
Aos pés de quem nunca merece
Agora ensaboa este corpo
De musa divina
Agora cale a tua voz - catedral –
Agora cesse tudo
E apanha
A luva de pelica
A mala
Tua complacência feminina
Ensaboa este corpo de neblina
Para despencar em um duto
E se afaste
Dos olhares túrgidos
Desta dor que avassala
Lá está aquela esquina
Onde quase todas elas se perderam
Eu me encontro em uma linha reta
E vou seguir em frente
Tem uma primavera no final
E eu sempre sonhei a primavera
Muito embora eu tenha que reconhecer
Elas merecem o meu respeito eterno,
Todas elas...

Anais Nin 
Frida Kahlo,
Virginia Wolff
Sylvia Plath
Alfonsina Storni
Ana Cristina

Um brinde
Com esta ternura e graça
Com esta ternura aflita
Aos que não ficam
Construindo catedrais ocas
Os que viveram a poesia
Até secar a fonte e calar o grito,
Os Eternos
Que não se preocupavam
Em teorizar.
Eles insistiam em compor a Beleza
Com os rastros e restos
E sua verdade consentida,
Que eu quero como água
Mesmo ferindo um coração de vidro.
.
BÁRBARA LIA
04.10.2005 – dia do poe
ta.

Marcos Prado



não escreve aqui quem sabe de tudo
o que você quer, o que sabe, para mim, nada
apenas quero daquele que é mudo
dizer o que acha dessa palhaçada
.

O ritmo vale mais que a métrica e a rima
a métrica é salão e rima cozinha
tudo que a inteligência dizima
é fato a mim e idéia de fato minha
.

você, que é devorador de comida alheia
que se serve do talendo de outro prato:
seu sangue não vai mudar de veia
se não criar pra você um novo braço
MARCOS PRADO (1.962-1996)

Torquato Neto

Cogito

eu sou como eu sou

pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.

TORQUATO NETO - (1.944-1972)

do livro - Os Últimos Dias de Paupéria - Max Limonad - Rio de Janeiro, 1973,

luvas de pelica


Tenho medo de perder este silêncio.Vamos sair? Vamos andar no jardim? Por que você me trouxe aqui para dentro deste quarto? Quando você morrer os caderninhos vão todos para a vitrine da exposição póstuma. Relíquias. Ele me diz com o ar um pouco mimado que a arte é aquilo que ajuda a escapar da inércia. Outra vez os olhos.Os dele produzem uma indiferença quando ele me conta o que é a arte.Estou te dizendo isso há oito dias. Aprendo a focar em pleno parque. Imagino a onipotência dos fotógrafos escrutinando por trás do visor, invisíveis como Deus. Eu não sei focar ali no jardim, sobre a linha do seu rosto, mesmo que seja por displicência estudada, a mulher difícil que não se abandona para trás, para trás, palavras escapando, sem nada que volte e retoque e complete.Explico mais ainda: falar não me tira da pauta; vou passar a desenhar; para sair da pauta.
Estou muito compenetrada no meu pânico.Lá de dentro tomando medidas preventivas.Minha filha, lê isso aqui quando você tiver perdido as esperanças como hoje. Você é meu único tesouro. Você morde e grita e não me deixa em paz mas você é meu único tesouro. Então escuta só; toma esse xarope, deita no meu colo, e descansa aqui; dorme que eu cuido de você e não me assusto; dorme, dorme.Eu sou grande, fico acordada até mais tarde.
ANA CRISTINA CESAR (1.952-1983)
- do livro Luvas de Pelica - Inglaterra, Novembro 1.980

Cacaso















Cacaso (1.944-1.987)

PSICOLOGIA DO ETERNO

Meu corpo visto no breu
não envelhece: tal a fúria
da gaivota devoradora de tempo.
Meu corpo, no tempo, é negro.

Existo na véspera. O que sou
não anuncia: se repete.
Assim a música prevê
sua intenção de estátua.

Longe da morte me lanço.
No crepúsculo congelado
meu suicídio se exala.

Fico na morte irrealizado:
Casta paisagem cria o olho
que apenas se constatou.

Rio, 1965

CACASO

do livro LERO - LERO (1.967-1985)
7 Letras e Cosac & Naify

Héctor Viel Temperley

Mes de Marzo de 1986
Pabellón Rosetto, larga esquina de verano, armadura de mariposas: Mi madre vino al cielo a visitarme.
Tengo la cabeza vendada. Permanezco en el pecho de la Luz horas y horas. Soy feliz. Me han sacado del mundo.
Mi madre es la risa, la liberdad, el verano.
A viente cuadras de aquí yace muriéndose.
Aqui besa mi paz, ve a su hijo cambiado, se prepara - en tu llanto - para comenzar todo de nuevo.
Héctor Viel Temperley (1.933-1994)
Argentina
do livro Hospital Británico

Saturday, July 08, 2006

kerouac

.


ESTAVA USANDO UMA ATADURA BRANCA na cabeça por causa de um ferimento. A polícia me persegue pelas escuras escadas de madeira perto do Victory Theater em Lowell. Consigo escapulir e chego no bulevar, onde crianças desfilando e entoando meu nome me escondem dos guardas que me procuram, enquanto despisto no meio das intermináveis fileiras, mantendo o corpo agachado. O desfile infantil não acaba mais. Com cânticos e hinos, entramos marchando na Mongólia, com minha cabeça atada na dianteira.
(sonhado no dia seguinte à publicação de On the Road)
JACK KEROUAC
O Livro dos Sonhos (L & PM Pocket)


O livro é compilação exata dos sonhos de Kerouac. Boa idéia para qualquer escritor.

La nave va...

"Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura

  "Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura da escritora Francine Cruz. https://www.youtube.com/watch? v=IxpCcdUM7...