Wednesday, August 12, 2009

Choque de estrelas grávidas v

What the water gave me, 1938 - Frida Kahlo

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Mi vestido cuelga aqui - Frida Kahlo


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Sr New York




A máscara caíra. Ele era New York. Não era o sereno Fuji com cerejeiras e ao fundo o azul-nirvana-céu. Neve e cerejeiras em flor – decididamente ele não era!
Ligia sentiu bailar cálidas águas nos olhos céu de Praga na primavera. Lembrou Lorca, lembrou Frida Kahlo.
Ser revisora a deixava grávida das mais belas palavras do universo, e as palavras do poema ciudad sin sueño soavam como realmente eram – nocturno de brooklyn bridge - Havia uma ponte a atravessar, a levaria até o Sr New York.
No duerme nadie por el cielo. Nadie, nadie.
No duerme nadie.
Las criaturas de la luna huelen y rondan sus cabañas.
Vendrán las iguanas vivas a morder a los hombres que no sueñan
y el que huye con el corazón roto encontrará por las esquinas
al increíble cocodrilo quieto bajo la tierna protesta de los astros.
O céu não dormia e tudo gangrenava como os pés de Frida Kahlo Frida na banheira, a contemplar os pés sangrando e vendo vestidos na neve e Diego caindo de prédios... Vida que se encarcera em arte fica surreal e mágica, mas fica também dolorida de cores e verbos e de metáforas ensandecidas de quem vive acima - Frida, Lorca, tantos, tantos, tantos que compreendiam Deus, os astros, a música, a lírica, os segredos todos, estes, estes se chocaram com New York.
O homem amado era New York e se vestira de monte nevado. Evocara mantras, monges, címbalos, meias-luas lilases flanando entre cortinas diáfanas.
Abutre do Brooklin fantasiado de anjo, medindo gestos e palavras na tentativa de ser o mago zen das tintas. Recompunha céus e vôos. Copiava o gênio surrealista. Asas e rosas adornando lugares insólitos, copiando porcamente Magrit. Pobre Magrit!
Na noite em que Ligia viu o artista brilhava uma lua de sangue, a aurora dos dias sangrava como se a lua quisesse gritar – cuidado!
Naquela noite sentiu o olhar como vela que segue o vento, ela, o vento. Mas, Ligia não era poeta e não viu a alma do artista. Não ouviu o tilintar da máscara do abutre.
Meses a fio letras a brilhar negras na tela. O artista plástico apontou uma planície de seda e experiências líricas que ela incorporou como sonho de primavera. Era primavera.
“Veja só cada qual com sua maluquice e eu com esta, prefiro viver a dimensão poética”
Ligia achou transcendental, terno, filosófico. Puro Fuji, azul ao fundo, cerejeiras em flor.
Não via as ruelas urbanas, não ouvia o estridente som da buzina, as avenidas serpenteadas de angústia. Don’t walk eclipsada pela poética ramagem de cerejeiras belas.
Revisar livros anos a fio transformara real e sonho em massa amalgamada e ela era agora personagem. Seguiu sonhando as palavras que lia.
A revelação chegou com a tempestade daquela tarde de maio. Hora do ângelus.
Achava bela a hora do ângelus. Na infância interiorana os sinos repicavam no instante em que, entre as árvores, menstruava o céu, luz que só o sangue tem. A mãe colocava um copo de água ao lado do rádio Semp, enquanto uma voz antiga, em latim, abençoava o dia e as horas. O pai picava o fumo na varanda e preparava um cigarro de palha, lambendo as bordas das palhas, num ritual gravado como um quadro de Portinari.
Foi na hora do ângelus que ela leu a mensagem na tela.
Ligia...

em primeiro lugar, gostaria de dizer que admiramos sua sensibilidade, que para o meu companheiro é ótimo ter uma fã tão atenta e dedicada. Mas precisávamos dizer que nos últimos meses, não sabíamos como te dizer que a vida dele é diferente da obra dele...
Espero que esta mensagem deixe tudo muito claro e que não haja mais mal entendidos... Eu escrever foi a solução que achamos melhor para resolver essa situação.

Cora
Cora nome impróprio para uma ácida criatura. Cora evocava Coralina, versos e rios de Goiás. Em choque, diante da mensagem, descobriu num átimo que ele era o Sr. New York, com máscara de monte Fuji. Omitiu Cora, manteve um diálogo terno mulher-homem e jamais disse que Cora existia, ela perguntara e perguntara nas horas de angústia quando viver na dimensão poética a entediava, mas, ele insistia na dimensão poética, na amizade... As mensagens clamavam um encontro na dimensão que Ligia incorporou e para ele era um refrigério ao ego entorpecido pela rotina, talvez. Então, ele pintou letras que eram obras de arte embalando meses de Ligia:
“Teu nome é um cantabile sonoro”
“És bela e transparente e as coisas flutuam”
“Estou contigo em todas as alegrias e plenitudes neste novo ano”
“Tuas palavras dão impulso às minhas utopias”
“Grata amiga por garrafas de mensagens que chegam e ancoram na praia...”
...
As palavras belas foram nocauteadas por gangs de New York, canivetes, cacos de garrafas lacerando as fibras do coração de Ligia, retalhado em postas.
Deixou a sala, não deu o costumeiro adeus ao ascensorista, ao porteiro.
Lá fora, um Niágara, a pele não continha o furor das águas. Maio azul cobalto de fim de tarde em tempestade. Chuva que penetra pele e chega ao coração sangra e arde a ferida viva. Atravessar ruas, praças. Ali o endereço, a casa. Sabia onde ele morava e sabia seu telefone e seu celular. Por absoluto acordo poético não ultrapassara a cortina das dimensões, a poética e a real.
Raios fosfóreos e fúria, pés afundam na grama e ela abre a porta do barracão e descortina o odor das tintas, as telas soltas e o olhar espantado do artista.
Cá estou – a pessoa. Tenho alma, tenho coração que escorre sangue e chuva. Lá está quem omitiu Cora, quem semeou meses de ternura na tela em um encontro poético em uma dimensão criada.
Uma história jamais pensada por Lígia.
Era azul da Prússia a tinta que repousava ao alcance das mãos, era azul que banhava as telas na fúria de uma mulher que foi ultrajada naquilo que as mulheres têm de mais profundo – a emoção.
Alguém amealhara sonhos com uma máscara zen. Mudo, ele se colocou como um bicho acuado, covarde.
“Cora descobriu teus e-mails... Pode chegar a qualquer momento”
Ligia estancou com uma lata de tinta vermelha nas mãos. Ridícula cena – pensou. Recuou, voltou à chuva, voltou às lembranças do poema de Lorca, fuligens de New York, aço, aço e angústia. Só podia chorar por ter sido tão tola e não ter percebido a máscara, a máscara, a máscara...
Caminhou tonta de cansaço e mágoa. No canteiro entre duas paralelas de uma via movimentada, tropeçou.
O corpo colhido pelo imenso caminhão blindado, desses que transportam valores. Homens com armas na chuva diante do corpo triturado e do rosto sereno e belo. Tela que nenhum pintor recriaria. O rosto intacto, mechas vermelhas dos cabelos como chamas claras espalhadas pelo asfalto, luz azul do olhar fixo em um espanto terno. Maio violento.
Cora coloca a pizza na mesa e apanha uma capa de chuva para chamar o seu companheiro – assim ela o chamava – para o jantar. Um pouco cansada de vez por outra ter que afastar uma fã deslumbrada que chegava para turvar seu casamento perfeito.
Nenhuma chance para o amor.

BÁRBARA LIA

conto publicado anteriormente em:
Jornal Rascunho
Portal Cronópios


Cansei de olhar no espelho e ver Frida.
De caminhar qual ela e sentir a dor, a sequela da sequela no meu encalço, no meu calcanhar a tolher o dia.
Hoje eu vi o final do filme Frida em um canal da Net, nem lembro qual, nem lembro nada a não ser a identificação ferrenha e de chorar sempre. Quando choro de dia os filhos cobram - querem saber a razão. Guardo as lágrimas para as madrugadas, com elas eu lavo a lua. Salgada e branca e cansada de faxina, já está a lua. Exausta está a lua... lavada de sal. O milagre do meu encontro com Frida. Das noites em que desvendei suas veias. Dos poemas que escrevi e rasguei. Das gargalhadas poucas - somadas, nossas gargalhadas de toda uma vida não alcançam o tempo de uma sinfonia completa. Há de se ter fé, desta fé musical, ferrenha, que quando a gente a esquece ela vem zunindo na janela como vento de aço. Com que têmpera alcançamos as noites estreladas, encontros dionisíacos e o gozo de Afrodite. O corpo quase ao meio, a alma duas vezes mais, esta poesia de tinta-e-palavra escorrendo. Ainda não me refiz do choque com uma estrela grávida de sal. Sussurro mexicano por baixo da porta: Nada importa! Se temos asas...

Choque de estrelas grávidas IV

Djanira



fragmentos:

Edith Piaf par Elle-Même - Edith Piaf por ela mesma

Questionnaire publié dans Music-Hall, no.59, de février 1960.

12. - Quel est votre couleur préférée? -Qual é sua cor preferida?
- Le bleu. - Azul.

13. - Pour qui tricotez-vous? - Para quem faz tricô?
- Pour qui voudra porter mon pull-over (si je le termine). - Para quem quiser usar meu pulover - se eu o terminar.

14. - Que lisez-vous en ce moment? - O que está lendo no momento?
- Des chansons, des poèmes, des musiques de genre. - Canções, poemas, músicas de gênero.

15. - Si vous deviez donner un conseil à une femme, que serait-il? - Se tivesse de dar um conselho a uma mulher, qual seria ele?
- Aimez! - Ame!

16. - A une jeune fille? - A uma jovem?
- Aimez! - Ame!

17. - A une enfant? - A uma criança?
- Aimez! - Ame!

...

30. - Quel est votre plus beau souvenir du métier? - Qual é sua mais bela lembrança, como profissional?
- Toutes les secondes ou le rideau se lève. - Todos os segundos em que a cortina se levanta.

31. - De femme? - E como mulher?
- Le premier baiser. - O primeiro beijo.

32. - Comment expliquez-vous les miracles de votre voix? - Como explica os milagres de sua voz?
- J'aime la chanson. - Eu amo a canção.

33. - Souffrez-vous de votre popularité? - A popularidade a incomoda?
- Pourquoi? Por quê?

34. - Croyez-vous aux signes du Zodiaque? - Acredita em signos do Zodíaco?
- A certaines minutes. - Em certos momentos.

35. - Aimez-vous la nuit? -Ama a noite?
- Oui, avec beaucoup de lumière. - Sim - com muitas luzes.

36. - L'aube? - E a aurora?
- Oui, avec un piano et des copains. - Sim, com um piano e amigos.

37. - Le soir? A tarde?
- Parce que, pour nous, c'est l'aube. - É que, para nós, é a aurora.

38. - Aimez-vous la vie? - Você ama a vida?
- Oui, oui, oui.- Sim, sim, sim.

do site:


http://www.bibi-piaf.com/piaf_f.htm




Djanira da Motta e Silva (1914 - 1979) - Pintora, desenhista, ilustradora , cartazista, cenógrafa brasileira...
http://pt.wikipedia.org/wiki/Djanira_da_Motta_e_Silva


Edith Piaf ( 1915 - 1963) - Edith Giovanna Gassion - diz a lenda que Edith nasceu na calçada da Rua Belleville, 72 - Paris. Lenda, mais que lenda, voz do meu epitáfio, companheira de tricô, coração retalhado que não cansa de amar. Minha rota de fuga é para perto destes escancarados seres - Vida em outra esfera, loucura santa. Djanira? Não tão minha, não tão próxima, alguém que meu pai admirava, cujo nome trazia a ressonância da poesia. Estas palavras que entram em espirais em nossa alma. O que diz? O que é? Djanira. E esta vontade de dizer da gente esquecida, da gente de um país de memória pequena, falha... Esta solidão de artesã que Djanira tece, é Piaf que tece enquanto as notas explodem e explode amor no peito... é um pouco eu...

...

Non ! Rien de rien ...
Non ! Je ne regrette nen ...
Ni le bien, qu'on m'a fait
Ni le mal, tout ça m'est bien égal !

Non ! Rien de rien ...
Non ! Je ne regrette rien ...
Car ma vie, car mes joies

Aujourd'hui, ça commence avec toi !

Michel Vaucaire / Charles Dumont

Monday, August 10, 2009

Choque de estrelas grávidas III



II

Porque tu sabes que é de poesia

Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,

Que a teu lado te amando,

Antes de ser mulher sou inteira poeta.

E que o teu corpo existe porque o meu

Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,

É que move o grande corpo teu

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante

Quando amanhece e me dizes adeus.

Hilda Hilst

Fragmento (II) - ODE DESCONTÍNUA E REMOTA PARA FLAUTA E OBOÉ.

DE ARIANA PARA DIONÍSIO.

[Júbilo memória noviciado da paixão (1974)]

[in Poesia: 1959-1979/ Hilda hilst. - São Paulo: Quíron; (Brasília): INL, 1980.]

http://www.angelfire.com/ri/casadosol/dionisio.html


- Mais uma explosão atômica - Claudel e Hilda Hilst -

Emily Dickinson é a poeta que estou estudando agora. Lendo sua poesia e me inteirando de sua vida. Ela tem em comum com Hilda e Camille - a reclusão. Qual Emily, Hilda tinha sua casa - A casa do sol - o seu exílio, lugar do seu segredo. Emily Dickinson vivia em Homestead. Camille, forçada a viver reclusa quando a levaram para o sanatório em Ville-Evrard. Dentro das solidões optadas ou forçadas, elas criaram obras intensas, flutuantes, profundas, instigantes, reais, estonteantes e sublimes, dentro de intocáveis almas que ansiamos desvendar.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Camille_Claudel

http://pt.wikipedia.org/wiki/Hilda_Hilst

Saturday, August 08, 2009

Luvas de Pelica - Ana C.

Choque de estrelas grávidas II


18.8.80
I am going to pass around in a minute some lovely, glossy-blue
picture postcards.
Num minuto vou passar para vocês vários cartões postais belos e bri-
lhantes.
Esta é a mala de couro que contém a famosa coleção.
Reparem nas minhas mãos, vazias.
Meus bolsos também estão vazios.
Meu chapéu também está vazio. Vejam. Minhas mangas.
Viro de costas, dou uma volta inteira.
Como todos podem ver, não há nenhum truque, nenhum alçapão
escondido, nem jogos de luz enganadores.
A mala repousa nesta cadeira aqui.
Abro a mala com esta chave mestra em cerimônias
do tipo, se me permitem a brincadeira.
A primeira coisa que encontramos na mala, por cima de tudo,
é — adivinhem — um par de luvas.
Ei-las.
Pelica.
Coisa fina.
Visto as luvas — mão esquerda... mão direita... corte... perfeito.
Isso me lembra...
Um jovem artista perdido na elegante Berlim da Belle
Époque, sozinho, em vão procurando por
prazer. Passa um grupo ruidoso
de patinadores, e uma mulher de branco deixa cair
a sua luva, uma luva com seis botões, branca, longa, perfumada.
O jovem corre, apanha
a luva, mas reluta se deve aceitar ou não o desafio.
Afinal decide ignorá-lo, guarda a luva no bolso e volta caminhando para o seu hotel por ruas
mal iluminadas.
Mas assim me desvio do meu propósito desta noite.
- Ana C. (Luvas de Pelica - Inglaterra, 1980)
...

Junção de estrelas - Grávidas - Parte II - Ana C. viveu na Inglaterra. Luvas de Pelica é um passaporte poético. Emily Dickinson fez duas viagens pequenas durante toda a vida. Diferente de Ana C. que viveu em Londres e realizou muitas viagens. Mas... "A poesia é o impossível feito possível" escreveu Lorca, por isso o postal desta imagem - de 1971 - nele Emily Dickinson, a bela de Amherst saiu pelo mundo, pisou os lugares que descrevia em seus poemas. Itália, os frios Alpes Suecos e as borboletas do Brasil - tudo que sua imaginação tocou. A grande reclusa também viajou, esta viagem que é só do poeta. Ana C. traduziu Emily Dickinson e também Sylvia Plath, Czeslay Milosz e Wislawa Szymborska...


...
Quem está morrendo, amor
precisa de tão pouco
um copo d'água o rosto discreto de uma flor
um leque talvez uma dor amiga
e a certeza que nenhuma cor do arco-íris perceba
quando embora for

Tradução de Ana Cristina César




...


Acordei com esta ideia, de unir as grandezas, um céu diferente. Cada palavra é dita fora do tempo, cabe em qualquer século, abre da mesma forma as fechaduras graníticas ou enferrujadas. Duas mulheres belas. Um postal de 1.971, eu o vejo ali, meio à infinidade de cartões postais que Ana C. tira da mala, com suas luvas de pelica. Estas conexões, encontro de belezas.


Ana Cristina Cruz Cesar (Rio de Janeiro, 2 de junho de 1952 — Rio de Janeiro, 29 de outubro1983), ou ainda simplesmente Ana C., filha de Waldo Aranha Lenz Cesar e Maria Luiza Cesar, nasceu em família culta de classe média e protestante, numa década de 1950 quase bucólica do Rio de Janeiro. Criou-se entre Niterói, Copacabana e os jardins do velho Bennet. É uma das principais poetas da geração mimeógrafo ou da chamada literatura udigrudi ou marginala nos anos 1970.
fonte - wikipédia

Alfonsina y el mar

choque de estrelas grávidas I

Jerome Liebling (2000 ) - Emily Dickinson - Vestido

Alfonsina Storni: Tu me queres branca


Tu me queres branca,
Me queres de espumas,
Me queres de nácar.
Que eu seja açucena
Sobre todas casta.
De perfume tênue.
Corola cerrada.


Nem raio de lua
Filtrado me haja,
Nem a margarida
Minha irmã se diga;
Tu me queres branca,
Tu me queres nívea,
Tu me queres casta.


Tu, que em mão tiveste
Já todas as taças,
E de méis e frutos
Os lábios morados;
Tu, que no banquete,
Coberto de pâmpanos,
As carnes deixaste,
Festejando a Baco;
Tu que no negrume
Dos jardins do Engano,
Vestido de rubro
Correste ao Estrago;


Tu, que o esqueleto
Conservas intato
Eu não sei ainda
Por que altos milagres,
Me pretendes branca
(Que Deus te perdoe),
Me pretendes casta
(Que Deus te perdoe),
Me pretendes alva.


Foge para os bosques;
Vai para a montanha;
Limpa bem a boca,
Mora nas cabanas;
Com as mãos apalpa
A terra molhada;
Alimenta o corpo
com raiz amarga;
Bebe a água das rochas,
Dorme sobre a escarcha;
Renova tecidos
Com salitre e água;
Conversa com os pássaros,
Desperta com a alva.
E enfim, quando as carnes
Te forem tornadas,
E quando hajas posto
Nelas a tua alma
Que pelas alcovas
Ficou enredada,
Então, ó bom homem,
Pretende-me branca,
Pretende-me nívea,
Pretende-me casta.


Grandes Vozes Líricas Hispano-Americanas
Seleção e Tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
Editora Nova Fronteira – edição 1990


- uma tela - uma poesia - uma frase - uma fotografia - gente que cria - gente que vive pisando astros - descarnados e ainda assim com vestidos eternizados - como o branco vestido de Emily - esta aproximação de estrelas, de estrelas grávidas, gente que alimenta e cria, gestações de horas, dias, minutos, algumas de uma eternidade. Choque de estrelas grávidas. Uma das mais conhecidas poesias de Alfonsina Storni (1892 - 1938). Poeta Argentina que foi viver no fundo do mar, em uma casa de vidro.
Emily Dickinson - A grande reclusa - A bela de Amherst. Este mistério que está corroendo o meu travesseiro, a salada do meu jantar, a água do meu banho. Esta sombra de branco que me inquieta. Este vulto imenso, recolhido, de branco vestido. Emily Dickinson Emily Dickinson (1830 - 1886)


Friday, August 07, 2009

imagem - asas do desejo - wim wenders


Que seria de Deus sem os anjos?
Seu exército de asas.
Hierarquia da beleza.
Coração de estrelas e força
De leões de aço.
Que seria de Deus sem os anjos?
Atentos olhos sobre as criaturas.
Sombras zelosas estendendo pontes,
Amparando sempre
Com suas asas de plumas.
Que seria de Deus sem os anjos?
Vestes de ar
Escudos de fogo
E pés seguindo a trilha
De pedras extraviadas
Das paredes do sol.
Que seria de Deus sem os anjos?
Que seria dos anjos sem nós?

Bárbara Lia

Saturday, August 01, 2009

nem todos os deuses estão mortos

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Há alguns anos quando li - UM ESCRAVO CHAMADO CERVANTES - uma biografia de Miguel de Cervantes escrita por Fernando Arrabal - fiquei encantada com Arrabal. De forma inconsciente, dei a um personagem de Solidão Calcinada este sobrenome. Arrabal. Sonoro e Forte. Lembro do impacto que me causou o livro de Arrabal. Vou incluí-lo entre os autores que estou a ler - ando afogada em Peças de Teatro. Fascinada. Aqui na minha ilha (meu ap), sem poder andar muito, fechada neste apartamento, lendo lendo lendo. Mas, quem dera pudesse voar até Sampa, dia 10. O cara vai estar lá. Fernando Arrabal.

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Uma entrevista ao Estadão. Maravilha!

Arrabal traz sua eterna rebeldia a São Paulo

Dramaturgo participa de debate e exibe o seu mais recente filme, A Possibilidade de Uma Ilha

Ubiratan Brasil


(...)

O senhor leu a lista das cem pessoas mais influentes do mundo, publicada pelo The New York Times?

Entre elas, não há nenhum dramaturgo ou poeta. Melhor para nós. Podemos viver o renascimento. Ninguém vai "nos comprar". Nada temos para "vender".

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090801/not_imp411781,0.php

Wednesday, July 29, 2009

Para Camille, com uma flor de pedra

la vague - camille claudel

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Meu olhar cor da aurora de Latona

torna céu tudo o que ele toca

- pedra, ônix, gesso, mármore –

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Luto com pedras na ponta dos dedos

Ignoro vozes, burburinho, olhares

Caio no abismo azulado

que de tudo me isola.

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Augusta coroa da solidão

reflete-se na pedra dura

em amantes que não se fitam

a prever a degradante sina – Alienada.

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O Deus que voou levou com ele

minha força, os nenúfares dos meus cabelos

fechou-me no casulo da exclusão

murcharam as flores, o filho no ventre

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Murchou meu quinhão de glória

meu sorriso sensual de musa

minha ciranda de alegria

– La Vague –

água que se ergue do nada

e me cobre

e me enterra

e soterra.


Bárbara Lia

..............p/ Camille Claudel

Sunday, July 26, 2009

Nathaniel Ayers
Nathaniel Anthony Ayers (Jamie Foxx) músico esquizofrênico que Steve Lopez (Robert Downey Jr) encontrou tocando violino com apenas duas cordas diante de uma estátua de Beethoven. Steve procurava por uma matéria e encontrou o enigma. Uma história real baseada no livro de Steve Lopez - The Soloist. O filme conta a trajetória de um músico pobre que entra para The Juilliard School, quando o seu estado de saúde piora ele abandona tudo e vai viver nas ruas. Um retrato em tempo real dos moradores de rua. Belo filme que eu veria de qualquer forma . Vejo todos os filmes de Robert Downey Jr - esta criatura incrível, é claro que não tive como ver Iron Man até o fim, mas, eu tentei.
Em uma cena Nathaniel pergunta a Steve se os escritores pensam muito nos grandes escritores, assim como ele pensava o tempo todo em Beethoven.
Nathaniel continua nas ruas, tem um quarto em um abrigo que o repórter conseguiu para ele, Steve continua escrevendo para o Los Angeles Times.

Mais nos Los Angeles Times:
http://www.latimes.com/news/local/la-me-lopez-skidrow-nathaniel-series,0,1456093.special

Friday, July 24, 2009

Magritte - Door

Safe in their Alabaster Chambers—
Untouched by Morning
And untouched by Noon—
Sleep the meek members of the Resurrection—
Rafter of satin,
And Roof of stone.

Light laughs the breeze
In her Castle of sunshine -
Babbles the Bee in a stolid Ear,
Pipe the Sweet Birds in ignorant cadence—
Ah, what sagacity perished here!


                    Version of 1859
EMILY DICKINSON


A salvo em suas Câmaras de Alabastro-
Intocados pela Manhã
E intocados pelo Meio-dia-
Dormem os mansos donos da Ressurreição-
Cortina de cetim
E Teto de pedra.

Branca ri a brisa
Em seu Castelo de sol-
Sussurra a Abelha em uma apática Orelha
Sibilam os Doces Pássaros em cadência ignorada-
Ah, a sagacidade pereceu aqui!
tradução - Bárbara Lia
  

La nave va...

Ilya! (Vmesto Pis'ma) - Bárbara Lia - para Connor Storrie

“Ilya! Vmesto Pis’ma” é o título perfeito para o que escrevi, fulminada de encanto e admiração pela Arte de Connor Storrie. Em lugar de uma...