Thursday, September 14, 2006
UM LIVRO DE POESIAS, POR FAVOR! (III)
O SONO DE GOYA
"Que ninguém possa jamais esquecer esta noite.
Hoje, tocarei a flauta de minha própria coluna vertebral"
(Maiakóvski)
Sonhei com serpentes mortas
dentes cerrados, ventos distantes,
touros,
festins negros
e maré alta -
Quem soprou esses ventos
nas flautas das vértebras
e verteu febre nos dedos
para que compusésemos vendavais
e folheássemos o diário de ouro
que o Deus tocou
que só nos fez chorar?
Quem varreu os cílios
Com o zoom sorrateiro
Da visão do sem nome?
Quem disse:
- Quem beber dessa água lembrará -
essa é a fonte da memória
Quem disse que era Deus?
MÁRCIO DAVIE CLAUDINO DA CRUZ
UM LIVRO DE POESIAS, POR FAVOR! (II) Luciana Cañete
UM LIVRO DE POESIAS, POR FAVOR! (II)
Será que é demasiado verde a fruta da tua alma?
Será que é demasiado doce a romã do meu ventre?
Descompasso cítrico que
soa como mentira
em minhas pupilas.
LUCIANA CAÑETE
Será que é demasiado verde a fruta da tua alma?
Será que é demasiado doce a romã do meu ventre?
Descompasso cítrico que
soa como mentira
em minhas pupilas.
LUCIANA CAÑETE
UM LIVRO DE POESIA, POR FAVOR (I)

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Rodrigo Madeira
UM LIVRO DE POESIAS, POR FAVOR (I)
FOTOGRAFIA
onde viridiana, lisandra, babi?
e os filhos que sonhamos antes
da primeira menstruação?
onde elas todas?
o amigo que mudou de cidade?
a vira-lata prenhe no muro de casa acostada?
onde a casa?
onde as antífonas da capelinha?
onde o sol foz-iguaçuense?
que me escarnou a pele
e me tisnou o rosto:
pequeno caçador etíope.
onde as amoreiras?
que eram árvores sem nome
e davam amoras
(dói saber que as árvores têm nomes,
que as amoreiras dão amoras, dói saber).
onde tudo isso?
em mim é que não permanecem.
talvez o passado exista sem ser memória
na dispersão da aura,
na concentração das pedras.
mesmo a lembrança, existe?
talvez apenas borrifou-se-me
um perfume antigo nos olhos
e eles ardem um sol nascente
e eles choram o orvalho do capim.
talvez apenas
o menino se esqueceu de mim
RODRIGO MADEIRA
poesia do site po&teias:
http://br.geocities.com/poeteias/index.htm
Wednesday, September 13, 2006
O aleph azul de Borges
O poema/declaração de amor a Jorge Luis Borges, foi publicado no site cronópios. Os meus poemas mais longos rompem, foi assim com o meu poema mais longo - Uma lua em teu ventre - que escrevi em uma única manhã, e com este que escrevi no tempo exato em que ouvia - Milonga del Ángel - de Astor Piazzola, e no espaço/tempo da lágrima-música eu disse a Borges - Eu te amo!
O ALEPH AZUL DE BORGES
Deixastes aqui teu coração
- Aleph azul
povoado de tigres brancos
e miragens,
que pulsa como esta Milonga Del Angel,
nesta primavera desprotegida
- acordes de Piazzola –
Nuvens brancas a acenar certezas:
teu coração Aleph azul
permanece – no suave ritmo del sul.
Deixastes um Livro de Areia
- tu’alma -
nós todos virando páginas
deste deserto metafísico - noturno e trágico -
que leva à aurora nítida do reino da poesia.
Deixastes aqui teu coração,
Aleph onde trafegam signos vários,
e mesmo que tenhas imprimido sonhos
em grego, sânscrito ou aramaico,
deciframos – em alfa –
tuas mensagens de estrelas.
És um vaso vazio de segredos,
pleno de sóis & luas & signos da nobreza,
em uma azul sinfonia que teces
entre seus dedos, enquanto apontas:
A eterna água, o ar eterno,
flanando em um vale de sombras
e a inscrição brilhante em fios de ouro
- não existe tempo –
Guardiões do impossível
levamos ao pescoço a ampulheta
como homens-bombas
explodindo a vida,
sem seguir teus passos-acordes.
Cegos, não percebemos,
a inutilidade da areia que cai em conta-gota,
teu coração quer nos gritar isto -
Aleph azul que guarda segredos rojos.
Alguns o folheiam em prece, como anjos.
Eu o folheio, deslumbrada,
com a mesma cálida e reverente ternura
com que olhava abismada a estrela Vésper.
Azul como teu Aleph coração.
Seta e sinal em meu caminho:
A estrela Vésper
e o Aleph azul de Borges.
BÁRBARA LIA
Saturday, September 09, 2006
Truman Capote

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Truman Capote - 1947 - foto: Henri Cartier-Bresson
Ver o filme - Capote - dirigido por Benett Miller, ressuscitou as leituras da infância, quando eu me atirava na cama e devorava a revista X-9. A revista era macabra, até hoje não compreendo como meu pai permitia que uma menina de nove ou dez anos embrenhasse por uma sucessão de assassinatos desvendados pelo FBI, que permeavam as páginas amarelas da revista. Era a minha parte preferida da revista, como uma detetive colada à pele dos legistas eu permitia que minha intuição, mente e anseio transmigrasse para cenas de crimes hediondos, arrepiantes e até mesmo fantasmagóricos. Na maioria, crimes cometidos nos anos cinquenta, quando não havia exame de DNA, mas, havia uma investigação capaz de se ater a detalhes preciosos que permitiam chegar ao assassino. Aquilo devia ser mesmo minha veia de escritora, escrutinadora, devassando a mente humana. Truman Capote ficou visivelmente abalado com o episódio mostrado no filme. Quem não ficaria? Não é uma revista, ou uma reportagem televisiva. Ele sentou ao lado do assassino, envolveu-se com ele. Ele viu os mortos e suas feridas, ele sentiu o respirar da absurda falta de sentido que norteia a alma humana. Até que ponto somos anjos ou demônios? Até que ponto este fio tênue pode se romper? O ator Philip Seymour Hoffman foi crucial para este filme, de alguma forma, foi a figura que eu recolheria dentre as páginas amarelas do passado. Ele e sua amiga escritora, entraram no túnel do tempo e se tornaram personagens perfeitos do drama. Aquela casa branca entre árvores de inverno, o rumo que ele deu à sua vida após aquela idéia. Escrever o romance que muda uma vida, e que faz parte da história tem um preço. Truman Capote pagou este preço, a sangue frio. Não me lembro quem escrevia aquelas narrativas da X-9, eram mais que filmes arrepiantes de suspense, era a grama fria e molhada ainda com as pegadas do assassino, o bafo da morte escorrendo das paredes, era mesmo dilacerante como faca de gelo nas artérias, e eu sempre busquei as emoções fortes na vida, no amor e em tudo. Afinal, existe um leque de caminhos, e ficar escondido no escuro é a parte mais chata de toda a história.
Friday, September 08, 2006
ask the dust

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ASK THE DUST (2.006)Colin Farrell (Arturo Bandini), Salma Hayek (Camilla)
"Para uma princesa maia, de um gringo imprestável", a primeira dedicatória de Bandini para Camilla, na revista "The American Mercury".
Confissões de Bandini, para alguém que não é Camilla:
"Ela é perfeita como o tempo, o ar, a neblina e o eucalipto... a empoeirada luz solar. O lugar perfeito para se viver"
"Por que eu me daria ao trabalho de machucar você? Eu nem a amo."
ASK THE DUST (2.006)Colin Farrell (Arturo Bandini), Salma Hayek (Camilla)
"Para uma princesa maia, de um gringo imprestável", a primeira dedicatória de Bandini para Camilla, na revista "The American Mercury".
Confissões de Bandini, para alguém que não é Camilla:
"Ela é perfeita como o tempo, o ar, a neblina e o eucalipto... a empoeirada luz solar. O lugar perfeito para se viver"
"Por que eu me daria ao trabalho de machucar você? Eu nem a amo."
...
Pensei em não ver ao filme, não nublar a obra de arte, ia me tirar daquele cenário que eu compus e que sonhei muitas vezes, sendo um pouco Camilla, com uma sandália que atrai os olhos do amor... A minha era azul e de tanto que eu amava, eu a surrei por caminhos, até que ela esgarçou. Devo guardá-la, devo guardar qualquer objeto onde o amor tenha pousado o olhar, ou a voz, ou os lábios...
Realmente não delirei com o filme, mas, com as palavras de John Fante, de novo caindo como caiam naquele tempo que eu nem lembro se era inverno, verão, ou primavera, em que passei ao lado dele, por todos os lugares. Nem colocaram no filme a cena onde ela rasga os sonetos de amor que ele escrevia, dentro do café, e ele espiando, através do vidro, o escárnio dela. Não era o meu Bandini, nem a minha Camilla, mas, foi uma forma de recordar o livro e de ter desejos de ler outra vez...
Quando li o livro fixei cenas - as sandálias de Camilla, dormir nua abraçada com o amor, sem fazer amor, um olhar de desespero rastreando o Mojave, em busca de uma menina com seu cão. Do escritor que mostra a todo mundo o único conto publicado. Fixei um lugar, dois seres abandonados, ferindo-se até o final, tentando entender as mãos que moldam, as mãos que moldam o vidro, no fogo. Esta mão que nos tritura e gira e aquece, como vidro na fornalha ardente, e nos faz da forma que quer. A mão do amor.
Thursday, September 07, 2006
Maria de Lourdes Jaude
SOMOS NÓS
- Maria de Lourdes Jaude
Sabe aquele homem,
todo de negro, em pleno deserto...
Ao pressentir um avião
ameaçando o solo sagrado.
Mesmo sem saber se é cargueiro
ou de bombardeio.
Desembainha a espada!
Feito uma águia e enfrenta
pisando a terra.
E defende, mesmo sem chance,
seu solo seu chão.
Somos nós imigrantes de outras
terras, diversas paragens.
Que trazemos nosso solo como se
plantado em nossas canções.
Mostrando nossa luta, nossa garra.
Famintos de um mesmo amor...
Mesmo que não haja mais guerras
ou mesmo ensaios
nos fazemos guardiões de supostas quimeras.
Como leões sempre atinados
mesmo se já enraizados em outras paragens ou terras...
Mesmo assim, ainda, nosso coração
andarilho ficou fincado em bosques,
vales, desertos, neves alpes e furacões.
É como se fizéssemos qual aborigenes
que ao menor sinal de fumaça se reúnem
buscando força em pajelanças
buscando nuvens que nos tragam lembranças.
- Maria de Lourdes Jaude
Sabe aquele homem,
todo de negro, em pleno deserto...
Ao pressentir um avião
ameaçando o solo sagrado.
Mesmo sem saber se é cargueiro
ou de bombardeio.
Desembainha a espada!
Feito uma águia e enfrenta
pisando a terra.
E defende, mesmo sem chance,
seu solo seu chão.
Somos nós imigrantes de outras
terras, diversas paragens.
Que trazemos nosso solo como se
plantado em nossas canções.
Mostrando nossa luta, nossa garra.
Famintos de um mesmo amor...
Mesmo que não haja mais guerras
ou mesmo ensaios
nos fazemos guardiões de supostas quimeras.
Como leões sempre atinados
mesmo se já enraizados em outras paragens ou terras...
Mesmo assim, ainda, nosso coração
andarilho ficou fincado em bosques,
vales, desertos, neves alpes e furacões.
É como se fizéssemos qual aborigenes
que ao menor sinal de fumaça se reúnem
buscando força em pajelanças
buscando nuvens que nos tragam lembranças.
Maria de Lourdes Jaude, poeta, pintora e advogada urbanista.
Poema de Beirute
Bárbara Lia - Diwan - 04.09.06
Fragmento de - Poema de Beirute - de Mahmoud Darwich, o poeta que escolhi para a leitura na noite de poesia e música árabe, bem como leitura de um pequeno fragmento de Relato de um certo oriente, de Milton Hatoun.
Fragmento de - Poema de Beirute - de Mahmoud Darwich, o poeta que escolhi para a leitura na noite de poesia e música árabe, bem como leitura de um pequeno fragmento de Relato de um certo oriente, de Milton Hatoun.
Michel Sleiman esteve duas vezes no palco, depois da leitura do alcorão em árabe, pelo Prof. Milani, ele leu traduções poéticas suas do alcorão e encerrou com a poesia de Adonis, após a elegia lida pelo sheik.
...Beirute, leito de ruínas
primeiro beijo. Elogio de eucaliptos. Cobertor de mar e mortos
teto sobre estrelas e tendas
poema da pedra. Colisão de andorinhas no peito
céu viúvo pensativo sentado sobre um rochedo
sonora flor, Beirute. Voz de demarcação entre a vítima e a clava
criança que inverteu toda as tábuas das leis
todos os espelhos
e que depois, adormeceu.
Mahmoud Darwich
...Beirute, leito de ruínas
primeiro beijo. Elogio de eucaliptos. Cobertor de mar e mortos
teto sobre estrelas e tendas
poema da pedra. Colisão de andorinhas no peito
céu viúvo pensativo sentado sobre um rochedo
sonora flor, Beirute. Voz de demarcação entre a vítima e a clava
criança que inverteu toda as tábuas das leis
todos os espelhos
e que depois, adormeceu.
Mahmoud Darwich
michel e eu
Wednesday, September 06, 2006
Um túmulo por Nova York - do poeta sírio Adonis - traduzida por Michel Sleiman.

Michel Sleiman, lendo fragmento do poema longo "Um túmulo por Nova York", do poeta Adonis.
Ao fundo uma sala árabe, com tapetes, almofadas, o narguilé.
Mínimo fragmento da poesia - Um túmulo por Nova York - do poeta sírio Adonis - traduzida por Michel Sleiman.
"Aqui
no lado musgoso do rochedo do mundo, o único a ver-me é um negro a ponto de ser morto ou um pássaro a ponto de morrer. Pensei:
planta em vaso vermelho em metamorfose enquanto me afasto do umbral, e li:
sobre ratos em Beirute e outras localidades pavoneando-se na seda da Casa Branca, a armar-se com folhas e a roer os humanos,
sobre porcos restantes no jardim do alfabeto a pisotear a poesia"
Mínimo fragmento da poesia - Um túmulo por Nova York - do poeta sírio Adonis - traduzida por Michel Sleiman.
"Aqui
no lado musgoso do rochedo do mundo, o único a ver-me é um negro a ponto de ser morto ou um pássaro a ponto de morrer. Pensei:
planta em vaso vermelho em metamorfose enquanto me afasto do umbral, e li:
sobre ratos em Beirute e outras localidades pavoneando-se na seda da Casa Branca, a armar-se com folhas e a roer os humanos,
sobre porcos restantes no jardim do alfabeto a pisotear a poesia"
diwan
diwan
Tuesday, September 05, 2006
uma nuvem na minha mão
Rouca de aulas e recitais, sem voz, mas sabendo que poemas devem estar ainda valsando as paredes enormes do local do recital. Percebi esta noite de ontem em mim um horizonte aberto. Lembrei de aconchegantes concertos de palavras, as noites do porão, as poesias dos bares. Ontem, foi uma experiência diferente, miscigenada com outra cultura, com um enredo de areias e algumas lágrimas, com erotismo que valsa no sangue árabe, com poetas de várias idades e raças, com música de alaúde e com direito a uma elegia escrita pelo sheik para a primeira família assassinada no Libano, neste último confronto. Noite árabe, de quem se dispôs a enfrentar a fria noite e ouvir o som das cordas santas, dos poços com lua dentro, da poesia flanando entre trevas e poeira. Beirute - flor sonora.
Breve terei as fotos da noite de poesia e música árabe na gelada noite de quatro de setembro.
UMA NUVEM NA MINHA MÃO
... O lugar estava preparado para seu nascimento: um monte
feito com o manjericão dos avós, dando a leste e oeste. E uma oliveira
perto de outra nos livros sagrados, a elevar os limites da língua...
e fumaça lápis-lázuli a arrumar este dia por algo
que só interessa a Deus. Março é criança
mimada. Março espalha algodão nas
amendoeiras. Faz banquete da malvinha para o pátio das igrejas.
Março é terra para a noite das andorinhas, e para a mulher
prestes a dar o grito nas pradarias... e estender-se nos
carvalhos.
MAHMOUD DARWICH (fragmento de um dos poemas de ontem)
Sunday, September 03, 2006
diwan
TEMPO DE POESIA
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DIWAN
PAZ PARA A ROSA ENTRE TREVAS E POEIRA
POESIA E MÚSICA ÁRABE
DIA 04/09/2006- 20H
SOCIEDADE BENEFICENTE MUÇULMANA DO PARANÁ
Rua Kellers, 473 – Alto São Francisco - fone – 3222.4515
CURITIBA - PR
Adriano Smaniotto, Alexandre França, Bárbara Lia, Maria de Lourdes Jaude, Michel Sleiman lerão poesias de poetas e escritores árabes: Adonis, Mahmoud Darwich, Milton Hatoum, Nizar Qábanni, Waly Salomão, entre outros.
Raduan Nassar (em vídeo)
Música árabe (Alaúde)
Saturday, September 02, 2006
Darwich

Mahmoud Darwich - poeta palestino (1.942-)
- Na noite de poesia e música árabe, lerei poesias de Mahmoud Darwich, e o escasso tempo nestas semanas, deixou em suspenso a tradução de uma poesia - O inverno de Rita - Rita, a amada judia de Darwich, um longo e belo poema, com um fragmento abaixo. Esta poesia não irá ao recital, quem sabe em uma próxima noite.
- Na noite de poesia e música árabe, lerei poesias de Mahmoud Darwich, e o escasso tempo nestas semanas, deixou em suspenso a tradução de uma poesia - O inverno de Rita - Rita, a amada judia de Darwich, um longo e belo poema, com um fragmento abaixo. Esta poesia não irá ao recital, quem sabe em uma próxima noite.
O Diwan (lugar onde a poesia se reúne, ou recital - em árabe), será uma noite de revelação da cultura árabe, de poetas e escritores contemporâneos. Evento possível graças à disposição de Michel Sleiman em acessorar de longe os preparativos, e à boa vontade do jornalista Omar Nasser, e dos membros da Sociedade Beneficente Muçulmana do Paraná, ao sim que me foi dado pelos convidados, mesmo os que não puderam aceitar meu convite por conta de seus trabalhos, me apoiaram de outras formas. Dia quatro, o evento, com o apoio da Sociedade Muçulmana, da Igreja Cristã Ortodoxa São Jorge de Curitiba, e do Instituto da Cultura Árabe de São Paulo.

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.www.icarabe.org
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O inverno de Rita (fragmento)
...minha linguagem é feita de fragmentos
semelhante ao pensamento de uma louca, e dos cavalos que se suicidam
no final do hipódromo.
Rita bebe o chá matutino
e a primeira maçã com seus dez lírios
Me diz:
Não leia agora os jornais, os tambores são os tambores
e a guerra não é meu ofício. Eu sou eu. Tu és tu?
Eu sou
o que te vê qual gazela atirando suas perólas
o que vê seu desejo correndo atrás de ti qual torrente,
o que nos vê perdidos em unicidade sobre a cama
e em divergência, como a despedida dos desconhecidos no porto. O exilio nos leva
em seu vento, como folhas, e nos atira em hotéis de estrangeiros
como cartas lidas depressa.
Me levarás contigo?
Serei o anel de teu coração despido? Me levarás contigo?
Serei teu traje em países que te criaram para derrubar-te
serei um cofre de boa erva que levarás em tua morte
e tu serás meu, vivo ou morto.
O guia está perdido, Rita,
E o amor, como a morte, é uma promessa sem devolução ou prazo de validade.
Rita me prepara o dia
qual perdiz que ondula acima em seus sapatos de salto alto.
Bom dia, Rita,
e nuvens azuis para os jasmins de tuas axilas.
Bom dia, Rita.
e frutas para a luz da manhã. Rita, bom dia.
Rita, retorna a meu corpo para que as agulhas
dos pinhos descansem um pouco em meu sangue abandonado. Sempre que
abraço a torre de marfim, fogem de minhas mãos as pombas.
Ela diz: Regressarei quando os dias e os sonhos mudarem. Rita. É longo
este inverno e nós somos o que somos.
semelhante ao pensamento de uma louca, e dos cavalos que se suicidam
no final do hipódromo.
Rita bebe o chá matutino
e a primeira maçã com seus dez lírios
Me diz:
Não leia agora os jornais, os tambores são os tambores
e a guerra não é meu ofício. Eu sou eu. Tu és tu?
Eu sou
o que te vê qual gazela atirando suas perólas
o que vê seu desejo correndo atrás de ti qual torrente,
o que nos vê perdidos em unicidade sobre a cama
e em divergência, como a despedida dos desconhecidos no porto. O exilio nos leva
em seu vento, como folhas, e nos atira em hotéis de estrangeiros
como cartas lidas depressa.
Me levarás contigo?
Serei o anel de teu coração despido? Me levarás contigo?
Serei teu traje em países que te criaram para derrubar-te
serei um cofre de boa erva que levarás em tua morte
e tu serás meu, vivo ou morto.
O guia está perdido, Rita,
E o amor, como a morte, é uma promessa sem devolução ou prazo de validade.
Rita me prepara o dia
qual perdiz que ondula acima em seus sapatos de salto alto.
Bom dia, Rita,
e nuvens azuis para os jasmins de tuas axilas.
Bom dia, Rita.
e frutas para a luz da manhã. Rita, bom dia.
Rita, retorna a meu corpo para que as agulhas
dos pinhos descansem um pouco em meu sangue abandonado. Sempre que
abraço a torre de marfim, fogem de minhas mãos as pombas.
Ela diz: Regressarei quando os dias e os sonhos mudarem. Rita. É longo
este inverno e nós somos o que somos.
Não tome palavras para dizer
eu sou,
essa que vendo-te pendurado em uma cerca, abaixou-se junto a ti e vedou tuas feridas.
Com sua lágrima te lavou, antes de cobrir-te de açucenas,
e passastes entre as espadas de seus irmãos e a maldição de sua mãe. Eu sou eu e ela.
Porém tu és tu?
eu sou,
essa que vendo-te pendurado em uma cerca, abaixou-se junto a ti e vedou tuas feridas.
Com sua lágrima te lavou, antes de cobrir-te de açucenas,
e passastes entre as espadas de seus irmãos e a maldição de sua mãe. Eu sou eu e ela.
Porém tu és tu?
...
Mahmoud Darwich
(tradução para o espanhol - Maria Luisa Prieto - para o português - Bárbara Lia)
Sunday, August 27, 2006
um poema
verde água
lava & enxágua
a m’água
me faz leve – grua -
origami na tua pele nua
até Allah, do outro lado da rua,
dá uma trégua
dentro do verde água
nosso amor flutua
apaga lampiões, acende a lua
verde água
verde água
a cor da doçura tua.
BÁRBARA LIA
lava & enxágua
a m’água
me faz leve – grua -
origami na tua pele nua
até Allah, do outro lado da rua,
dá uma trégua
dentro do verde água
nosso amor flutua
apaga lampiões, acende a lua
verde água
verde água
a cor da doçura tua.
BÁRBARA LIA
Friday, August 25, 2006
Frei Betto

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... fui jogado num cárcere, ainda em junho de 1.964. O que passa pela cabeça de um jovem de dezenove anos, leitor de Kafka e Erich Fromm, admirador de Franz Fannon, e que marcha diante do prédio do consulado americano, no Castelo, gritando "Yankes, go home!", e se dessenda no Teatro Opinião, em Copacabana, embebendo-se de arte?
Todas as prisões políticas são igualmente cruéis e ridículas. Sócrates foi prisioneiro político, acusado de corromper os jovens e desacreditar os deuses. Todos os prisioneiros políticos, desde então, receberam a mesma acusação, não há exceção. Mesmo Jesus andava seduzindo um grupo de jovens com quem partilhou sua última refeição e ao qual proferiu a mais radical confissão atéia: negou a divindade de César e o caráter sagrado do Templo, e proclamou que ele, o pobre de Nazaré, filho de carpinteiro, era o Messias.
Todos somos discípulos de Sócrates, nós, que antepomos os jovens ao velho mundo, à velha ordem, e negamos os deuses de conveniência do mercado.
Nem tudo, entretanto, era sombrio. Naqueles idos de nouvelle vague e Marilyn Monroe, de Oscarito e Grande Otelo, havia a festejar as derrotas do Império: Os vôos do Sputinik, o êxito da Revolução Cubana, os barbudos descendo sorridentes Sierrra Maestra, o fracasso da invasão da Baía dos Porcos, a surra levada pelos americanos no Vietnã, a revolução musical dos Beatles, o maio de 1968, o corpo ostentando a sua carta de alforria, o velho mundo chegando a seus estertores. E eu era parte do futuro, artífice de uma história implacável, irreversível, o alvorecer de todas as esperanças. Che abandonou seu cargo de ministro, as loas do poder, e anônimo, meteu-se no Congo e, em seguida nas selvas da Bolívia. Pulsava célere o coração da América Latina: um, dois, três Vietnãs!... Em minhas mãos, modelava-se o feto de um novo mundo, o imperialismo agonizava a olhos visto, e em seu enterro eu estaria lá para jogar o meu punhado de terra...
A MOSCA AZUL - pg. 33, 34 - Ed Rocco - FREI BETTO
. A Mosca Azul é uma reflexão sobre o poder. Hoje é aniversário de Frei Betto, dominicano, ativista dos Direitos Humanos, escritor.
Thursday, August 24, 2006
nosso aniversário
Amor Bastante
quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante
um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
Paulo Leminski
ALHAMBRA
Grata la voz del agua
a quien abrumaron negras arenas,
grato a la mano cóncava el mármol circular de la columna,
gratos los finos laberintos del agua
entre los limoneros,
grata la música del zéjel,
grato el amor y grata la plegaria
dirigida a un Dios que está solo,
grato el jazmín.
Vano el alfanje
ante las largas lanzas de los muchos,
vano ser el mejor.
Grato sentir o presentir, rey doliente,
que tus dulzuras son adioses,
que te será negada la llave,
que la cruz del infiel borrará la luna, que la tarde que miras es la última.
Jorge Luis Borges, Granada, 1976
*
quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante
um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
Paulo Leminski
ALHAMBRA
Grata la voz del agua
a quien abrumaron negras arenas,
grato a la mano cóncava el mármol circular de la columna,
gratos los finos laberintos del agua
entre los limoneros,
grata la música del zéjel,
grato el amor y grata la plegaria
dirigida a un Dios que está solo,
grato el jazmín.
Vano el alfanje
ante las largas lanzas de los muchos,
vano ser el mejor.
Grato sentir o presentir, rey doliente,
que tus dulzuras son adioses,
que te será negada la llave,
que la cruz del infiel borrará la luna, que la tarde que miras es la última.
Jorge Luis Borges, Granada, 1976
*
Leminski e Borges nasceram em um dia 24 de Agosto, como eu.
*
*
Meus presentes são presenças - uma rosa branca do Cairo e uma brisa mediterrânea (duas filhas dormindo no quarto ao lado). Este ombro do centauro que me guia. Pensar que o vigiei quarenta dias naquela UTI pediátrica e que um quilo de vida se transformaria em meu guardião-amigo-vida e fonte. O filho caçula. Pensar que me esqueço que hoje ele não vai à escola e o acordo tão cedo. Ele nada fala, ele diz sempre com aquela calma de amor...
- Feliz aniversário, mãe! Deita um pouco aqui, descansa.
Deito em seu ombro direito, ele me beija a testa, assim, como me beijava meu pai. Saudades do beijo paterno, do homem que me nominou Bárbara, e me fez guerreira, e livre. Saudade de outro ombro, o esquerdo onde pousei ouvindo um outro coração, desritmado, o êxtase no olhar, meu presente adiantado. Dois ombros, uma saudade, a brisa e a rosa, dormindo ao lado.
Bárbara Lia,
24.08.2006
Monday, August 21, 2006
Borges

O LABIRINTO
Este é o labirinto de Creta.
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro.
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações.
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos.
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.
JORGE LUIS BORGES
tradução de Miguel Angel Paladino
Friday, August 18, 2006
michel sleiman
Antimônio
Pego-me a colher o eco da onda quebrada já sem espuma
no instante sem tempo entre o escuro e o primeiro raio
pedra bêbada da água marinha
gasta mas ainda sedenta por cantoria
do ir-e-vir do grande ventre do mar, fêmea prenhe
ferida pelos dentes de Netuno.
Ó mar de esbelta figura
acossada pela loucura do sal excessivo...
queriam-te a concha do molusco
a escama do peixe
o couro da baleia
a areia a calçar o leito do monte invertido no fundo
queriam-te...
Manhã.
Foi levado à escola
- forçoso rito da civilização.
Levado no colo da menina guardiã.
Ali, no mar desencontrado das ondas
dos anfíbios sobre rodas...
deixou-se ir por tais ondas
a ouvir a sereia nas cordas dos anjos
o menino Tiago de 30 meses
confundiu o sangue na baba do mar
Ó mar queria-te a lágrima de Iemanjá riseira...
Por que Antígona ali assaltou a cidade
grito engolido pelo freiar no asfalto?
Michel Sleiman
Michel Sleiman leciona Literatura Árabe na USP.
Pego-me a colher o eco da onda quebrada já sem espuma
no instante sem tempo entre o escuro e o primeiro raio
pedra bêbada da água marinha
gasta mas ainda sedenta por cantoria
do ir-e-vir do grande ventre do mar, fêmea prenhe
ferida pelos dentes de Netuno.
Ó mar de esbelta figura
acossada pela loucura do sal excessivo...
queriam-te a concha do molusco
a escama do peixe
o couro da baleia
a areia a calçar o leito do monte invertido no fundo
queriam-te...
Manhã.
Foi levado à escola
- forçoso rito da civilização.
Levado no colo da menina guardiã.
Ali, no mar desencontrado das ondas
dos anfíbios sobre rodas...
deixou-se ir por tais ondas
a ouvir a sereia nas cordas dos anjos
o menino Tiago de 30 meses
confundiu o sangue na baba do mar
Ó mar queria-te a lágrima de Iemanjá riseira...
Por que Antígona ali assaltou a cidade
grito engolido pelo freiar no asfalto?
Michel Sleiman
Michel Sleiman leciona Literatura Árabe na USP.
Conheci Michel na UFPR em 2.004 em um curso universitário sobre Cultura Árabe, e o diálogo poético prosseguiu. Ontem quando recebi um e-mail contando sobre a morte de seu sobrinho Tiago, aqui em Curitiba, fiquei triste. Em julho estávamos um tanto preocupados, era o início da invasão do Libano, mas, havia sol na praça Santos Andrade, pude rever meu amigo que estava aqui visitando os familiares. Agora tem uma chuva em Curitiba, penso que é uma benção para a cidade esturricada, também é um rio de lágrimas pelo amigo poeta e por sua família enlutada.
Tuesday, August 15, 2006
no banheiro um espelho trincado

DE NEUSA SUELI PRA VADO, CARINHOSAMENTE
Baseado na peça Navalha na Carne, de Plínio Marcos
não me importa, Vado, que você ande com outras putas
enquanto cato pulga na cama
como quem tira bolinha do velho suéter
cheirando a veneno pra baratas
enquanto cato
pela manhã após a lida
migalhas de pão dormido
humanamente possível graças
a um gole de café preto requentado
migalhas que junto
minuciosamente
que nem uma carreira pra você
carinhosamente
sobre a mesa nua
rabiscada de desenhos obscenos e palavrões
feitos em dias felizes
com esmalte de unha e faca de espalhar manteiga
dias felizes em que você
de cueca camuflada e botas de vaqueiro
me dava pontapés nas canelas
me pegava pelos cabelos e...
Vado, serei sempre a sua puta
a mais velha delas
um exemplo
Sérgio Mello
(Ciência do Acidente, 2.004)
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