Livraria do Centro Cultural b_arco e Editora Multifoco
convidam para o Lançamento de Naufrágios de Chiu Yi Chih
Naufrágios é o novo livro do poeta, filósofo e performer chinês de origem taiwanesa Chiu Yi Chih. O poeta recentemente naturalizado brasileiro nasceu na ilha de Taiwan, migrou para China, Hong Kong, Macau e veio morar na cidade de São Paulo no final da década de 80. O livro é um percurso visionário pelas grandes metrópoles (TAIPEI-XANGAI-SÃO PAULO-EMBU DAS ARTES) e dialoga com as estranhas conjunções de Oriente-Ocidente. No dia do lançamento haverá o evento A poesia e a sua cidade com leituras e performances de:
Cláudio Willer (São Paulo)
Irael Luziano (Embu das Artes)
Marcelo Ariel (Cubatão)
Flávio Viegas Amoreira (Santos)
Chiu Yi Chih (Taipei/São Paulo/Embu das Artes)
acompanhado pelo citarista Alberto Marsicano
Luís Serguilha (Portugal)
José Geraldo Neres (Santo André)
Poetas da Associação de Escritores do Embu das Artes
Chiu se constitui em mais um indício de que algo melhorou neste país. Desde meados da década de 1990, e de modo mais evidente de uns cinco anos para cá, apresenta-se uma nova geração de poetas brasileiros. Os poetas que ousam. Rompendo com poéticas estanques, classificações estabelecidas, receituários e fórmulas de como criar...Integram a geração ou aquela parte de uma geração que entendeu o que o autor de Paranóia dizia. E Piva certamente teria gostado de escrever o prefácio para este livro de estréia de Chiu, exemplo dessa renovação literária. - Fragmento do prefácio de Cláudio Willer, poeta, crítico literário e colaborador da Revista Cult e Isto é, doutor em Literatura Comparada (USP).
Data: 29 de março, terça-feira, das 19:00 até 22:00.
Local: Centro Cultural b_arco. Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426 - Pinheiros -SP (Na travessa com a Rua Teodoro Sampaio na altura de 1633)
Quero ser Virginia Woolf. Viver em uma casa com serviçais para que eu possa apenas - ESCREVER. Ter um Leonard amoroso, cuidadoso, charmoso e gostoso que ama Literatura e publica livros de poetas que vão iluminar os séculos. Quero ter uma irmã que me visite para o chá. Quero ser Virginia Woolf e ouvir vozes. Quero adentrar um rio quando me cansar das vozes. Quero mergulhar fundo. Transferir para os dias meus a grandeza de antes, a pureza no sangue, apenas este desejo - traçar com régua e compasso uma obra. Toda a minha intenção quando adentrei o reino absurdo da Arte era escrever. Com a licença poética plagiar Drummond e raptar os versos de - AMAR. Para nós o sinônimo de AMAR é escrever.
Que pode um poeta senão,
entre criaturas, escrever?
escrever e reescrever,
escrever e revisar
escrever, apagar, escrever?
sempre, e até de olhos vidrados, escrever?
Passei o dia de ontem pensando no descompasso. No grito de tanta gente contra algumas ações que cutucaram nossa alma de poeta. A Lei Rouanet existe e qualquer um pode fazer uso dela. Certo? Sim, certo.
Não sou a melhor pessoa do mundo para preencher um projeto. Não tenho grana para pagar por eles. A dúvida é, tivesse grana eu pagaria? Não. Eu não pagaria. Pago caro por ter opinião. Então, eu as tenho evitado aqui na minha página. As políticas públicas seguem, contaminadas pela velha lei - para os amigos - tudo... Sem olhar a produção com cuidado, descartando os "complicados", os Poetas e suas manias esquisitas de não darem muita bola para o sucesso. Já ouvi isso. Que não tenho "sucesso" por não "merecer" o sucesso, pois sou esta pessoa arredia, calada, sem paciência para a bajulação e puxação de saco. Sou assim. A Poesia me completa. E não vou rebaixá-la ao limite do inócuo. Não me vendo por ela. Muito menos A VENDO.
Esqueçamos o MinC e vamos adiante. Nada mudou. Ainda somos Van Gogh sem orelha, ainda somos Kafka desnorteado como uma barata atacada pela luz fosca da medriocridade. Ainda somos Iessiênim escrevendo com sangue o bilhete da despedida. Ainda somos os que estão nessa por uma razão que ninguém vai entender mesmo. É claro que nossa vida ia ficar mais tranquila se a grana pública fosse para os pequenos na escala social, os pequenos de grana, com sede maior que os milionários. Se as Bibliotecas expandissem e se os professores abraçassem esta causa já que a família diluiu diante da TV e da novela das oito. Os professores, ao menos alguns que conheço, seguem com seus projetos lindos - Apresentar aos alunos a POESIA. Eu ouvi poesia e amei, eu me tornei poeta. Como uma criança vai saber o que é Poesia se não ouve nunca ouviu ou ouvirá? Verá fragmentos em apostilas, uma chispa pequena de uma diamante grandioso. Uma gota d'água de um rio cristalino.
Eu disse que quero ser Virginia Woolf, pois tenho uma alma antiga.
Quero ser Virginia e ter todo o tempo para escrever, antes de mergulhar no Lettes e deixar Leonard triste.
vou acabar com a vida de um vício por mês
fumo meu último cigarro pela primeira vez
treme minha mão por um copo pela última vez
nunca mais encontrei a canalha da cannabis
acho que ela foi morar na tumba do lapis
do pó eu vim, vi e venci
e não retornarei ao pó
curitiba
você é a única droga
que eu vou admitir na minha vida
(marcos prado , antonio thadeu wojciechowski e walmor góes)
Ultralyrics. Curitiba. Travessa dos Editores. 2005
Marcos Prado
MAIS 3 POEMAS DE MARCOS PRADO:
a mentira é a melhor é a melhor amiga das artes
nela, gelatinosa, as glosas seculares
minúcias de paisagens inexistentes
um coração onde cabe um milhão diferentes
dondoca de agora, amanhã de coturno
segue sempre os passos de um antigo perjuro
a arte imita a arte que imita tudo
e é profunda, é verdade, bem no fundo
mas somos piores que os pintores de florença
ridículos comparados aos poetas de provença
michelângelo cagaria em cima de nossas estátuas
bethoven se limparia com as nossas pautas
que é a nossa dança diante de um delírio índio?
que é um soco nosso perto de um clay vindo?
por que, se finda é a arte, continuar mentindo?
repetir o que se repetiu de novo se repetindo?
NÃO SE ANULE
Não salte dessa janela, meu poema,
resista.
Não mergulhe nesse tacho
de banha velha já tão podre.
Não se mate
Nessa corda cheia de nós
nessa merda sem vida.
Se mate, salte, mergulhe
se isso construir, destruir.
Seja teimoso e continue.
Não fale sozinho, fale.
Não se anule.
Não quero regras
para teu bote de tinta
e fala,
quero a tua voz
com tom de explosão nova,
como soco na cara.
(É preciso agora e aqui
não se atirar
nessa lama em coma.)
Olhe atento para o lado
depois olhe de cima
depois mergulhe
com fibra e olhos abertos
persistência de pulso pulsando
preparado para tiro na cara
faca que fura pulmão fácil
riso de não, sarcasmo portátil.
Meu poema
eu quero que você
resista!
TRISTES HOMENS AZUIS
não é blues, tristes, não é mesmo
a tristeza não faz um homem azul
o branco é branco, o negro é negro
ninguém é triste, não há blues
só existem, tristes, os tristes homens azuis
eles se vestem de branco e de negro
e os outros vêem azul
porque não são brancos nem negros
os tristes homens azuis
ninguém nasce azul
não se põe no mundo
alguém azul
mas quando a noite baixa
se levantam
os tristes homens azuis
Marcos Prado de Oliveira (Curitiba, 15 de Dezembro de 1961 – 31 de Dezembro de 1996) foi um poeta, músico, ator, jornalista e agitador cultural brasileiro.
Personalidade extremamente vigorosa e carismática, que à sua volta agregou um time excepcional de criadores. Dono de uma extensa cultura artística em geral que com seus parceiros compartilhava, dedicava-se com paixão ao trabalho de recuperação da cultura popular brasileira, especialmente a música dos anos 30 e 40.
Desde 1978 divulgou sua poesia dentro dos mais variados formatos, unindo a força expressiva de sua dicção com música, artes plásticas, teatro, cinema e, especialmente, uma presença pessoal que fazia de suas aparições públicas verdadeiros happenings...
Para ler a trajetória do poeta que eu - ADMIRO PRA CARAMBA - segue o link:
De 25 a 29 de março, a Fundação Casa do Estudante Universitário do Paraná (CEU) realizará a terceira edição do Ato Poético - Arena de Idéias: palestras, mesas-redondas, oficinas, leituras, performances, apresentações teatrais, festas, shows e muito mais.
A convite do João Andirá vou participar do Ato Poético III. MINHA FALA POÉTICA: dia 26/03 - sábado - 21h Local - Salão Nobre da Casa do Estudante Universitário
Mais informações na página do Ato Poético - link acima.
Minha poesia pousa em páginas e eu não consigo mais acompanhar seu vôo. Sempre uma surpresa como encontrei nesta manhã esta Arte Poética no blog ALUMIAÇÕES página da Lu Barboza de São Paulo. 2011 quero dedicar meu tempo à poesia que ficou esperando atrás da porta enquanto eu publicava e escrevia romances, vamos lá velha amiga senta aqui comigo, minha amiga-pássara que canta dentro de mim - Poesia - Amante fiel.
Os títulos das poesias abaixo são versos de Emily Dickinson - nove poesias do Prêmio Ufes Literatura:
"Sinal cifrado para enovelar o divino"
Trinta e dois ventos
da rosa dos ventos
Vinte e um gramas
do peso da alma
Oito países
a comandar a Terra
UM Deus louco
pelas ruas bombardeadas
"A real cicatriz você a tem?"
Signo de Salomão
na palma
Napalm na pele
Da alma
Tatuagem recebida
no berço
Caligrafia de Deus
- risco estrela -
Que oblitera
A pele canela
O mel de flor evaporada
Os traços arcaicos
Incinerados no espelho
Reflete em branca fogueira
Intacta
Minha alma
Ignorata
"O pedigree do mel não diz nada a uma abelha"
O rancor dos homens
Contaminou as flores
As abelhas morreram
De uma cólera doce
Último zumbido
Acordou o sol
Com a cadência afinada
De uma canção do Vangelis.
"A lentidão das palavras do arcanjo ao acordá-la"
O sagrado despe as ilusões
e abraça as árvores mortas
suas folhas de um azul esmaecido
qual o manto da Virgem de Cambrai.
Os ossos das árvores adoeceram
e elas morreram azuis
antes que tornassem brancos
os seus cabelos
"Ele dançou ao longo do dia pardo"
Guardo
Na ânfora púnica
O suor perfumado
Na saia indiana
O sêmen abençoado
Branca ilha no mar grego
Tua seiva na saia bordada
"O gelo da morte na vidraça"
Láudano para as dores reais
estas que bailam
nos olhos ejaculados
Para as dores invisíveis
chá de espectros
na chávena em chamas
Nunca me livrarei
dos vampiros anêmicos
Nunca os expulsarei
da mesa rústica
de sal e conchas
Ao meu redor -
a dança alucinada -
reverso do tango:
Ódio amornado em mel
Ódio guardado vaporoso
Ódio consagrado em si bemol
Purpurina enfática cai
Nas feridas frias
Como manto de rainha bastarda -
Azul - de ódio adulterado
"Eu me escondo em minha flor"
Baile das harpias
Em árvores carbonizadas
Rindo do fim
Fumaça sangra
Nosso jardim
A alma do éden
Adoentada
"Escanear os céus com um ar suspeito"
Não olhes o sol
A olho nu
Isto se chama
Violentar Deus
Irado, Ele abrirá
Escaras em tua retina
Abrirá o portal
Do abismo
Para cegar teu olhar
Que ousa afrontar
A Luz!
"Próximo ao âmbar e a um mínimo céu"
Teus olhos sépia
A sinfonia dos cães
O balé dos beija-flores
O sorriso das hortênsias
O som sem igual das palavras:
Bella Bartok
Railway
Ars Amatoria
Unicórnio
Leonard Cohen
BÁRBARA LIA
Prêmio Ufes Literatura
poesias do livro inédito "A flor dentro da árvore"
Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Poz-se a cantar
Um canto molhádo e lindo.
O seu halito perfuma,
E o seu perfume faz mal!
Deserto de aguas sem fim.
Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...
Elle afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado...
Ao longe o Sol na agonia
De rôxo as aguas tingia.
«Voz do mar, mysteriosa;
Voz do amôr e da verdade!
- Ó voz moribunda e dôce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte...»
. . . . . . . . . . . . . . . .
De cada livro extraí uma poesia - Antologia Pessoal:
Bem-te-vi
Ramagem arranha janela.
Sonho: Aeroporto fantasma.
Espíritos de náufragos do Titanic.
Ku Klux Kan ateando fogo ao enforcado.
Sequência horripilante:
A mulher sem olhos na cama,
Entre lençóis úmidos de chuva.
Acordo com o bem-te-vi
Na manhã de sol
Na mesma paisagem.
O sorriso de Leonardo - Kafka Edições Baratas / 2004
Kamikases
Doze kamikazes
Arrastam a delicada açucena
Doze kamikazes
As lágrimas descem
Feito fontes
Nenhuma música
De anjos sonoros Nenhuma
Nas nuvens que passeiam
Exausto de tédio, atira longe
O grão da maldade – o dragão da guerra
O sal das rosas - Lumme Editor (2007)
Layla
Calçadas molhadas
- Uma lâmpada grávida
Estremecida de sol pequeno -
A lembrar
Que ainda é verde o trigo
Florirá
Amanhã
Em sol granulado
Farpas de doçura
Sempre.
A última Chuva - Mulheres Emergentes (2007)
21 Gramas - livros artesanais
Primavera para Beethoven
Também os bosques são sinfonias
No silêncio da bela arquitetura
Teias de aranhas são partituras
Por mais casta que seja a analogia
Em nítida alegria toda tessitura
De um concerto pleno de alegorias
Traçando entre o verde, harmonias
Asas dos pássaros voam alturas
Entre galhos , o vento ouvem
E um exército de aves se levanta
Rasgando em asas o ar fuligem
Uma paisagem etérea-sacrossanta
Primavera para o triste Beethoven
Que fulge entre o verde e - livre - canta
Adamare (2010_
Chá para as borboletas
Janela - espelho meu.
Fragrância de almíscar selvagem
Me violenta
Menino com aura violeta
Jovem com juba desgrenhada
Velocidade lenta
Garganta do poço este túnel
Cinza, onde trafego dias
Penso na infância, sombra
Dos eucaliptos, recanto secreto
Onde eu servia chá às borboletas
Chá para as borboletas (2010)
capa - Ane Fiúza
O poeta morrerá
O poeta morrerá
Às dezoito horas
De um dia fora do tempo
- Sem aviso -
O poeta morrerá
Em cada manhã de caos
De pão saturado de suor
De ruas saturadas de rancor
O poeta morrerá
Meio ao comercial
Da loja de colchões
O poeta morrerá -
Uma Pietá a amparar
Suas asas quebradas -
Na penumbra dos umbrais
O poeta morreu
Poe Orpheu
(E corvos tão iguais
nos beirais)
Uma só rosa no meio do inferno é o paraíso. Eduardo Lourenço escreveu isto, um poeta lusitano. Uma só rosa! Rosa sub-rosa extra-rosa proto-rosa magma-rosa ex-rosa. O furor daquela mulher desabrochou em uma rosa UNA. Os pelos dela nuvem lassa entre as coxas brancas - nuvem caramelo - pelos perfumados qual o coração. Afundava as narinas entre os pequenos lábios abraçado às suas coxas e cheirava como a um alucinógeno - o céu o céu o céu. Afastava a cortina de fogo brando e violava sua flor acesa. O coração trôpego querendo alcançar o céu da boca... Estes são os dias em que as aves se debruçam para olhar uma cena e morrem de infarto. Estouram na calçada, pássaros caídos do nada. Mortos após contemplar a orgia amorosa e plena.
Coreografia do Caos (2010)
Nebulosas no quintal
Cá estamos os dois
A lavar os panos de dentro
Xomo as antigas lavadeiras
Cá estamos os dois
A clarear a alma
Para sanar os corpos
Cá estamos os dois
Com as almas à relva
A quarar toda mágoa
A vasilha preparada:
Bacia de alumínio
E água de anil
E lá vem Deus
A nos espremer
Entre os dedos Seus.
A torcer-nos retirando
As lembranças tortas
As tentativas mortas.
Duas almas claras
Lavadas no anil
Sem manchas
Sem memória
Deus nos assenta
Com cuidado
No cesto de vime.
Deus nos acomoda
Como duas nebulosas
No quintal de sua casa.
À sombra da noite clara
Latona no meu encalço
Espectros da última primavera
O Rio Loire, um duplo do Aqueloou
Meu Monte Sípilo é Ville-Èvrard
Onde endureço carne e alma
Delírios brancos, visões:
Escunas leves com velas de vidro
E tombadilho de pétalas
Estilhaçam na roupa cinza
Ferem-me, beijam-me – qual o amor
Meu ódio espelha o trágico
Anseio que o mundo petrifique
Qual Zeus petrificou Tebas
Sonho com o anjo da restauração
Acordo. Nada se restaura
Tudo igual:
Cama dura de ferro
Urinol fétido, trincado
Três tâmaras secas
Dois gatos no cio a quebrar
O silêncio arredio da madrugada
Os loucos acordam com vislumbres de luz
- Átimo de lucidez.
Acenam lenços de seda à Latona fria
Choram um beija-flor e já no corredor
Vestem o olhar vazio.
Andam autômatos como rios mortos
Deságuam cinzas
No jardim de Ville-Èvrard.
PARA CAMILLE, COM UMA FLOR DE PEDRA / 2010
***
Primeira percepção:
A noite é perfumada
A menina Magnólia vivia como se fosse alma.
Hoje a realidade a prega no chão bruto, piso marrom manchado de vinho, janela com cortina bege e vista para o bairro.
Vista para a cidade cinza.
Magnólia sempre foi alma.
Sempre usou o corpo como um títere.
Manejava acima o enredo seu: escolhia a música e a poesia.
O corpo era instrumento amorfo.
Vivia com a alma.
Percepções.
A primeira percepção da menina – A noite é perfumada.
Respirava a noite.
Calçada estreita de cimento cinza e lateral de tijolos díspares como dentes encavalados.
A fila de tijolos ocres cercando a calçada cinza quase branca e acima dela mais brancas ainda as pequeninas flores e mais acima e mais brancas quiçá, as estrelas.
O perfume era imã para a felicidade.
De dentro da casa a luz não era irritante como as deste século.
Ligeiramente avermelhada como o brilho das sementes de romãs.
No rádio uma música de seresta, ou uma viola sertaneja.
A noite é perfumada;
Nunca soube se de mínimas flores ou de estrelas aquele perfume.
Mas guardou a imagem intacta na tela:
A menina magrela com vestido de babados de tecido anarruga branco.
Cabelos curtos, uma franja bonita na testa sábia.
Saltitando entre uma chuva de pequenas pétalas em uma estreita calçada.
Nascida em Assaí, Bárbara Lia faz sucesso com literatura -
Título de matéria no site - Revelia - que traz notícias da região de Assaí
Assaí - vivi lá apenas até os 3 anos e por lá tenho primos, mas, raramento visito a cidade onde nasci. Embora esta notícia tenha sido um vento de carinho. É preciso proximidade para guardar memórias. A proximidade permite a lembrança, o perfume de tudo, o tatear de toda a matéria ao redor. Lembro Peabiru por ser o lugar onde descobri o mundo e a Poesia. Assaí é oficialmente a cidade onde nasci. O lugar em que despontei para esta vida - louca vida - e quiçá deva voltar e subir os degraus que dá para uma igreja e andar pela avenida principal e visitar meus primos e dizer - olá - para a cidade onde nasci: Assaí.
Assai = amanhecer.
Aurora de algodão.
Ecos do tiro de Vargas.
Agosto hostil.
Percorro a linha elíptica
Aurora – Poente.
Sonhos & Sons.
Êxtase.
Cimitarras na carne.
Dança em etnas-lençóis.
Olhos plenos de orvalhos.
Agonia.
Paz.
Não temo o poente.
É quando a luz se espalha.
A terra se agasalha.
Aceno lenços-poemas
Na despedida.
Um sorriso-açucena.
Visto o luar.
Entro na noite branca
Meio ao aplauso das estrelas.
"Nada sobre a terra traz mais pressão ao espírito humano que o vácuo." do filme Lost Zweig
Li hoje na Gazeta do Povo que a TV Educativa vai implantar a sua nova grade de programas. Finalmente - Provocações - de volta. Roda Viva e outros programas retransmitidos pela TV Cultura - São Paulo. Paulo Vitola o diretor-presidente diz na reportagem - “O estigma persiste embora tenhamos tirado da programação qualquer conteúdo de natureza política. O foco principal é valorizar o bom produto cultural do Paraná”.
Ontem a TV Educativa e a TV Brasil transmitiram o filme Lost Zweig do diretor Sylvio Back. Vi o filme - novamente - gosto da trilha sonora deste filme (Raul de Souza e Guilherme Vergueiro) gosto da canção desta cena This world of ours - Marlene Dietrich
Lost Zweig narra os últimos dias do escritor austríaco Stefan Zweig (60 anos), autor do famoso livro, “Brasil - País do Futuro”, e sua jovem esposa, Lotte (33). Baseado no livro - Morte no Paraíso - de Albert Dines, roteiro de Sylvio Back e Nicholas O"Neill.
O tema central do filme é a "morte voluntária" presente na trama através da leitura de Zweig naqueles dias - Montaigne - em livros que sua primeira mulher Friederik enviava. No filme ele vive com Lotte, pobre Lotte, o amor dele segue em memórias e cartas que ele troca com a primeira mulher. Que não é aquela que vai morrer por ele e com ele. Lotte empreende esta viagem. Com a coragem de quem ama ela salta para o abismo eterno, ao lado daquele "que ama mais que a própria vida" conforme confessa em um determinado momento. Assusta meu coração saber que minha infância viveu à sombra de um homem que não admiro - Getúlio Vargas - naquele quadro que meu pai colocou na parede - a carta-testamento - ao ódio respondo com o perdão. O peso de um aniversário que coincide com a data do tiro que ecoava na minha data natalícia. Ter nascido um ano após o suicídio de Vargas. O impasse do escritor austríaco com o governo brasileiro que se nega a agilizar o seu pedido, conceder vistos para judeus que estão em risco na Europa. O mesmo governo que anos antes entregara Olga Benário grávida à Gestapo. A paixão de Zweig pelo paraíso (Brasil) e o encontro que o cineasta Sylvio Back colocou no filme. O improvável encontro entre Orson Welles e o escritor que ele admirava. Liberdade poética do roteiro. Por estarem os dois - coincidentemente - à mesma época no Rio de Janeiro. O suicídio de Zweig é tratado como um gesto poético no filme, por ser um gesto poético. Um ato voluntário de protesto. Muitos protestam entregando a vida, é o suicídio lírico. O mesmo de Bakun. O mesmo de tantos que se incendeiam em praças públicas. Chega um momento em que é preciso interromper a morte lenta.
"Por que somente aquele que é feito em pedaços anseia a perfeição" diz Stefan em um determinado momento.
Gosto imensamente deste filme.
Prêmios de Lost Zweig:
36º FESTIVAL DE BRASÍLIA/2003
“Melhor Atriz” (Ruth Rieser)
“Melhor Roteiro” (Sylvio Back e Nicholas O’Neill)
“Melhor Direção de Arte” (Bárbara Quadros)
7ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES - Seleção Oficial
XXII FESTIVAL CINEMATOGRAFICO INTERNACIONAL DEL URUGUAY/2004 - Seleção Oficial
Planto jardines en pantanos, gándaras.
Despido nubes cenizas, negras, densas.
Azuleo el cielo en el más profundo éxtasis.
Recompongo islas perdidas en archipiélagos
Como viejas primas que se reencuentran.
Del río antiguo recojo escombros
Hasta visualizar el alma de los peces
Fosforados, róseos.
No alcancé el tesoro-mor.
Tu alma enclaustrada en el océano-mirada.
Recojo arpones
poemas-redes
ilusiones.
Al fracasado corazón.
*
TÁBULA RASA
Las puertas de la ciudad blanca
Abiertas de par en par.
Mi espíritu, tábula rasa
Antes de la fecha en el tiempo grabada
Para alcanzar la sacrosanta ciudad
Sigo besando lombrices,
Como si fueran jazmines.
*
DOLOR MARINO
La brisa violenta erizaba algas
En el profundo océano – final del amor.
El cielo jamás se hará antes.
Silencio de serpientes lo que quedó.
Antes, ángeles tañían laúd
Y yo usaba el anillo de topacio que me diste.
Lo arrojé al mar.
Caballo de agua entre olas – adiós.
*
CANTATA FUGACE
La cantata aviva el recuerdo.
El mar feroz, la barca.
Velamen afligido, clepsidra inaugurando el final.
Adiós a los besos en tu piel de nácar.
Nostalgia, soledad de hielo.
La cantata prosigue, Eolo lancinante.
Veo la ira impregnada en la mirada
Reluciente, la frente pálida.
Pasos huyendo, tilapia
Aflicta de vuelta a las aguas.
Mi mundo arenal
Encubierto de brasa.
El perfume del sándalo me eleva
Y la cantata aviva las lágrimas – anochece.
"O amante" de Marguerite Duras, li duas ou três vezes o livro, vi três vezes o filme. Ontem comentava com minha amiga Luciane sobre este livro de Marguerite Duras. Há vinte anos me senti próxima da menina que encontra o amante. Lembro que nesta época em que eu pensava recuperar o sonho de menina e escrever meus próprios livros, foi este livro que me deixou sem ar. E a Biografia de Frida Kahlo. E a poesia, sim. Sempre a poesia.
Fragmentos do livro "O amante" de Marguerite Duras:
"Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Entre dezoito e vinte e cinco meu rosto tomou uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com todos, nunca perguntei. Creio que alguém já me falou dessa investida do tempo que nos acomete às vezes na primeira juventude, nos anos mais festejados da vida. Esse envelhecimento foi brutal."
**
"A história da minha vida não existe. Ela não existe. Jamais tem um centro. Nem caminho, nem trilha. Há vastos espaços onde se diria haver alguém, mas não é verdade, não havia ninguém. A história de uma pequena parte da minha juventude, já a escrevi mais ou menos, quero dizer, já contei alguma coisa sobre ela, falo aqui daquela mesma parte, a parte da travessia do rio. O que faço agora é diferente, e parecido. Antes, falei dos períodos claros, dos que estavam esclarecidos. Aqui falo dos períodos secretos dessa mesma juventude, das coisas que ocultei sobre certos fatos, certos sentimentos, certos acontecimentos. Comecei a escrever num ambiente que me obrigava ao pudor."
**
"Deixe-me contar de novo, tenho quinze anos e meio. Uma balsa cruza o Mekong."
**
"Vejo agora que muito jovem ainda, com dezoito anos, com quinze anos, eu tinha este rosto, premonitório daquele que adquiri em seguida com o álcool na meia-idade da minha vida. O álcool desempenhou a função que Deus não exerceu, também a função de me matar, de matar. Este rosto de álcool, eu o adquiri antes do álcool. O álcool apenas o confirmou. Tinha em mim esse lugar reservado, eu o percebi como todos os outros, mas, curiosamente, antes da hora. Assim como tinha em mim o lugar para o desejo. Aos quinze anos tinha o rosto do prazer e não conhecia o prazer. Os traços do prazer eram muito acentuados. Até minha mãe devia vê-los. Meus irmãos os viam. Tudo começou assim em minha vida, com esse rosto visionário, extenuado, as olheiras antecipando-se ao tempo, à experiência."
(Recebi este e-mail do Edu Hoffman. Os meus haicais que estão neste texto são fragmentos de poesias do livro Noir. O Edu raptou alguns versos e transformou em haicais)
Haicai e seus afluentes
Haicai é um poema de origem japonesa, que chegou ao Brasil no início do século 20 e hoje conta com muitos praticantes e estudiosos brasileiros. No Japão, e na maioria dos países do mundo, é conhecido como haiku.
Segundo Harold G .Henderson, em Haiku in English, o haikai clássico japonês obedece a quarto regras:
- Consiste em 17 sílabas japonesas, divididas em três versos de 5, 7 e 5 sílabas.
- Contém alguma referência à natureza (diferente da natureza humana).
- Refere-se a um evento particular (ou seja, não é uma generalização).
- Apresenta tal evento como “ocorrendo agora”, e não no passado.
O grande mestre desta arte é Matsuo bashô (1644-1694). Ex-samurai, monge praticante do Zen e estudioso das escritas clássicas chinesas e japonesas, dedicou sua vida ao seu aperfeiçoamento espiritual e à escrita. Observações da natureza, impessoalidade, rapidez, síntese e transcendência deram um toque zen a esta forma de poesia..
No Brasil foram feitas algumas traduções de Bashô; no entanto, como o idioma japonês é feito de ideograma, a tradução literal torna-se impossível. Mas a beleza permanece:
“Velha lagoa
o sapo salta
o som da água”
*
“Primavera não nos deixe
pássaros choram lágrimas
no olho do peixe”
(Tradução de Paulo Leminski – Ed.Brasiliense - Matsuo Bashô – A Lágrima do Peixe – 1983 – Coleção Encantos Radicais )
“A nuvem atenua
o cansaço das pessoas
olharem a lua”
*
“Em cima da neve
o corvo esta manhã
pousou bem de leve”
Quando o haicai começou a ser feito no Brasil, ele tropicalizou-se. A primeira mudança visível foi a rima, não praticada originalmente. Isso já deu um jeitinho mais brasileiro ao poema. E também deixou de existir a necessidade do haikai tratar de observações da natureza e da impessoalidade.
O cartunista Solda cometeu esse haicai que considero genial:
Faltou assunto
fiquei a sós
com o defunto
Millôr Fernandes saiu com esse:
O que me adiantaria
comer Maria
se ninguém saberia ?
No meu livro “Bambus”, bashô o santo em mim:
Blues morcego blues
diabo botando letra
na melodia de Deus
O Baianárabe Waly Salomão criou:
saudade
é uma palavra
o sol da idade
e o sal das lágrimas
Gostei tanto da brincadeira de rebuscar os haicais, que tive a curiosidade de verificar o que tenho em casa de livros de poetas “haikaistas” brasileiros. Verifiquei que, ao tropicalizarmos o zen, brotaram uns haikais bastardinhos bem zenvergonhas, porém deliciosos! Dos livros que tenho, peguei dois poemas de cada. Mergulhe !
Ricardo Silvestrin:
Oswald
pôs o pau
Brasil pra fora
*
Porta de escola
eu sentado
dentro de mim
Jaques Brand
Muro caiado
Ah meu amor de olvido!
Muro caído
Ah meu amor de enfado!
*
um tigre
dois cisnes
três signos
Edu Hoffmann
memória rã
meu micro
sóft!
na lagoa
*
poeta nua
no moon
da lua
Alice Ruiz
o ai
quando o filho
c
a
i
*
que viagem
ficar aqui
parada
Paulo Leminski
isso aqui
acaso
é lugar
para jogar sombras?
*
coração
pra cima
escrito em baixo
frágil!
Mario Flecha
pela manhã
o quarto desarrumado
ainda o sonho das filhas
*
inverno
naquela manhã
eu e vovô
enterramos meu cachorro
João Ângelo Salvadori
tudo parece pouco
mal o dia amanhece
quero outro
*
olhos cheios de mar
me estico na cama
e fico boiando
Mário Prata
a lua no cio
os elefantes caminham
na beira do rio
*
lençol vermelho
lua branca
no travesseiro
Helena Kolody
persigo um pássaro
e alcanço apenas no muro
a sombra de um vôo
*
de grinalda branca
toda vestida de luar
a pereira sonha
Solda
Bashô, Busson e Issa
o resto
é pra encher lingüiça
*
Bashô, meu pai
conceda-me
apenas um haikai
Thadeu Wojciechowski
pra pai
até que levo jeito
pra mãe
não tive peito
*
a canção que soa
tem o coração do vento
que me sopra à toa
Sérgio Rubens Sosséla
uma andorinha
s o l
faz verão !
*
a esperança
de você viver comigo
dourou um dia inteiro
Jack Kerouac
eu, meu fumo
minhas pernas dobradas
pra lá de Buda
*
tem nada lá
só porquê
eu não quero
Valnei Andrade
o sol na rua se movimenta
o menino sentado olha
o velho em câmera lenta
*
traço de nanquim
bashô pinta só
plantas no xaxim
João Ângelo Salvadori
rigor do ofício
tudo que não seja haicai
é um desperdício
*
lua errada
revirei toda a noite
e nada
mais alguns avulsos:
Paulo Franchetti
ao virar a esquina
saindo detrás do prédio
a lua cheia
Yosa Buson
frescor
a voz do sino
quando deixa o sino !
Teruko Oda
noite de verão
na janela envidraçada
cabe a lua cheia
Paulo Leminski
tarde de vento
até as árvores
querem vir para dentro
Thadeu Wojciechowski
conversa de passarinho
por ninharia me sinto
um estranho no ninho
Issa Kobayashi
caracol, docemente, docemente escala o Fuji
Yosa Buson
halo de lua:
não é o aroma da ameixeira florida
nascendo no céu ?
Solda
primavera
ainda esta semana
cometo um ikebana
Edu Hoffmann
vem de longe
d i v a g a r
se vai ao monge
Bárbara Lia
No galho alto
Pássaro bicou a paina
Repercutiu neve
*
Não dá para respirar
Lambendo meu coração
O ar agora arranha
Lisa Carducci (Québec)
durante teu sono
brinco com as nuvens
e nem percebes
André Duhaine (Québec)
nos vidros
marcas de dedos e narizes
observam a chuva
Jeanne Emrich
seu jardim
meu jardim
a cerca no meio
Edu Hoffmann, natural de Jacarezinho-PR. Poeta e jornalista, em Curitiba desde 1974. Autor dos livros Trens, Rasantes, Sete Quedas da Paixão e Bambus.
Sonhei que em um lugar desconhecido alguém desconhecido diz com uma desconhecida voz que vou viver apenas mais dois anos. Acordo e o dia está claro e ensolarado. À noite a chuva virá, ela sempre vem. Sacudir o calor da casa e me deixar feliz, por amar a chuva, eu fico feliz. O dia todo a imagem do sonho, um lugar parecido com ambulatório de seriado americano e a pessoa a me lembrar que só restam dois anos. Um sonho estranho este que ficou grudado em mim. A vida esfuma tão rápido, e ainda estou tocada pela inusitada partida do homem que foi meu - O pai dos meus filhos. Morte fulminante a dele, sem aviso, sem adeus. O mundo se abrindo diante dos pés das "crianças"... Nossas crianças... Banzo sonhos abortados Fred Mercury no último volume no som do carro - Love of my life- fui o amor da vida dele e ando recolhendo imagens, escaneando todas as suas fotos, a pedido de sua irmã. Um dia inteiro, uma manhã, mais uma tarde. Copiando todas as suas fotografias, para um álbum de eternidade. A gente só se torna eterno depois que morre...
foto de Luiz Cesar (1961-2010)
A sereia da casa do escultor.
Eu vivia no interior quando conheci meu ex-marido. Parece que ele foi viver aquele tempo na minha cidade só para me conhecer. Sua família não viveu nem dois anos por lá, e ele que sempre viveu entre Curitiba e Paranaguá acabou regressando e me roubando para bem longe do território da minha infância e juventude. Ele era fotógrafo e quando nos separamos ele deixou algumas fotos, entre elas a primeira obra de arte que vi na vida. Quem passou a infância em Peabiru recorda a casa do escultor José Moser. Onde uma sereia impávida contemplava a rua, fixa ali na varanda. Há alguns anos quando visitei a cidade da minha infância descobri que a sereia foi retirada da casa, e a rua diante da casa tem agora o nome do escultor. Mesmo antes da morte do Luiz eu tocava a magia que era ele ter fotografado um pedaço da minha alegria de menina, que era estancar diante da casa e ficar contemplando a sereia.
Não é uma resenha, análise literária acadêmica. Os poetas merecem o apuro de um olhar sobre estes livros, todo cuidado para tocar um tesouro. Um livro de poesias de um poeta verdadeiro é um tesouro... então, a tarde que passo em volta dos livros na Biblioteca Pública engendra este tipo de diálogo, e escrevo no bloco artesanal ao ritmo das leituras...
Em 2002 o amarelo gritante da capa de - As banhistas - abduziu esta poeta. Li o livro em uma tarde de verão - Pasmada! Pisei mares e areias ao lado dele e pensei - UM POETA! Nem todos os livros que tem poemas impressos são livros de poesias escritos por poetas. As banhistas era.
Ao encontrar Monodrama na estante eu me agarro ao negror da lombada da capa e ao sentar para ler em um recanto sossegado neste começo de 2011 eu penso - MAIS QUE POETA!
Os poemas são longos. Belos, sugam-nos para um lugar. Não conheço muito bem o Rio de Janeiro. Os passeios sempre às pressas. Lembro a poesia da Enseada de Botafogo quando esperava o ônibus para o Aeroporto, ali perto da casa da Clauky Saba, onde ela vivia quando fui ao Rio lançar - A última chuva. Fiquei olhando e pensando em como o Rio me entotece.
E a luz que colho quando piso as ruas do Rio. Até então eu só me hospedara em Copacabana. Agora, piso ruas do Bairro Botafogo e percebo que aquela luz está em toda parte do Rio...
E é de luz que Carlito fala em um poema lindo e longo...
(...)
Quem diz luz
diz algas diz cianobactérias
quem diz luz
diz impressão de espaço
diz: logo à noite
cintilando para ninguém
de um só lance meu olhar
abraça os olhos da alpinista triste
e diagnostica
pânico de chek-in
(...)
é preciso ler monodrama, para trilhar poemas assim...
Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...
Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chovia do céu
E enegreceu os caminhos ...
Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê — eu não tinha medo —
pus-me a rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...
Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranqüilamente, como o muro do quintal;
Tendo idéias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...
Sentia-me alguém que nossa acreditar em Santa
Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!
(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente e visível
Ou que julgará dela?)
(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
É Deus, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós ...
Ali, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)
E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega.
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema IV"
ler esta poesia trouxe à memória a mãe queimando ramos bentos e clamando por Santa Bárbara em dias de tempestades...